O médico João Jazbik Neto foi denunciado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) pelo feminicídio de Fabíola Marcotti, morta no dia 18 de maio deste ano, na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande. A denúncia foi apresentada nesta segunda-feira (24) à 2ª Vara do Tribunal do Júri da Capital.

Além do feminicídio, João foi denunciado por violência psicológica contra a mulher, posse irregular e ilegal de arma de fogo e fraude processual. Elodir Hofmann e Geovane Garcia Abbegg também foram denunciados pelo MPMS por supostamente terem ajudado a modificar o local do crime.

Segundo a denúncia, João e Fabíola mantinham um relacionamento amoroso, com períodos de coabitação, havia mais de dez anos. O Ministério Público afirma que a relação era marcada por controle exercido pelo médico sobre a companheira e por episódios de violência psicológica.

O MP cita, entre os elementos utilizados para sustentar essa acusação, informações encontradas no diário pessoal de Fabíola.

Vítima teria sido agredida antes do disparo

A denúncia apresenta uma dinâmica do crime que, segundo o Ministério Público, teria começado com agressões físicas antes do disparo que matou Fabíola.

Conforme os elementos periciais citados na acusação, a vítima teria sido atingida na cabeça por um objeto corto-contundente. O primeiro golpe teria feito Fabíola cair de joelhos. Em seguida, ela teria sofrido uma nova agressão e caído no chão.

Ainda de acordo com o MPMS, depois de já estar caída, a cabeça da vítima teria sido levantada e ela foi atingida pelo disparo fatal.

O laudo necroscópico citado na denúncia aponta traumatismo cranioencefálico provocado por projétil de arma de fogo como causa da morte. Já a perícia realizada no imóvel teria concluído que o local apresentava elementos compatíveis com a ocorrência de feminicídio.

Para o Ministério Público, a forma como o crime teria ocorrido também caracteriza meio cruel e dificultou a defesa da vítima, que teria sido surpreendida e teve a capacidade de reação reduzida antes do disparo.

Diário é citado em acusação de violência psicológica

O diário de Fabíola também aparece na denúncia como elemento para sustentar a acusação de violência psicológica.

Segundo o MPMS, João teria adotado comportamentos de controle sobre as ações e decisões da companheira. Entre as situações descritas está o chamado “tratamento de silêncio”, quando, durante conflitos, o acusado interromperia deliberadamente a comunicação com Fabíola.

Na avaliação do Ministério Público, esse comportamento teria provocado sofrimento emocional e afetado a autonomia da vítima.

Estante com armas teria sido retirada do local

Outro ponto da denúncia envolve a suposta alteração da cena do crime. Segundo o MPMS, após a morte de Fabíola, João teria orientado Elodir e Geovane a retirar do cômodo uma estante onde eram armazenadas armas de fogo, além de uma arma longa.

A acusação sustenta que os três teriam agido em conjunto para modificar o cenário antes da chegada da polícia. O objetivo, segundo o Ministério Público, seria induzir a perícia a erro e dificultar a investigação. Os policiais, entretanto, teriam localizado posteriormente a estante em outra residência dentro da propriedade. Conforme a denúncia, diversas armas foram encontradas no móvel. A arma longa também teria sido localizada no imóvel.

Elodir e Geovane foram denunciados especificamente pela suposta fraude processual relacionada à alteração do local do crime. Segundo o MPMS, os dois teriam relatado que receberam orientação para retirar os objetos antes da chegada dos policiais.

Denúncia cita centenas de munições

João também responde às acusações relacionadas à posse de armas de fogo e munições sem autorização legal.

Entre os armamentos apreendidos estão um revólver calibre .357 Magnum, um fuzil calibre 7,62, carabinas, espingardas e rifles. A denúncia cita ainda uma carabina calibre .22 com numeração aparentemente suprimida, apontada no documento como arma de uso restrito.

Ao todo, segundo o processo, foram apreendidas 438 munições intactas e nove deflagradas, além de uma luneta de pontaria.

Processo será analisado pela Justiça

Com a apresentação da denúncia, o Ministério Público pediu que os acusados sejam citados, que as testemunhas sejam ouvidas e que os réus sejam interrogados.

O MPMS também requer o prosseguimento da ação até uma eventual decisão de pronúncia e, posteriormente, o julgamento pelo Tribunal do Júri. A denúncia foi assinada pela promotora de Justiça Luciana do Amaral Rabelo nesta segunda-feira (24).

As acusações ainda serão analisadas pela Justiça. A denúncia representa a versão apresentada pelo Ministério Público e não significa condenação dos acusados, que terão direito à defesa durante o processo.