Frente a Frente
Segurança - Candidatos detalham em sabatina, planos para combater crime e violência em MS
Segurança na fronteira, facções criminosas, feminicídios e estrutura das polícias entraram no debate durante as sabatinas
Segurança na fronteira, avanço de facções criminosas, feminicídios, valorização das forças policiais e uso de tecnologia estão entre os principais desafios apontados pelos candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul na sabatina 'Frente a Frente - Eleições 2026'.
Também entraram no debate a violência contra a mulher, conflitos em áreas rurais, população em situação de rua e combate ao crime organizado.
EDUARDO RIEDEL
SBT-MS: Candidato, nos últimos anos, a quantidade de feminicídios em Mato Grosso do Sul aumentou. Seu plano de governo prevê ampliar o uso de tornozeleiras e também o alerta de aproximação por celular. Porém, na maioria dos casos de feminicídio, o assassino não tinha sequer medida protetiva. Quais outras ações poderiam produzir resultados mais eficazes no combate a esse crime?
Riedel: Esse é um tema extremamente sensível e caro para todos nós, da sociedade sul-mato-grossense.
Quando o assunto chega à segurança pública, é porque já falhamos como sociedade. Quando esse caso está na delegacia, é porque estruturalmente temos um problema. Isso não é normal.
O primeiro passo é Mato Grosso do Sul reconhecer e tipificar corretamente os feminicídios. É importante dizer que Mato Grosso do Sul é o Estado que mais tipifica homicídios de mulheres como feminicídio: 55%. A média brasileira é de 43%, porque nós não jogamos o problema para debaixo do tapete.
Por isso, a média é mais alta. E a média é alta no Brasil inteiro. Esse é o primeiro ponto.
Segundo, precisamos criar cada vez mais consciência e estabelecer uma rede de proteção para que o caso não chegue à segurança pública. Essa rede de proteção é papel de todos.
A nossa secretaria capacitou, em 47 municípios, mais de 20 mil servidores públicos para ficarem atentos e participarem dessa rede de proteção.
Quando uma possível vítima chega ao posto de saúde, ela dá sinais. A situação está difícil em casa, ela chega machucada ou, às vezes, vestida de uma maneira que não condiz com a normalidade dela.
Você tem a violência financeira, a violência moral e a pressão sobre os parentes, até chegar à violência física e a um eventual feminicídio. É difícil tratar tudo isso em dois minutos, mas a rede precisa funcionar.
Na segurança pública, somos intransigentes. Mudamos todos os processos desde o caso da Vanessa, que foi um marco para mim. Revolucionamos a estrutura de atendimento. Essa rede está funcionando. Sabatinas jd1 2026
SBT-MS: No seu plano de governo está prevista a inclusão desse tema na grade escolar, algo muito interessante. A partir de quando, governador?
Eduardo Riedel: A partir do ano que vem. Estará na grade escolar porque faz parte da mudança estrutural da sociedade. Caso contrário, ficaremos enxugando gelo.
No que diz respeito à segurança pública, temos 72 municípios com Salas Lilás e mais duas Casas da Mulher Brasileira sendo construídas, com novos processos envolvendo a Defensoria Pública, o Ministério Público, o Governo do Estado, as delegadas, a Polícia Civil e a Polícia Militar.
Formamos policiais militares para atuarem como oficiais de Justiça. O Tribunal de Justiça autorizou isso no Estado para não haver dois ou três dias de demora na notificação do agressor. Estamos inovando dentro do sistema para oferecer uma resposta rápida.
Hoje, não há dois ou três depoimentos. É apenas um, gravado e distribuído imediatamente ao Ministério Público, à Defensoria, ao Tribunal de Justiça, ao juiz e ao delegado.
Estamos mudando e inovando para ganhar agilidade e oferecer maior proteção. Agora, essa questão é estrutural e vamos atacar o problema. Sabatinas jd1 2026
A Crítica: Candidato, quando falamos de segurança pública, também precisamos falar dos conflitos que estão acontecendo nas áreas rurais de Mato Grosso do Sul. De um lado, temos os produtores rurais pedindo segurança jurídica. Do outro, temos os direitos dos povos originários. O que o senhor pretende fazer de diferente, caso seja eleito para a próxima gestão, para garantir tanto o direito dos produtores rurais, que pagaram pelas terras, quanto o direito dos povos originários?
Riedel: Já comecei a fazer diferente e quero continuar fazendo.
Primeiro, há 30 anos venho dizendo que essa solução não será equacionada no Judiciário, porque são dois direitos constitucionais em conflito. Você fica em um limbo jurídico, e o Congresso e o STF não avançaram para uma solução definitiva nesse sentido.
A compra das áreas era uma solução que poderia mitigar o problema. Foi o que aconteceu em Mato Grosso do Sul em dois ou três casos, de maneira inédita.
Isso era absolutamente descartado pelo Judiciário e pelos governos, mas aconteceu aqui.
Depois de uma discussão judicial de 30 anos e de um processo de amadurecimento, a área foi comprada e entregue à comunidade indígena.
Esse é um lado da história do conflito. Agora, a principal ação precisa ocorrer dentro das comunidades indígenas, com educação, saúde e infraestrutura, áreas nas quais nunca houve atuação política direta ou interesse.
Nós avançamos nisso e queremos avançar ainda mais. Sabatinas jd1 2026
FÁBIO TRAD
SBT-MS: E o cidadão está muito preocupado, candidato, com a tentativa de uma facção criminosa se expandir e entrar na região norte do Estado. As forças policiais estão combatendo isso. Se o senhor quiser citar qual facção seria essa, fique à vontade. E o que o senhor faria para combater as facções criminosas aqui no Estado?
Fábio Trad: Crime organizado está onde o Estado está desorganizado. É preciso ocupar, reocupar, retomar os territórios onde a criminalidade organizada está instalada. Mas como culpar os policiais por isso?
Cada policial militar trabalha por dois. Nós temos um déficit aí de 50%, praticamente, de policiais militares, pouco valorizados. Quem de nós aqui viveria com R$ 100 de vale-alimentação ao mês? Os praças recebem isso.
Nós vamos criar o Centro Integrado de Inteligência da Fronteira: Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal, Receita Federal, Polícia Rodoviária Federal e Estadual, Polícia Federal, com compartilhamento de dados, uso de satélites, drones e, sobretudo, leitura automática de placas para detectar as zonas de maior vulnerabilidade, de insegurança, e desarticular, com esse compartilhamento de dados, o núcleo, a raiz, aquela que estrutura financeiramente essas organizações criminosas.
É preciso buscar o dinheiro. Quem lava? Quem é que produz? Quem é que faz atravessar? E assim, estrangulando financeiramente essas organizações, nós podemos, ao menos, fragilizá-las para combatê-las de igual para igual.
Mas, por exemplo, Polícia Civil: nós precisamos de investigação. Imediatamente, os 417 vão ser empossados. Estão aguardando aí, depois de meses e meses de preparo, foram até para a Acadepol, não estão nomeados. Virão.
Agora, Marcos, onde nasceram essas organizações criminosas? Não foram nas ruas. Elas nasceram nos presídios. Portanto, é preciso recompor o efetivo da Polícia Penal e valorizar a inteligência penitenciária da Polícia Penal. Ali vai se detectar quem é quem e vamos buscá-los.
SBT-MS: A organização criminosa, a facção em questão, é o Comando Vermelho, no norte do Estado, que tenta se infiltrar lá. O senhor citou seguir o dinheiro. Especialistas dizem justamente isso. O senhor, como advogado, se pudesse alterar o Código Penal, incluiria o quê para combater as facções criminosas?
Fábio Trad: Tudo aquilo que for possível sofisticar no plano legislativo para fortalecer a inteligência na investigação eu quero fazer. Porque a questão das penas, nós temos penas altas. A questão das penas, veja bem, nós que atuamos no Direito Penal, como professor, sabemos que aumentar penas, por si só, não induz à redução da criminalidade.
Feminicídio: aumentamos a pena máxima para 40, aumentou a incidência. O que é que é preciso fazer? Nós temos que alcançar o feminicida, nós temos que alcançar a estrutura, a arquitetura que abastece financeiramente as organizações criminosas.
E muitos deles hoje estão engravatados, muitos deles estão em prédios luxuosos. Nós precisamos buscá-los, expor à opinião pública o que é, na verdade, que eles fazem com o Brasil. E vamos fazê-lo.
A Crítica: Candidato, nos últimos meses nós estamos acompanhando um aumento muito grande de mortes envolvendo esses confrontos policiais, criminosos e policiais. Essa pauta, essa situação, preocupa o senhor hoje? E o que o senhor faria de diferente para poder mudar a organização da forma como tudo isso vem acontecendo hoje aqui no Estado de Mato Grosso do Sul?
Fábio Trad: Há um aumento na letalidade policial. Cada caso tem que ser analisado de forma individualizada. Um bandido tira a arma para um policial, ele tem que agir em legítima defesa. Está lá no artigo 25 do Código Penal.
Agora, se houver abuso, que seja processado e punido de acordo com a lei. O que nós não podemos é tolher a atividade policial.
Qual é a diferença de um policial para um delinquente? O policial tem que ser mais talentoso, habilidoso e preparado que o delinquente na questão relacionada à contenção e repressão. Mas ele tem uma limitação: a lei. A lei o limita. O delinquente não tem compromisso com a lei.
Por isso, nós temos que prepará-lo. Eu quero fazer com que a elite das polícias vá para o exterior se preparar para serem os melhores do Brasil aqui em Mato Grosso do Sul. Eu vou financiar isso.
DELCÍDIO AMARAL
SBT-MS: No seu programa de governo consta que o senhor defende o uso de câmeras corporais nos uniformes dos policiais. Por quê?
Delcídio: Eu vou mais longe. Vou comprar mais carros, mais viaturas, mais armamento. A primeira deficiência que temos é na Polícia Militar.
Tem gente que, inclusive, já fez concurso e não foi contratada até hoje. Entra governo, sai governo, promete a mesma coisa. Hoje o que vale é inteligência, segurança de inteligência.
Cadê o Sisfron? Eu conheço o Sisfron porque acompanhei o trabalho dos militares. Essa discussão de juntar Polícia Federal, Polícia Militar e Polícia Civil, o Sisfron congregava isso associado à tecnologia.
Naquela época não existia drone, era Vant, veículo aéreo não tripulado, monitorando fronteira contra descaminho, contrabando e tráfico de drogas.
Hoje, as cidades que são primeiras em segurança têm o conceito de cidade inteligente: câmera, internet, uma central de comando. E as câmeras corporais fazem parte desse processo.
Eu sei que, para muitas pessoas, esse é um dispositivo incômodo, mas tem servido para esclarecer muitos delitos ocorridos no Brasil. Sou tecnológico mesmo e radical em tecnologia. Quero ver meu Estado assim, especialmente na segurança pública.
SBT-MS: Na questão das câmeras nos uniformes, o senhor chegou a conversar com o sindicato da categoria para saber o que os policiais pensam?
Delcídio Amaral: Não. Existem restrições. Eu converso, dialogo com todo mundo. Mas tenho posições pessoais também. Não necessariamente pelo fato de algum segmento ser contra eu sou obrigado a acompanhar.
É um tema polêmico, inegavelmente. Acho que teremos uma grande caminhada pela frente, como também um projeto com essa profundidade do ponto de vista de tecnologia, porque ele muda muitos conceitos.
Estão fazendo uma experiência em São Paulo chamada Smart Sampa. É um helicóptero com câmera que monitora a cidade. A câmera identifica o rosto, manda para uma central de comando e mobiliza a polícia imediatamente. Nós não podemos fazer isso?
A Crítica: Na fronteira de Mato Grosso do Sul existem organizações criminosas muito bem estruturadas. Até que ponto um governo estadual pode interferir nas políticas federais nessas fronteiras?
Delcídio Amaral: É impossível não promover essa integração. Não é a Polícia Militar ou a Polícia Civil do Estado que vai resolver.
Essa integração que o Sisfron começou é absolutamente fundamental. Eu conheço bem o Sisfron, porque o primeiro cara a colocar recursos no Sisfron fui eu, quando era relator do Orçamento Geral da União.
Infelizmente, politizaram essa discussão, como tudo no Brasil hoje. É polarização para tudo quanto é lado. Mas, se não houver unificação de informações, dados e mobilizações, não vai funcionar.
Tanto é que, como isso está dissociado, olha o crime organizado. O crime organizado está tomando conta de tudo, inclusive das instituições.
JOÃO HENRIQUE CATAN
SBT MS: O primeiro censo da população em situação de rua em Campo Grande aponta 1.476 pessoas na Capital. A essa população são atribuídos muitos furtos, principalmente de fios. Comerciantes e moradores da região central não suportam mais isso. Como resolver essa questão?
Catan: Também são problemas antigos. Mas vamos voltar para São Paulo. São Paulo fez uma investigação e o Estado foi a fundo para ver onde estava a origem, quem estava financiando, qual era o traficante, qual era a facção criminosa que estava operando e utilizando essa população, que hoje tem aumentado porque é vulnerável.
Agora, o meu policial, o policial de segurança de Mato Grosso do Sul, vai ser valorizado. Ele vai receber um auxílio-alimentação dos cabos, um valor digno, condizente.
Como vamos falar que o cara vai receber R$ 100 para dar 15 plantões, que não dá R$ 6 para comprar uma coxinha? E você olha um vereador, um secretário, qualquer outro cargo, recebe um auxílio-alimentação. Pode olhar no Portal da Transparência: R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 3 mil. Isso não é justo para o meu policial. Isso vai mudar em Mato Grosso do Sul.
E tem mais. Essas pessoas, esses cidadãos que estão vulneráveis aqui na Capital e no Estado inteiro, em condição de rua, trabalhando para facções criminosas, para assaltar, vender droga, roubar fio, eu posso garantir que, dentro do nosso governo, dentro do nosso partido, não vão ter espaço para disputar cargo de vereador, deputado estadual, prefeito e trazer a bandidagem para dentro da política.
É combater o crime como um todo, valorizar a tecnologia, a utilização dela, a investigação verdadeira, dando condições para a minha polícia trabalhar de maneira digna e valorizada.
SBT MS: Especialistas dizem que se resolve a questão da população em situação de rua com moradia, emprego e saúde. O senhor concorda?
Catan: É todo um contexto. Você citou a população de rua, mas tem as mulheres, tem o feminicídio, tem todos esses índices que nós estamos vendo que acontecem por falta de uma política integrativa, preventiva. O Estado falhou, está quebrado.
Não resta alternativa a não ser aumentar tributos. Por isso que eu quero entrar para mudar, para abrir a caixa-preta e para que não seja essa a alternativa.
Como nós vamos falar em uma política multidisciplinar e integrativa se eu tenho comprovante, coloquei na Assembleia Legislativa, de que o Estado de Mato Grosso do Sul não pagou a conta de telefone do Corpo de Bombeiros e da polícia? Se você ligasse nesse período, estava cortada a conta e o Estado reconheceu.
Então nós temos que dizer para esse cidadão que ele vai ter essa política, que eu concordo com a tua fala, mas que isso vai ser realizado porque nós vamos diminuir a máquina.
Nós vamos tirar aqueles cargos, reestruturar, modificar. Meu compromisso não é com o deputado, não é com o prefeito, não é com o inchaço da máquina. Meu compromisso é com o povo de Mato Grosso do Sul.
A Crítica: Além dessas questões relacionadas a problemas habituais da Capital ou de grandes cidades, Mato Grosso do Sul tem a questão da fronteira. Como o senhor garante que as propostas apresentadas no seu plano de governo vão garantir mais segurança na fronteira na prática?
Catan: Nós temos uma fronteira aberta com países como Paraguai e Bolívia, uma das maiores existentes, e é uma dificuldade muito grande.
Eu convivo com Ponta Porã, com Corumbá, desde a minha infância, conheço os grupos e hoje, na condição de cidadão do meu Estado, eu me sinto inseguro nesses locais. É difícil.
A gente viu, e a mídia mostrou, como foram exterminadas lideranças do PCC dentro desses locais. Não havia condições de qualquer polícia de Mato Grosso do Sul impedir que as pessoas que foram ali guerrear na rua, a céu aberto, tivessem algum tipo de contenção policial.
Então, a polícia vai receber valorização, tecnologia e total condição para enfrentar bandido.
Eu sou daqueles que acha, acredita, que o bandido bom é bandido morto mesmo. Sabatinas jd1 2026
LUCIEN REZENDE
SBT MS: O governo norte-americano orientou que seus cidadãos não viajem para uma faixa de fronteira entre Paraguai e Bolívia em Mato Grosso do Sul devido ao perigo da atuação de facções criminosas. O senhor concorda com esse recado?
Lucien Rezende: Não nesses termos vindos de americano. Mas a gente tem que cuidar da nossa fronteira, que é extensa. Acredito que, com inteligência, aplicação de recursos e mais aparato para os nossos policiais, dá para melhorar.
Nós temos bons policiais civis e militares em Mato Grosso do Sul. Acredito que a gente tem que investir mais em inteligência e colocar drones para ajudar esses policiais na fiscalização e no combate ao crime organizado.
Temos que buscar mais aparelhos, mais estrutura de trabalho para esses profissionais da segurança. Não adianta só ficar no discurso. As facções não param de crescer e não param de agir. Então, nós temos que agir rápido.
SBT MS: Em quais municípios da região de fronteira o senhor agiria de forma mais rápida?
Lucien Rezende: Eu acredito que o maior fluxo é Ponta Porã, Amambai, aquela região que você vai até Mundo Novo. É uma região que hoje a gente vê que tem muita questão de tráfico de drogas e é onde é mais pesado.
Tem outros municípios que a gente já vê que não são tão perigosos, mas tem os que a própria polícia já sabe e já tem monitorado. Então, acredito que, através desses estudos e desses profissionais, a gente vê o que realmente precisa para melhorar. Não tenho dúvida de que tem que investir mais em aparelhos e inteligência.
A Crítica: Existe no senso comum a afirmação de que o PSOL e outros partidos de esquerda costumam “passar a mão na cabeça de criminosos”. Como o senhor analisa essa frase e qual seria o papel de um governador do PSOL diante dos problemas de segurança na fronteira?
Lucien Rezende: Eu acredito que isso é folclore. Você não tem que estar passando a mão na cabeça de pessoas que estão cometendo atos errados e prejudicando a nossa população.
Eu acredito que a polícia tem que agir realmente com rigor, dentro da lei, de forma democrática, respeitando os direitos humanos. Acho importante isso. Tem que ser um trabalho sério, respeitoso, mas tem que estar sempre atento para defender a nossa população.