Frente a Frente
Desenvolvimento, Tecnologia e Inovação - Em sabatina, candidatos revelam planos para impulsionar economia
Propostas do último eixo abordado, passaram por industrialização, qualificação profissional, pesquisa e apoio à produção
Os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul apresentaram propostas para impulsionar a economia, ampliar a inovação e preparar o Estado para novas oportunidades durante debate do último eixo da sabatina “Frente a Frente – Eleições 2026”.
No bloco sobre Desenvolvimento Econômico, Tecnológico e Inovação, Eduardo Riedel (PP), Fábio Trad (PT), Delcídio Amaral (PRD), João Henrique Catan (NOVO) e Lucien Rezende (PSOL) responderam a perguntas sobre atração de investimentos, qualificação da mão de obra, infraestrutura, apoio aos pequenos produtores e uso da tecnologia.
EDUARDO RIEDEL
Campo Grande News: Candidato, a partir da reforma tributária, o incentivo fiscal deixará de ser um instrumento de atração. Em seu plano de governo, o senhor apresenta o Estado como articulador e indutor. Em quais áreas o Estado deve apostar para continuar crescendo?
Riedel: Elegemos alguns temas prioritários em termos de investimento, que também são temas globais.
As guerras que estão acontecendo no mundo não são por acaso. Elas envolvem o domínio desses ativos globais: segurança alimentar, energia renovável e tecnologia, que nunca esteve tão vinculada às commodities, tanto na energia quanto nas terras raras. Se pegarmos esses temas, Mato Grosso do Sul tem vocação natural, conhecimento, inteligência e capacidade para promover investimentos nas áreas em que somos competitivos.
Por isso, estamos recebendo investimentos não apenas em fábricas de celulose, mas também em proteínas animais. Veja o quanto crescemos em suínos, aves e no parque industrial de bovinos, com a continuidade e a agregação de valor dessas indústrias. Não quero parar na fábrica de celulose. Quero a fábrica de papel, de papelão, de tissue, a distribuição, a rede logística e a Rota Bioceânica funcionando, levando para fora do país o produto acabado. Nas proteínas animais, isso já está acontecendo.
Veja também o que está acontecendo na energia renovável. O primeiro data center de Mato Grosso do Sul foi construído por um motivo: o fornecimento de energia estável e limpa.
Em Ivinhema, um município pequeno do interior do Estado, uma indústria de bioenergia consegue, por meio da geração estável de energia de biomassa durante o ano inteiro, alimentar um data center, que está no topo da cadeia em termos de investimento tecnológico.
Esse data center está a serviço de uma empresa de mineração de bitcoin. Olha do que estamos falando. As coisas se conectam a partir do momento em que você direciona os investimentos para temas corretos e nos quais temos alta competitividade.
CG News: Eu queria que o senhor falasse de quem é pequeno. Sempre falamos das commodities e da exportação porque este é um Estado que tem essa vocação. Mas como ajudar quem produz, em menores quantidades, os alimentos que permanecem aqui, para que possa aumentar a produção e oferecer produtos melhores e preços menores ao consumidor?
Eduardo Riedel: Há duas ações importantes. Primeiro, o pequeno produtor e o agricultor familiar precisam ter acesso à infraestrutura, que é uma das coisas mais difíceis, e à assistência técnica de qualidade. Eles precisam ser competitivos.
Sobre o valor e o preço dos produtos: quando uma indústria de etanol de milho chega, o que acontece com o preço do milho? O pequeno produtor que produz milho vê o preço da commodity alcançar um patamar melhor por causa da demanda local e do processamento feito aqui. Esse é um dado.
Agora, diversificação, assistência técnica e infraestrutura são fundamentais para o pequeno produtor.
A agroindustrialização é outro eixo importante. Ontem à noite, eu estava discutindo com um grupo de pequenos produtores a instalação de uma pequena fábrica de mandioca no assentamento deles para produzir farinha e outros produtos específicos para o mercado local. Essa linha é fundamental.
JD1: Governador, no seu plano de governo, o senhor fala em atrair pelo menos dois novos centros de pesquisa, desenvolvimento e inovação até 2030. Eu gostaria que o senhor detalhasse esse projeto.
Eduardo Riedel: Por meio dos investimentos em ciência e tecnologia, estamos conseguindo fortalecer muito a nossa rede de mestres, doutores e pós-doutores. Temos uma rede de pesquisa muito sólida.
Não é à toa que Mato Grosso do Sul ocupa a primeira colocação no Centro-Oeste no ambiente de inovação. O Estado saiu da vigésima e alguma posição para a 12ª colocação nacional.
Essa é uma área fundamental se quisermos aumentar a produtividade e a eficiência. Não estou falando apenas do governo, mas da sociedade como um todo. Precisamos investir nessa base tecnológica e científica em diversas áreas.
Quando falamos em centros de pesquisa, estamos falando de atrair instituições públicas ou privadas para estimular determinadas áreas.
No hidrogênio verde, por exemplo, a Universidade Federal está com um grande projeto. Cabe uma ação específica nessa linha aqui no Estado. Sabatinas jd1 2026
FÁBIO TRAD
CG News: Candidato, no seu plano de governo o senhor fala que Mato Grosso do Sul tem um crescimento concentrado e muito focado nos produtos primários e semi-elaborados. Queria que o senhor falasse disso, de agregar valor, desconcentrar o crescimento, tentar trazer para dentro de cidades da Rota Bioceânica, por exemplo, público para ir lá consumir produtos, ativar a economia local.
Fábio Trad: Minha ideia não é empobrecer os ricos. A minha ideia é fazer com que as pessoas pobres ascendam para a classe média e possam consumir o mínimo de possibilidades para viver uma vida feliz. Qual é o prejuízo disso para quem está na elite? Se as pessoas consumirem mais, vai gerar mais lucro para o empreendimento.
Eu quero que uma família pobre tenha condições, ascendendo de classe social, de ir a um restaurante e viajar. Qual é o prejuízo disso? Como é que nós vamos desconcentrar?
Como é que vamos fazer isso? Nós vamos dar condições para desenvolver serviços que sejam adequados às pessoas, para que tenham condições físicas e psicológicas de trabalhar em empresas qualificadas, com salários dignos. Isso nós vamos fazer.
Também no ciclo da progressividade tributária: quem tem mais, paga mais. O Estado não adota esse tipo de progressividade. Então, por exemplo, o ITCD, que é o imposto sobre herança de bens imóveis, é uma lei que, como a lei complementar federal determina, pode ser progressiva. O Estado tem autorizado que uma pessoa que herda uma casa pague o mesmo percentual de quem herda 20, 15 fazendas.
E nós precisamos, então, através da administração do Estado, concentrar o nosso esforço e valorizar tecnologia, tecnologia e inovação. Porque o ser humano não é mais braçal, nem muscular. É tecnológico, é cerebral.
CG News: Quando o senhor fala sobre a iniciativa que, por exemplo, pode ajustar para a produção, imagino que isso pode ser um fator de elaboração de coisas mais programáticas.
Fábio Trad: Mas, por exemplo, o programa que nós temos construído, a maior solução é o quê? Fazer parcerias, através desses financiamentos de agricultores familiares, uma agricultura artesanal, essa que dá o alimento, por exemplo, para nós. Universidades públicas, universidades federais, para fazer geradoras de tecnologias, multiplicação de startups tecnológicas, softwares.
Eu sou amigo do agro, eu tenho pelo agro um respeito profundo. Só que eu quero que o agro não esgote apenas o que sai da terra. O agro tem que ter também a tecnologia do agro, industrializar o agro. Essa industrialização do agro qualifica a mão de obra para pagar mais do que aquele que não ganha. E, assim, ele vai gerar mais renda, vai consumir mais, e todos vão sair ganhando.
É nessa direção que nós vamos seguir.
DELCÍDIO AMARAL
CG News: No seu plano de governo, o senhor destaca o potencial econômico que Mato Grosso do Sul ainda tem a explorar. O que pode ser aplicado aqui para ampliar o crescimento econômico e ir além do que o Estado já alcançou?
Delcídio Amaral: Somos um Estado mesopotâmico. Tem o Rio Paraná de um lado e o Paraguai do outro, que são modais de transporte absolutamente competitivos. Temos uma estrada de ferro sucateada, lamentavelmente, que foi uma das piores privatizações do Brasil e prejudicou muito nosso Estado.
Nós temos o gás natural. O que ficou até então foi o que eu fiz quando era diretor da Petrobras, essa termelétrica aqui de Campo Grande e a outra de Três Lagoas. Por que não difundiram o gás natural na matriz energética de Mato Grosso do Sul?
Nós já podíamos ter diesel, gasolina, fertilizante e GLP do gás natural da Bolívia. Não fizeram.
Na redução de minério de ferro, tiramos o minério de Corumbá, mandamos para baixo e a Argentina faz a redução. Eles ganham US$ 50 por tonelada só para fazer a redução.
Estamos perdendo oportunidades extraordinárias para mudar o perfil de Mato Grosso do Sul. As primeiras ZPEs do Brasil eu aprovei na Comissão de Economia e não fizeram nada, porque ou não entenderam ou não gostam de inovação.
CG News: O senhor citou Santa Catarina, que se tornou um polo de inovação. Mato Grosso do Sul também tem potencial para se tornar um polo de inovação?
Delcídio Amaral: Um absoluto potencial. Eu acompanho a moçada porque vim dessa área. Se você vir a vontade que esses caras têm e o que estão fazendo, mas você tem que ter um projeto para criar essa sinergia com essa inteligência que vem vindo.
Esses caras que estão sendo formados em tecnologia estão indo embora para São Paulo, Florianópolis e Curitiba. Por quê? Porque não tem um projeto estruturado para isso.
É muito bonito falar em tecnologia, mas você tem que ir fundo e colocar gente competente para fazer. Temos um potencial enorme, inclusive de serviços. Campo Grande é uma cidade de serviços. Você imagina um polo tecnológico aqui atendendo indústria e produtor rural? É espetacular.
JD1: Seu plano prevê incentivo ao empreendedorismo de base tecnológica, incubadoras, startups e aceleradoras regionais. Essa proposta aparece em várias campanhas. Qual é seu diferencial para fazer isso sair do papel?
Delcídio Amaral: Tenho legitimidade para isso porque conheço tecnologia e sei como é o babado. Santa Catarina eu acompanhei muito de perto.
Acompanhei esse desenvolvimento inteiro. Sei onde estão os pontos fracos, os pontos fortes, onde tem que buscar gente, eventualmente de fora, para qualificar essa turma e colocar esse polo tecnológico em pé.
Se isso for feito, não tenho dúvida nenhuma. Vai ter um impacto, vai ser um diferencial absurdo no perfil econômico e social do Estado. Porque não adianta gerar riqueza para meia dúzia. Você tem que capilarizar esse desenvolvimento e focar em tecnologia.
JOÃO HENRIQUE CATAN
CG News: O senhor deixou claro que seu DNA é liberal na economia. O senhor imagina que o desenvolvimento econômico se estabelece conforme o interesse do mercado ou o seu governo, caso eleito, será um indutor? De que forma?
Catan: Eu respeito a teoria, concordo e acredito que o Estado é indutor quando nós não temos aqui o empresário que consiga fazer ou que defenda os interesses do Estado na matéria que a gente deseja desenvolver.
Por exemplo, cidadão, olha aqui em Campo Grande essa parceria do PP, da prefeita Adriane Lopes com o governador. Olha a porta da tua casa, olha quando chove, olha o que tem acontecido. Cidadão de Mato Grosso do Sul inteiro, isso tem acontecido no Estado.
Para recuperar a malha viária do Estado, rodoviária, é preciso colocar o Fundersul diretamente direcionado para a rodovia. Não permitir o desvio.
É preciso criar condições de termos uma agência estadual de mineração que vai pegar o minério que é produzido para produzir o asfalto, que é o basalto.
Então nós vamos induzir, nós vamos criar. Sabe o que é uma agência estadual de mineração? Uma usina de concreto, uma usina de asfalto e uma empresa pública que vai ter máquinas específicas para recuperar a malha viária.
Eu vou duplicar as rodovias que não são duplicadas no meu Estado há muito tempo. Vou pegar aqueles 6 mil quilômetros, mais ou menos, que nunca são pavimentados de rodovia estadual e vou levar pavimentação, porque nós vamos criar condições com tecnologia, induzindo o desenvolvimento.
Quando eu tive essa ideia, eu não sabia que outro Estado fez e deu muito certo. O Estado de Santa Catarina hoje tem consórcios, tem usina de asfalto, de concreto e pedreiras estaduais, que nós vamos colocar nas nove regiões do Estado para que possam fornecer mais barato para as prefeituras o asfalto e também para as rodovias que eu quero pavimentar e duplicar no meu Estado.
CG News: O senhor fala em oferecer infraestrutura para que o investimento privado venha, mas como pensa que o governador deve agir para trazer investimento privado?
Catan: O primeiro ponto é que as rodovias precárias encarecem a produção, encarecem a produção no Estado de Mato Grosso do Sul.
Os incentivos fiscais estão na ordem de quase 50% daquilo que a gente arrecada, sem qualquer transparência.
Vocês são um grupo de jornalismo que tem aqui quase todos os grupos mais importantes de audiência do meu Estado. Não é normal, não é legítimo, não é correto que vocês não saibam quem são as pessoas que recebem incentivo fiscal de Mato Grosso do Sul.
A Assembleia Legislativa não conhece quem são os beneficiários de R$ 11 bilhões.
Imaginem vocês que são casados e que o teu parceiro omite 50% da renda enquanto a tua casa quebrou, está inundando, alagada, faltando comida dentro da geladeira.
É esse o Estado de Mato Grosso do Sul que está sendo entregue para o próximo governador.
JD1: Hoje Mato Grosso do Sul perde profissionais capacitados para outros estados. E, quando grandes indústrias vêm, como é o caso da celulose, os trabalhadores dos melhores postos são de fora porque temos pouca mão de obra local qualificada. O senhor fala na criação de parques tecnológicos e incubadoras no seu plano de governo. De que forma pretende conciliar a capacitação profissional com esses parques?
Catan: Tudo é dinheiro, investimento e multidisciplinar. Nós temos que entender, em continuidade à resposta que eu dava, que esses incentivos ao Legislativo, ao Ministério Público, à imprensa, que eu respeito como parte do poder do meu Estado e do meu país, são omitidos. Imagina ao cidadão que está nos assistindo ali.
Todos os anos, o candidato Riedel toma do orçamento aproximadamente R$ 11 bilhões, agora projeta R$ 13 bilhões, arrecada R$ 27 bilhões e não explica qual é a contrapartida que essas empresas que recebem esses incentivos têm para poder receber.
Como vão devolver? Quem eles vão capacitar? Sabe como é feito?
Trazem essas empresas. Essas empresas vêm para Mato Grosso do Sul, montam um canteiro, bagunçam a cidade e, depois que elas vão embora, trouxeram ali apenas o emprego.
Eu não sei se não era melhor dividir a renda com o município, investir nas unidades habitacionais, que esse candidato não entregou e prometeu na eleição passada.
LUCIEN REZENDE
CG News: Seu plano de governo menciona que Mato Grosso do Sul recebeu grandes fábricas, mas ainda enfrenta desigualdade. Qual seria o modelo ideal de desenvolvimento econômico para o Estado?
Lucien Rezende: Desenvolvimento econômico também passa por infraestrutura. Desde 2010 foi falado no Estado que viriam as megafábricas de celulose. O governo tinha tempo para fazer um planejamento, para fazer uma duplicação, pelo menos, da rodovia. Não foi feito. As fábricas chegaram, foram construídas, já estão em operação e a rodovia está impactada. Então, isso mostra que não houve planejamento.
Nós estamos discutindo a Bioceânica, que vai transformar Mato Grosso do Sul em um corredor. Não estamos vendo, do lado brasileiro, planejamento do Estado que vá atender esse corredor em logística para realmente atrair empresas de fora, principalmente com tecnologia.
Nós ainda temos pontes de madeira que dão uma chuva e são levadas embora. Tem recurso para ser aplicado, para fazer, para a gente poder atrair grandes empresas. Como você vai atrair grandes empresas se não tem infraestrutura e planejamento?
CG News: O que o Estado poderia fazer para incentivar pequenos produtores e setores que deem mais autonomia a eles, movimentem a economia local e reduzam a dependência de grandes fábricas?
Lucien Rezende: No nosso programa, nós temos a instalação de cinco áreas verdes, que são polos de produção. Nós queremos fazer em Três Lagoas, Campo Grande, Dourados, Corumbá e Ponta Porã. Para quê? Para atender o pequeno produtor.
Então, esse cinturão verde sendo implantado vai gerar mais renda, mais oportunidade, mais emprego para o pequeno produtor. Se você for hoje em frente à Ceasa, vai ver chegando centenas de carretas do Paraná, de São Paulo e de Goiás com produtos desses Estados.
Nós temos terras iguais ou melhores e não temos um fomento na agricultura familiar pelo atual governo. A gente quer inverter isso e valorizar o pequeno produtor com a implantação desses cinturões verdes.
JD1: Existem programas de formação de trabalhadores, mas ainda há pouca formação tecnológica e muitas vagas permanecem abertas, principalmente nos setores de serviços e construção civil. De que forma o Estado pode ajudar a qualificar trabalhadores para que essas vagas sejam ocupadas?
Lucien Rezende: Nós temos hoje a UEMS e eu acredito que ela está em 16 polos. Em 79 municípios, temos só 16, 18 UEMS. Acredito que isso tem que ser ampliado para a gente levar formação para essa juventude.
Vou dar um exemplo. Quando se instalou essa fábrica em Ribas, hoje está gerando em torno de 3.500 empregos. Se tiver 200 de Ribas é muito. Por quê? Porque o Estado não veio na frente para fazer uma formação com essa juventude, com esses trabalhadores do nosso Estado.
Vieram trabalhadores de outros estados, pegaram os melhores salários — não sou contra quem trabalha, tem que ganhar realmente bem —, mas a oportunidade surgiu para quem não era do nosso Estado. Quem é daqui não está pegando essas oportunidades porque não tem esse planejamento, não tem essa visão de formar os nossos trabalhadores.