Esta semana o vereador Lídio Lopes (PP), que também é pastor evangélico, ocupou a tribuna da Câmara de Vereadores para dizer que é contrário à distribuição do “kit anti-homofobia” para os alunos do ensino médio e que a sociedade não pode considerar o homossexualismo como algo natural. O coro foi engrossado pelo também vereador Herculano Borges (PSC). Face à repercussão negativa, não apenas na Câmara em Campo Grande mas também das bancadas religiosas no Congresso Nacional, o governo federal resolveu cancelar a distribuição do kit para que o assunto tenha uma discussão mais ampla envolvendo os poderes constituídos e a sociedade organizada.
Não é de hoje que a medida causa polêmica. O “kit anti-homofobia”, como ficou conhecido, é composto de três vídeos e uma cartilha. Os educadores e especialistas se dividem em relação à distribuição proposta e aprovada pelo MEC. Os defensores querem incutir na formação das crianças o respeito pela diversidade. Já os que atacam a proposta dizem que a metodologia adotada está equivocada e que expor adolescentes a um assunto tão complexo pode ser prejudicial a sua formação. Certo ou errado, o fato é que uma questão parece estar passando despercebida em meio a esse cabo-de-guerra. O respeito à dignidade.
Clodovil Hernandes, estilista, apresentador de televisão e deputado federal que morreu em 2009, era homossexual assumido e, polêmico, era contra algumas reivindicações dos grupos organizados em defesa dos direitos gays no Brasil. Em entrevistas, Clodovil deixava claro que era contrário ao casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo e à parada gay, por exemplo. Defendia a união estável civil, que daria direitos aos casais homossexuais à herança em caso de morte de um dos parceiros, recentemente concedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Clodovil dizia que, antes de mais nada, as pessoas deveriam respeitar o próximo. “Não preciso ficar ostentando, jogando na cara das pessoas minha opção sexual a todo momento. Isso agride, ofende”. E talvez seja essa a questão preponderante nesse caso. O respeito. Temos exemplos de casais gays com mais de 30 anos de convivência, que construíram uma vida juntos, um patrimônio e que agora, com a decisão do STF oficializarão esse relacionamento, mas que, nem por isso, saem seminus em paradas esbravejando seus anseios e cobrando aceitação incondicional. Simplesmente vivem suas vidas e são felizes. Agredir uma pessoa, seja com palavras ou fisicamente, baseando-se simplesmente na sua opção sexual é inaceitável. Matar travestis nas esquinas por se sentir incomodado com sua presença é um ato bestial. Ninguém tem o direito de dizer ao outro como viver sua vida. Temos livre-arbítrio para fazer o que quisermos, desde que isso não agrida nosso semelhante.
Caso o “kit anti-homofobia” seja reformulado e venha a ser distribuído nas escolas sem uma discussão abrangente do tema, certamente causará uma enorme antipatia na população, e em níveis muito maiores do que já está ocorrendo. Nesse caso vale a máxima popular: “seus direitos terminam no momento em que os meus começam”. Tanto para homo quanto para hétero. E, para aqueles que não concordarem, os rigores da lei.