Ângelo Marcos Vieira de Arruda nasceu em 1957 na histórica cidade colonial de Penedo no Estado de Alagoas. Diplomou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pernambuco em dezembro de 1979 e chegou em  Campo Grande em fevereiro de 1980 vindo da cidade de Recife.
Em 1980 foi contratado pelo escritório do Arquiteto Jurandir Santana Nogueira, ocasião em que pode desenvolver diversos projetos como o da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Justiça de MS no Parque dos Poderes.
O desenvolvimento deste profissional não deixa dúvida de sua capacidade e seriedade, com 3 livros publicados e obras gigantescas, que levam sua assinatura , além de muito carismático.
Angelo não só é um presente, presente em nossa capital, como um ícone de referencia  de profissionalismo.
Teve sua família junto com Ana, sua esposa e companheira, e  ele deixa registrado em alto e bom som  quando se refere a ela : “Meu grande amor”. Angelo é super família, um guerreiro em sua área  e um exemplo para todos, saiba mais deste mestre nesta entrevista.

Quando surgiu sua paixão pela arquitetura?
Acredito que essa paixão nasceu comigo. Nunca tive dúvidas de fazer outro curso que não fosse o de arquitetura. Ainda criança, o desenho era minha atividade preferida; adolescente, adorava as aulas de desenho que tive no curso ginasial, com a Prof. Josélia no Colégio Estadual de Caruaru. Em 1973, véspera do vestibular, cravei a primeira opção: arquitetura e urbanismo. Cursei a UFPE em Recife, de 1975 a 1979 e no curso, me apaixonei pela profissão. Trabalho desde 1975 com 18 anos incompletos. Meu primeiro emprego com 17 anos foi no departamento de engenharia da Rede BOMPREÇO de Supermercados; aprendi a desenhar, comprei meus primeiros livros com o salário; ganhei amigos, arquitetos e desenhistas e fiz minha carreira profissional trabalhando como estudante.

Está paixão cresce e toma rumo distante de Alagoas, por que Mato Grosso do Sul?
Nasci em Penedo, cidade histórica de Alagoas em 1957, mas fui criado em Pernambuco. Quando me formei, o mercado em 1979 estava em crise e resolvi procurar outro destino. O Estado de Mato Grosso do Sul tinha sido recém criado e instalado e com um parente morando aqui, resolvi arriscar a vida em Campo Grande. Cheguei em fevereiro de 1980 e em abril já estava trabalhando. Adorei a cidade, seu clima, a noite os campo-grandense com bares legais. Como toco violão, logo fiz amigos músicos como Almir Sater, Paulo Simões, Carlos Colman e por ai vai. Dai minha ligação estreita com a cultura do Estado. Veio pela música, que adoro muito.

Ao chegar a Campo Grande sua presença já fez um diferencial, 1981 foi convidado para compor a Diretoria da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Campo Grande como Diretor Cultural tendo promovido o primeiro debate: Mudanças na política habitacional de MS, foi Secretário Adjunto de Planejamento e Coordenação Geral de MS,  Superintendente de Cooperação Técnica e Articulação com os Municípios. Como foi está experiência, houve outras trajetórias que gostaria de mencionar, porque?
Olha Gisele, hoje, com 31 anos morando em Campo Grande, posso te dizer que o responsável por tudo isso foi o arquiteto Jurandir Nogueira, meu primeiro emprego na cidade em 1980. Do escritório dele, conheci um monte de gente e por eles entrei na atividade associativa, sindical e política. Fausto Mato Grosso e Frederico Valente são dois deles que me levaram para a Associação de Engenheiros e Arquitetos, ainda na sede da Rua Dom Aquino; pela Associação fiz palestras, organizei debates, conheci outras pessoas. Em 1982, participei ativamente, da vitória de Wilson Barbosa Martins ao governo estadual e com a chegada de Jardel Barcellos de Paula para assumir a SEPLAN-MS fui convidado para ser seu Secretário Adjunto. A minha carreira institucional é intensa e devo a essas pessoas. No setor público aprendi muito, inclusive a compreender o papel do Estado na sociedade e fui influenciado demais pela política. Adoro política.  Recomendo o debate sempre, mesmo que não nos permita grandes mudanças. A experiência no setor público que guardo comigo foi gratificante e isso somente pode acontecer com os empregos que tive de 1983 a 1991 quando sai.  Mas volto como empregado do setor público em 2004, na UFMS, como professor universitário, posição que estou nesse momento.

Nos livros que escreveu, a temática conteudista sempre  foi voltada à Campo Grande e Mato Grosso do Sul em  seu planejamento, aspiração arquitetônica, enfim, isto é um desafio de mudança à este planejamento organizacional, ou  uma paixão para um desenvolvimento ainda mais atenuante  porém, conservando toda sua característica arquitetônica?
Sempre gostei de história e como arquiteto e urbanista, pude juntar tudo e compreender a importância da memória e da identidade que a arquitetura oferece. Tudo começou em 1981 quando eu e o saudoso Eudes Costa fomos fazer uma palestra no dia do Meio Ambiente no Paço Municipal e percebi o quanto a cidade tinha de prédios com valor arquitetônico. Anos depois, na UNIDERP, aprovei o primeiro projeto de pesquisa acerca da arquitetura de Campo Grande e juntamente com dois colegas, fizemos um enorme inventário arquitetônico de Campo Grande desde a sua fundação até os anos 1990. Publicamos um livro inédito ARQUITETURA EM CAMPO GRANDE, lançado por ocasião do Centenário da cidade em 1999 e conseguimos colocar mais de 500 pessoas na Estação Ferroviária no dia do lançamento. O povo saudoso de sua história foi o recado. Depois veio o livro dos PIONEIROS DA ARQUITETURA E DA CONSTRUÇÃO EM CAMPO GRANDE que fiz com o material de pesquisa e entrevista. Nesse livro dedico especial atenção às pessoas, arquitetos, engenheiros, desenhistas e construtores e no lançamento foi uma das festas mais lindas que participei. No prédio da Sede Quartel da Afonso Pena, familiares de Camilo Boni, Manoel Secco Thome, Jairo Faracco, Celso Costa, Rubens Gil de Camillo, e tantos outros, lá presentes, sendo homenageados

Em diversas entrevistas e artigos registra sua indignação do total abandono do patrimônio histórico, Casarões, casas, prédios tombados, totalmente abandonados, o que fazer para nossas raízes não se depredarem mais?
A cidade de Campo Grande descuida do seu pequeno, mais valioso patrimônio histórico. Não temos uma ação eficaz nessa área e com isso perdemos, todo dia, algum emblema edificado. Precisamos de uma ação conjunta entre o IPHAN, FUNDAC, FCMS, Ministerio Público, UFMS, UNIDERP para montar o plano de proteção, as medidas, etc. A Câmara de Vereadores e as entidades empresariais tem de participar para que possam sair soluções conjuntas e discutidas. Medidas compensatórias, por exemplo, que envolvem tributos.

Em seu blog, comenta que Campo Grande está necessitando de um choque de fiscalização, diversas irregularidades inclusive recuos de fachada errada e  a falta de comprometimento com leis inclusive de drenagem no solo, tudo começa acontecer de uma forma trágica, enchentes que levam vidas de arrasto. Como mestre no assunto, existe uma solução?
Existe sim, fazer a coisa certa. Ora, se um projeto de um edifício, por razões estéticas, expõe os principais cômodos da unidade para o sol poente - quartos e salas -, significa dizer que houve um ERRO de projeto, visto que as normas orientam o sol nascente para esses cômodos. Isso está acontecendo de monte em Campo Grande e as pessoas adquirem as unidades e colocam imediatamente, 3 ou 4 aparelhos de ar condicionado para viver bem. Um absurdo enorme. Quanto às enchentes, um capítulo à parte, pois é um assunto mais complexo, que merece estudar a cidade desde os anos 1970, quando do envelopamento dos córregos e daí em diante, virou moda fazer isso. A cidade está ficando "impermeável" e , quando chove, tudo acontece. Isso não havia quando cheguei aqui.
Gisele :  Angelo esta questão ficará para á próxima entrevista, com certeza.

Seu ultimo livro, História da Arquitetura de Mato Grosso do Sul: origens e trajetórias, de 2009, é um marco na literatura da arquitetura brasileira, com anos de estudos profundos, foi difícil colocar toda esta raiz em um livro?
Sim foi meu trabalho mais difícil e mais sofisticado, pois a abrangência dos livros anteriores que era Campo Grande, passou a ser o Estado e com isso, viagens, deslocamentos, pesquisas em locais novos e um texto que deveria, a meu ver, abranger 400 anos de história da arquitetura. O livro, lançado em 2009, com o apoio do governo do Estado por meio da Fundação de Cultura, foi lançado em São Paulo, na Bienal e sua edição está quase esgotada. Tenho muito orgulho de ter escrito esse livro, que conta com o prefácio de um dos mais importantes professores e pesquisadores do país, o Nestor Goulart da USP que se impressionou com o mapa de Miranda de 1845 que consegui na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e que ele não tinha conhecimento dessa preciosidade.

Várias obras levam sua assinatura, uma delas a biblioteca de  Três Lagoas, como ela foi planejada?
A Biblioteca Municipal Rosário Congro em Três Lagoas é uma obra  especial para o nosso Estado. É a primeira biblioteca pública projetada e construída. Seu planejamento aconteceu por uma idéia da prefeita Simone Tebet, atual Vice-governadora do Estado. Ela que me pediu para projetar e coloquei uma enorme carga simbólica no edifício. Conhecendo a história da cidade desde a sua fundação, fiz uma interpretação dos seus signos e ao projetar a estrutura externa composta de 3 arcos revestidos em tijolo cerâmico, simbolizam as 3 lagoas da cidade e a primeira indústria ali instalada, uma olaria de tijolos e telhas. O edifício está bem bonito, muito bem construído e é uma caixa de vidro coberta e bem protegida com painéis que filtram a luz externa. São pouco mais de mil metros quadrados de obra, mas que vai simbolizar um marco na educação e na cultura de Três Lagoas.

Em todas obras idealizadas por Ângelo Arruda, qual seria  que mais lhe trouxe realização profissional?
Não tenho uma obra preferida, única. Tenho projetos que considero importantes em minha vida, em função da fase em que eles foram concebidos. Quando trabalhei com o arquiteto Jurandir Nogueira, a Assembléia Legislativa é um deles; em sociedade com o Gogliardo Maragno, o Aquário do Pantanal (não construído), o Autódromo de Campo Grande e o Memorial da Cultura; agora sozinho, a revitalização da Casa da Noroeste do Brasil e a Biblioteca de Três Lagoas.

RAIO X
Um amor- minha esposa, Aninha
Um perfume- Kenzo
Um país- Turquia
Uma crítica - A nossa cidade está descuidada
Uma sugestão - Preservar o patrimônio e a memória
Uma cor- Amarelo
Uma cidade- Praga, na República Tcheca
Uma arquiteto brasileiro- Oscar Niemeyer
Um engenheiro brasileiro - Joaquim Cardozo
Um artista brasileiro - Ariano Suassuna
Um escritor  brasileiro - Manoel de Barros