Nova família
Um novo começo: casal adota irmãs de 11 e 12 anos de MS
Ana Beatriz e Marcos conheceram as meninas por chamadas de vídeo e, desde abril de 2024, vivem juntos no Pará
Para Ana Beatriz, de 33 anos, e Marcos, de 30, o sonho de formar uma família veio de uma maneira diferente da inicialmente imaginada. A resposta chegou com duas irmãs, então com 11 e 12 anos, de Paranaíba, em Mato Grosso do Sul. Desde abril de 2024, as meninas vivem com o casal no Pará, onde constroem uma nova história marcada por desafios, descobertas, afeto e muitas primeiras vezes.
Quando uma família pensa em adoção, é comum imaginar um bebê ou uma criança pequena, acompanhando os primeiros passos, ouvindo as primeiras palavras e vivendo as descobertas dos primeiros anos de vida. Mas a oportunidade de construir uma família também pode chegar por meio de uma criança maior ou de um adolescente, que já carrega sua própria história, lembranças, medos e sonhos.
É nesse contexto que aparece a chamada adoção tardia. A experiência de Ana Beatriz e Marcos mostra que a idade não impede a construção de vínculos e que muitas experiências ainda podem ser vividas pela primeira vez dentro de uma nova família.
“Quando a gente entende que a adoção não é sobre o que eu quero, mas sobre o que eles precisam, a visão muda”, afirma Ana Beatriz.
A aproximação entre o casal e as meninas começou antes do primeiro encontro presencial. Como moravam em estados diferentes, os primeiros contatos ocorreram por chamadas de vídeo. Durante cerca de um mês, eles conversaram à distância até chegar o momento de se encontrarem pessoalmente.
A adoção das irmãs não estava exatamente dentro do perfil inicialmente imaginado pelo casal. Ana Beatriz e Marcos haviam colocado no processo uma faixa etária de até sete anos, mas, durante as entrevistas, sempre deixaram claro que estavam abertos à possibilidade de acolher uma criança maior.
Foi assim que conheceram as duas irmãs, que estavam na chamada busca ativa, estratégia utilizada para encontrar famílias para crianças e adolescentes que, por características como idade, condição de saúde ou por fazerem parte de grupos de irmãos, encontram mais dificuldades para serem adotados.
Com o passar do tempo, o casal percebeu que a idade não era o fator determinante para a construção da relação familiar.
“Só que a gente sempre teve a consciência de que não tinhamos necessidade de um bebê. A gente queria os bebês que perdeu, então entendeu que o nosso desejo era ser pai e mãe, independente da idade”, conta Ana Beatriz.
A adaptação, porém, trouxe desafios para todos. As meninas precisaram se acostumar com uma nova casa, um novo Estado, uma nova escola, novas pessoas, horários e regras. Para os pais, também foi necessário aprender a compreender comportamentos, medos e necessidades que até então eram desconhecidos.
Até o sono precisou ser reconstruído. Durante meses, as meninas acordavam várias vezes durante a madrugada e tinham dificuldades para dormir. Havia medos a serem enfrentados e uma nova rotina que precisava ser construída gradualmente.
“Então a gente teve que ir passinho por passinho, evoluindo junto com elas”, relata.
A experiência também mudou a percepção do casal sobre a construção do amor na adoção. Segundo Ana Beatriz, o vínculo não necessariamente surge de forma imediata e exige permanência e disposição.
“Eu não iludo nenhuma mãe, nenhum pai que vem conversar comigo sobre isso. Você precisa permanecer, porque o amor na adoção nasce de fora para dentro. Você decide amar, depois você sente. Então você ama por decisão, depois você ama por sentimento”, explica Ana Beatriz.
Para quem pensa em adotar uma criança maior ou um adolescente, essa compreensão é considerada por ela fundamental.
Outro receio entre pretendentes à adoção tardia é imaginar que crianças maiores já tenham vivido os principais momentos da infância e que os novos pais não possam participar dessas descobertas. A experiência das irmãs, porém, foi diferente.
Ana Beatriz e Marcos acompanharam a primeira ida das meninas à praia, o primeiro passeio a um parque aquático, a primeira reunião escolar, o primeiro Dia das Mães e o primeiro Dia dos Pais na escola. Também estiveram presentes quando elas adoeceram, precisaram de colo, comemoraram aniversários e passaram a ter uma família acompanhando de perto suas conquistas e dificuldades.
“Muitas pessoas têm medo porque não vivem as primeiras vezes, mas nós vivemos muitas primeiras vezes com elas”, afirma Ana Beatriz.
A experiência também confronta a ideia de que crianças maiores e adolescentes teriam mais dificuldade para criar vínculos ou aprender a amar uma nova família.
“Eles acabam achando que crianças mais velhas não se vinculam, que elas não aprendem a amar, e pelo contrário, elas são as que mais querem amar alguém, elas só não sabem como fazer isso”, declara.
A adoção tardia, nesse sentido, aparece como a possibilidade de construir uma nova história, sem que a idade da criança ou do adolescente determine a capacidade de formar vínculos com uma nova família.
Aproximando Vidas
Para ampliar as possibilidades de adoção, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) desenvolveu o Programa Aproximando Vidas.
Implementado em 28 de junho de 2022, por meio do Provimento-CSM nº 582, o programa foi idealizado pela Coordenadoria da Infância e da Juventude e é coordenado pela desembargadora Elizabete Anache.
A iniciativa utiliza uma plataforma on-line para apresentar a pessoas interessadas perfis de crianças e adolescentes aptos à adoção, especialmente aqueles que, por serem maiores, integrarem grupos de irmãos ou apresentarem outras características, podem ter mais dificuldade para encontrar uma família.
O acesso à plataforma não significa uma adoção automática. Depois de manifestar interesse, o pretendente precisa passar pelo processo de habilitação previsto em lei, seguindo as etapas determinadas pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), com autorização judicial e acompanhamento técnico.
Para quem pensa em adotar, o primeiro passo é procurar o Fórum da Comarca para uma avaliação prévia do Núcleo Psicossocial. O processo também envolve preparação para que os pretendentes compreendam as particularidades da parentalidade adotiva.
Nesse contexto, a Escola Judicial do Estado de Mato Grosso do Sul (Ejud-MS), em parceria com a Coordenadoria da Infância e da Juventude do TJMS, realizará, entre 1º de outubro e 30 de novembro, o curso “Preparação à Adoção: Nasce uma Família”.
As inscrições estarão abertas de 16 a 27 de setembro, pelo site da Ejud-MS.
A formação será totalmente a distância, com oito turmas e participação de magistrados e servidores do Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul como formadores e tutores.
Durante os 60 dias de curso, divididos em sete módulos, os participantes terão acesso a videoaulas, materiais de leitura, atividades interativas, fóruns de discussão e questionários avaliativos.
A proposta é promover uma reflexão sobre os aspectos emocionais, sociais e jurídicos envolvidos na construção de uma família por adoção.
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