Brasil
Manifestações contra governo acontecem neste domingo
Delação de Delcídio e pedido de prisão de Lula devem levar mais pessoas às ruas pelo impeachment de Dilma
O Governo Dilma Rousseff segue paralisado há meses por conta de dificuldades no Congresso Nacional e dos constrangimentos impostos ao Palácio do Planalto pelas intermináveis fases da Operação Lava Jato. E o horizonte do atropelado segundo mandato de Dilma só parece piorar. Já agravada por uma crise econômica que fez o país encolher quase 4% em 2015, a situação do governo ficou ainda mais difícil depois da delação do senador Delcídio do Amaral, afirmando que a presidente tentou interferir no andamento da Operação Lava Jato.
Diante desse cenário, as manifestações marcadas para este domingo (13) parecem tomar mais força e aderência da população. Em Campo Grande, A organização do protesto contra corrupção e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff espera levar 100 mil pessoas às ruas. A concentração será feita na Praça do Rádio Clube a partir das 14h e o movimento está previsto para terminar às 19h com apresentações musicais.
O evento está sendo planejado por um grupo de entidades, entre elas o Sindicato das Empresas de Transporte, a Maçonaria, Força Sindical, Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, Serviço e Turismo), ACICG (Associação Comercial e Industrial de Campo Grande) e o Instituto Veredas da Fé.
“Essa manifestação é pelo bem do Brasil, é para manifestar a indignação. É um movimento ordeiro de famílias para mostrar o sentimento de indignação por parte deste governo”, diz o líder do Movimento Democrático Pró-Impeachment, Josiberto Lima.
Questionadas sobre a possibilidade de represália por grupos petistas, as entidades organizadoras se mostram tranqüilas. “Nunca tivemos esse tipo de problema. Nós acreditamos que o povo é pacífico”, diz Munira Campos, integrante do Movimento Pátria Livre.
João Carlos Polidoro da Silva, presidente da ACICG, ressalta que o evento tem o intuito de combater a corrupção como um todo, embora seja direcionado à saída de Dilma. “O PT está no foco, mas também é PMDB, PSDB, etc. Vamos mostrar a nossa indignação. Nós pagamos por um país de primeiro mundo, mas vivemos em um sem classificação. Nós mudamos com o Collor e podemos mudar com a Dilma”, afirma.
O mesmo diz Noli Alécio, empresário. “O foco é mudar o governo Dilma, somos contra essa situação. Se amanhã for Aécio, Fernando Henrique, vamos querer tirar também se forem corruptos”.
Fernando Camilo, da Fecomércio, pede aos participantes do movimento que mantenham a ordem no domingo para evitar tumultos. “Temos que fazer um movimento ordeiro, evitando provocações. O que nós queremos, é a ordem”.
Opinião
O arquiteto Rafael Oioli já confirmou presença no protesto deste domingo. “A maioria das manifestações fica só na manifestação. Esse domingo vejo a possibilidade de uma atenção maior por parte de todos, como imprensa, classe política e judiciário”, acredita.
O empresário Victor Bitencourt acha que qualquer manifestação é válida. “Vivemos em uma democracia, mas não podemos nos esquecer de que teve muito mais gente envolvida na Lava Jato, como Aécio e Temer. Por isso temos de tomar cuidado e nos manifestar em prol da república, não por interesses partidários. É o futuro do país que está em jogo e pela primeira vez grandes figurões estão sendo investigados”, comenta.
Já o funcionário público Vinicius Bazenga não vai à manifestação deste domingo. “De forma alguma. Não posso compactuar com a violação da vontade popular, expressa nas urnas em 2014, ainda mais neste caso, em que não há qualquer indício ou menção direta à presidenta nos fatos sendo apurados nas operações. Só teremos um ambiente democrático se, de fato, as eleições, maior expressão da democracia, forem sempre respeitadas”, afirma.
Segundo ele, as manifestações são “o canto do cisne do status quo dos privilegiados”. “Basta ver as pessoas que participam, como se fosse uma micareta, com cartazes absurdos, com declarações pautadas unicamente na ignorância e no ódio e com selfies com policiais que oprimem outras manifestações democráticas! É surreal isso que acontece”, conclui.
Análise
Segundo o cientista político Eron Brum, a manifestação deste domingo tem vários significados e deve trazer mudanças sociais, políticas e econômicas para o país. “A nossa sociedade é adormecida e raras vezes acorda. Esse é um momento em que acordamos, porque estamos sofrendo com a crise econômica - com o aumento no preço de vários gêneros alimentícios e com o desemprego -, e com esses inúmeros casos de corrupção, que atinge a todos direta e indiretamente”, analisa.
Ele ainda comenta que a política no Brasil é a mesma de 200 anos atrás. “Nada mudou desde que surgiram os dois primeiros partidos: liberal e conservador. Nossos políticos são corruptos e isso não é uma exclusividade do Executivo, porque o Legislativo também é. Mas esse momento mostra que a sociedade acordou. O que é preciso é que ela não volte a dormir novamente, porque tivemos esses períodos de despertar, como quando tiramos Collor, mas logo em seguida voltamos a dormir e não acompanhamos a política. O professores de Campo Grande deram uma aula sobre isso para nós quando entraram em greve e lotavam as sessões da Câmara. Nós precisamos fazer isso também. Não podemos parar nas manifestações”, destaca.
Já o cientista político e professor da UFMS, Tito Machado, afirma não saber os rumos das manifestações deste domingo. “Os protestos contra o governo tem uma atenção midiática muito grande, com a imprensa chamando, mas não sabemos como está a organização do outro lado, porque aqueles que defendem o governo também estão se organizando. Meu medo é que esses grupos se encontrem. Aí não sabemos que proporções isso pode tomar”, pondera.
Para ele, as manifestações deste domingo diferem as outras que aconteceram no ano passado. “As outras foram mais espontâneas, sem tanto peso da mídia e foram bonitas, apesar de eu questionar a falta de representatividade das minorias, como negros e gays, e ser um movimento quase que exclusivo das classes médias e altas. Mesmo assim, as pessoas têm sim o direito de se manifestar. Só acho que o Ministério Público precisa estar atento às faixas pedindo volta da ditadura, porque isso é inconstitucional”, conclui.