A cortiça, casca do tronco do sobreiro, uma árvore que praticamente só existe em território português (cerca de 90% da cortiça produzida no mundo vem de Portugal), é extraída pela primeira vez ao fim de cerca de 40 anos do plantio da árvore, que é denominada cortiça “virgem”, e é descartada. Numa segunda extração, em que a cortiça é conhecida por “secundeira”, aí sim a cortiça pode ser comercializada, deve-se se respeitar então mais um intervalo mínimo de nove anos, bem como nos descortiçamentos seguintes. Apenas nesta fase, a partir do terceiro descortiçamento, é que se aproveita a melhor cortiça, a “amadia”, para fabricar rolhas.

Já no reinado do rei português Dom Dinis, no início do século 14, se registrava a exportação de cortiça para o Reino Unido. Mais tarde também se conheceu a exportação para o Flandres.

Por volta de 1450 é evidente o interesse na cortiça, para flutuadores de pesca. É nessa altura que o rei D. Afonso 5º entregou o monopólio da exportação da cortiça nacional a um mercador de Bruges por uma década, o que gerou reclamações do povo. Em 1488, D. João 2º proíbe o abate dos sobreiros e, pouco tempo depois, edita carta sobre os direitos dos agricultores, para poderem comercializar a cortiça livremente. Com a época dos descobrimentos foi grande a utilização da madeira e cortiça dos sobreiros em todas as embarcações. Em finais do século 19 assistiu-se a uma expressiva exportação anual de cortiça (principalmente para o Reino Unido) de cerca de 30 mil toneladas, que logo subiu para mais de 50% em menos de uma década.

É também por esta altura que notaram mais as pragas que atacam os sobreiros. Refiro-me ao ataque da cobrilha nos montados e as doenças que se prolongaram por mais de meio século. As mortandades dos sobreiros coincidem muito com períodos de seca mais acentuada. Por volta de 1950, num espaço de sete anos foram mais de um milhão de sobreiros. Entre o fim do século 18 e o início do século 19 houve uma descida do interesse no setor, uma vez que o aproveitamento da cortiça se destinava quase exclusivamente para vedantes de vinho, o que significava o aproveitamento de cerca de um quarto, devido à exigência da qualidade para esse fim. Com o aproveitamento dos resíduos da cortiça (até então sem valor) para a fabricação de aglomerados, no fim do século 19, assistiu-se a uma nova expansão do uso da cortiça. 

Mas nem tudo são flores. Quando se fala de rolhas de cortiça, cerca de 2% a 5% de toda a produção mundial de vinhos que é fechada com rolhas estraga graças a um fungo que aparece durante a retirada da cortiça do sobreiro. Este fungo rende ao vinho um odor de madeira apodrecida, mofo, maresia, estragando o mesmo. Esse fungo é muito resistente, pois no processo a cortiça é fervida a 100ºC graus e ainda assim o fungo sobrevive, já que ele pode estar presente numa garrafa de 15 reais ou numa de 5.000, nunca se sabe até abrir a garrafa. Ponto para as tampas de rosca, que não apresentam este problema.  

Hoje, um número crescente de vinhos de boa qualidade chega ao mercado com tampas de rosca, como as que são utilizadas há muito nas garrafas de água mineral ou de suco. Estas tampas em nada diminuem ou comprometem a qualidade do vinho nem o seu valor, é apenas a solução do mercado para um impasse, simplesmente não existem rolhas para todos os vinhos. Como já foi dito, uma árvore de sobreiro leva pelo menos 50 anos para se tornar viável comercialmente; como o mercado de produção de vinhos se expande cerca de 5% a 8% ao ano é natural que faltem rolhas, a solução mais prática e ecologicamente correta são as tampas de rosca, pois são feitas de alumínio, um produto presente em todo o mundo, totalmente reciclável e barato. Sim, se perde um pouco do charme de se abrir uma garrafa de vinho sem o saca-rolhas, mas é o preço a se pagar. Dentro em breve, segundo os especialistas, só os vinhos muito caros, espumantes e champanhes terão rolhas, por isso é melhor começarmos a nos acostumar.
Bons vinhos a todos!

Soneto do Vinho, Jorge Luis Borges

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu à valorosa
E singular ideia de inventar a alegria?
Com outonos de ouro a inventaram.
O vinho flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Invada- nos a sua música, seu fogo e seus leões.
Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto
Outrora a cantaram o árabe e o persa.
Vinho ensina-me a arte de ver minha própria história
Como se esta já fora cinza na memória.