Segunda no Azul
Segunda no Azul
Segunda-feira, depois da urna
Nesse domingo, o Brasil vota. Na segunda, o Brasil acorda, e o preço do mercado, a parcela do financiamento e a mensalidade da escola continuam exatamente onde estavam. Esta coluna não vai defender em quem você deveria votar. Esta coluna vai expor o terreno que qualquer presidente vai pisar, e o que ele significa para o seu bolso.
O primeiro terreno é o mercado. Nos últimos 10 anos a inflação voltou a ser uma preocupação do brasileiro e nos últimos 12 meses chegou a 4,58% em setembro, acima do teto de 4,5% da meta. E para segurá-la vieram os juros altos: a Selic, que chegou a 15%, está em 13,75%, mais de nove pontos acima da inflação é um dos maiores do mundo. É um remédio caro, porque encarece o crédito, o financiamento da casa e o capital de giro de quem empreende.
Mas o preço no seu bolso conta uma história mais longa. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), entre maio de 2019 e maio de 2026 a inflação real acumulou 62,03%, enquanto a alimentação em casa subiu 96,42%. Esses valores estão bem acima dos indicadores oficiais do governo federal. Ainda segundo o DIEESE, o salário mínimo comprava cerca de duas cestas em 2019 e agora compra 1,82 em maio de 2026. Ou seja, o poder de compra do brasileiro está diminuindo! E ainda há a "inflação invisível" onde os ingredientes dos produtos estão cada vez piores e as embalagens menores e com menos produto.
O segundo terreno são as contas públicas, e aqui vale uma verdade que independe de partido: em ano eleitoral, qualquer governo é tentado a antecipar benefícios e empurrar a conta para os anos seguintes. Alguns exemplos atuais são a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, perdão de dívidas, aumento de benefícios sociais entre outros pacotes de bondades. Agora cabe aos próximos anos mostrar se essas bondades irão fechar a conta ou se trarão mais déficit (que poderá gerar mais retração econômica e inflação).
Para entender o tamanho da conta, pense numa família que gasta mais do que ganha e, para fechar o mês, passa a usar o cartão de crédito. No mês seguinte chega a fatura, com juros altos; para pagá-la, usa o cartão de novo, e a dívida cresce sozinha, porque uma parte cada vez maior do salário vai embora só em juros, sem comprar um prato de comida. O governo funciona de modo parecido. O ponto de partida é o mais alto de toda a história: a dívida bruta chegou a 81,9% do PIB em junho, cerca de R$ 10,8 trilhões, o que equivale a dever 82% de tudo o que o país produz em um ano, e o mercado projeta 83,4% no fim do ano. Há economistas que consideram difícil evitar um ajuste fiscal a partir de 2027. Seja qual for o governo, a fatura chega ao contribuinte, em impostos, juros e preços. Fazendo um aparte nesse terreno, uma das propostas que surgiram nessas eleições foi o fim da reeleição. Esse debate precisa realmente acontecer nos próximos anos para o bem do país!
O terceiro terreno é a necessidade urgente de reunificar e pacificar o país porque temos desafios e soluções diferentes. No relatório do PNUD divulgado em 2025, o Brasil subiu cinco posições e ocupa o 84º lugar entre 193 países, com índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,786. Essa média esconde muitos Brasis e a solução está muito mais perto das cidades do que do governo federal.
Isso importa porque, no desenho atual, o dinheiro vai muito para Brasília. A carga tributária chegou a 32,4% do PIB em 2025, a maior da série. A União responde por 22,34% do PIB, os estados por 8,38% e os municípios por 2,42%, ou seja, quase 70% do total fica com o governo federal. Parte volta por transferências, mas o recado é claro: a transformação nasce nas cidades, e a solução precisa descer.
Se a mudança é local, ela passa por quem empreende e se organiza em comunidades nas cidades. E em janeiro de 2027 as regras mudarão com a reforma tributária. A reforma busca simplificar, mas sete anos com dois sistemas convivendo é aprender o jogo enquanto se joga. Com a recuperação judicial no maior nível da série em 2025, com 2.466 empresas, adaptar-se não é detalhe contábil: é sobrevivência.
O quarto terreno é a segurança, que virou item fixo do orçamento doméstico. As mortes violentas intencionais foram de 40.775 em 2025. É um número muito superior a países em guerra! Mas agora o crime também migrou para o celular. Foram 2,26 milhões de estelionatos registrados, cerca de 258 por hora, alta de quase 430% desde 2018. É muito provável que você ou algum parente seu já tenha sido vítima de algum golpe nos últimos anos. E mais de 97% dos estelionatos registrados não chegam ao Judiciário. Isso custa muito caro porque precisamos gastar com equipamentos de segurança nas nossas residências, vigilância privada, seguros contra roubo entre outras ferramentas por conta da insegurança que vivemos.
Há ainda o custo que não cabe em planilha. Entre as vítimas de morte violenta, 90,8% são homens e 41,6% têm de 18 a 29 anos, e 54% das mortes no trânsito de 2024 ocorreram entre 25 e 54 anos. A violência atinge, em maior número, quem sustenta a casa, e é a família que paga.
O último terreno é o custo invisível da incerteza. O Judiciário recebeu 40,9 milhões de processos novos em 2025, recorde desde 2009, e encerrou o ano com 75,5 milhões em estoque. Cada litígio é tempo, advogado e energia que não geram inovação e produtividade na economia.
Seja qual for o resultado das eleições presidenciais, os problemas não terminam na urna, e nenhum presidente os resolverá sozinho. O voto é uma parte da tarefa. A outra é o que fazemos de segunda a segunda: quitar dívidas caras enquanto o juro está alto, formar uma reserva financeira, entender as regras novas se você empreende, cuidar da família e da comunidade, e proteger o que importa.
Tempos difíceis não pedem pessoas desesperadas. Pedem pessoas fortalecidas por dentro.
Então fica a pergunta: você está entregando o seu futuro todo nas mãos de um grupo de pessoas em Brasília ou você já entendeu que o mais importante é se organizar localmente e começar a fazer a sua parte para depender menos das decisões centrais de Brasília?
Pense nisso.