Toda vez que você paga uma parcela de empréstimo com juros altíssimos, um plano de saúde caríssimo ou um seguro que pesa no orçamento, você está pagando por algo que quase ninguém percebe: a fatura de uma doença cultural que carregamos há séculos. O nome dela é desconfiança.

 E os números são constrangedores. Segundo dados do Banco Mundial, o Brasil tem hoje um dos três maiores spreads bancários do mundo — o spread é a diferença entre os juros que o banco paga a quem investe e os juros que ele cobra de quem toma emprestado. Ficamos atrás apenas de países como Madagascar e Malawi, cujas economias somadas representam menos de 2% do tamanho da nossa. Para efeito de comparação, entre nossos colegas do grupo dos BRICS, a Rússia tem spread de cerca de 5%, a África do Sul 3,3% e a China menos de 3%. O nosso já passou de 20%.

 Por que isso acontece? A resposta é reveladora: o Brasil é o país que menos consegue recuperar um empréstimo quando o devedor dá calote. Aqui, de cada real emprestado, o banco recupera apenas treze centavos quando precisa cobrar na Justiça. A média mundial é de trinta e quatro centavos. No Japão não por acaso, o país de menor spread do mundo recupera-se noventa e dois centavos de cada real.

 Repare no padrão: onde há confiança e as regras são cumpridas, o dinheiro é barato. Onde reina o calote e o jeitinho, o dinheiro é caro para todos.

 E é aqui que entra uma das teorias mais elegantes que já li sobre o assunto. O acadêmico e diplomata francês Alain Peyrefitte dedicou sua obra mais importante, A Sociedade de Confiança, a uma pergunta simples: por que algumas nações prosperam e outras não? A maioria dos pensadores, de Adam Smith a Marx, buscou a resposta em fatores materiais capital, trabalho, recursos naturais. Peyrefitte propôs algo diferente: o verdadeiro motor do desenvolvimento não é material, é cultural. É aquilo que ele chamou de ethos de confiança”.

 Em sociedades onde as pessoas confiam umas nas outras onde a palavra dada vale, onde os contratos se cumprem, onde a fraude é exceção e não regra o desenvolvimento floresce. Porque a confiança elimina uma infinidade de custos invisíveis. Não é preciso gastar fortunas com advogados, seguros, garantias, fiscais, cláusulas de proteção. As pessoas simplesmente fazem negócios, e a energia que gastariam se protegendo é investida em criar, inovar, crescer.

 Já nas sociedades da desconfiança e a nossa é o exemplo perfeito cada transação vira um campo minado. Parte-se do princípio de que o outro é desonesto até que se prove o contrário. E provar isso custa caro.

 Pense em como isso encarece a sua vida concretamente. O empreendedor que tem uma boa ideia não consegue crédito, ou só consegue a juros que inviabilizam o negócio e uma inovação que poderia gerar empregos morre antes de nascer. A empresa honesta precisa gastar rios de dinheiro em selos, certificações, seguros e sistemas antifraude só para convencer o cliente de que não vai enganá-lo e esse custo, claro, vai embutido no preço que você paga. O plano de saúde precria se proteger de quem mente na hora de contratar. O seguro precisa se proteger de quem forja sinistros. E quem paga a conta dessa proteção toda? Sempre o cidadão honesto.

 É a grande ironia da desconfiança: ela pune muito mais quem é honesto do que quem é desonesto.

 Mas aqui chegamos à parte incômoda desta coluna. É cil culpar os bancos, os governos, as empresas. Difícil é olhar no espelho.

 E existe um debate clássico entre os estudiosos: será que são as instituições imparciais que criam a cultura de confiança, ou é a cultura de confiança que gera instituições imparciais? É a velha questão do ovo e da galinha. Mas há um ponto que resolve o impasse: as instituições são feitas de pessoas. Não existe instituição honesta formada por uma sociedade que aplaude a esperteza. A mudança, portanto, não começa em Brasília. Começa em cada um de nós.

 E é aqui que a educação financeira encontra a ética. Porque a desconfiança que encarece a sua vida é alimentada, todos os dias, por pequenas escolhas inclusive as suas.

 É o vendedor que esconde o defeito do carro para conseguir uma margem maior na venda. É quem rompe um acordo firmado no aperto de mão assim que aparece uma proposta um pouco melhor. É quem se agarra a uma cláusula contratual para não cumprir o que sabe, no fundo, que era o combinado ou deixa de pagar um dívida e espera a prescrição.

 Enfim, Cada uma dessas atitudes parece uma vitória individual, uma espertezinhaque rendeu um troco a mais. Mas, somadas por milhões de pessoas durante séculos, elas construíram a prisão coletiva em que todos nós pagamos os juros mais altos do planeta.

 Cada pequeno calote individual é um tijolo na muralha da desconfiança que cerca todos nós.

 Então a reflexão que deixo é esta: quando cada um de nós escolhe a esperteza de curto prazo, está, sem perceber, votando por uma sociedade mais cara, mais travada e mais pobre para os próprios filhos. E quando escolhe a integridade mesmo quando ninguém está vendo, mesmo quando dá para levar vantagem está fazendo o oposto: está barateando, um centímetro de cada vez, o custo de viver neste país.

 A pergunta, no fim, é simples e desconfortável: até que ponto eu, com as minhas pequenas escolhas do dia a dia, estou contribuindo para a sociedade da desconfiança que tanto me incomoda?

A resposta a essa pergunta talvez seja o investimento mais rentável que você faça na vida. Não só para o seu bolso mas para o país que vamos deixar.

 Pense nisso.