Entre lembranças, lendas e histórias de infância, Marco Bruno, Marcob, encontrou na música uma forma de levar o Pantanal sul-mato-grossense ao público. Depois de sete anos longe dos palcos, o cantor retomou a carreira neste ano com um projeto voltado à cultura pantaneira, à preservação do bioma e às histórias que fazem parte do imaginário de quem vive na região.

“Eu compus 35 músicas com esse tema de Pantanal, preservação do Pantanal, e compus cinco músicas folclóricas que falam do Saci-Pererê, Mãe da Mata, Curupira. Porque o pantaneiro, o peão, eles acreditam muito nisso. Eu acredito também", explica.

A nova fase nasceu depois de um período afastado da música. Marcob começou a cantar em 1997, quando formava com o irmão a dupla Luiz Ricardo e Marco Bruno. Com a saída do irmão, seguiu sozinho e precisou buscar um novo nome artístico. "A dupla com meu irmão era Marco e Bruno, ai um dia assistindo um filme nos créditos eu vi Marcob, falei 'porque não?' e adotei esse nome artístico", relembra.

Durante anos, o repertório esteve ligado ao sertanejo antigo, até que o cantor começou a sentir que precisava encontrar outro caminho. A morte da mãe, vítima de câncer, acabou interrompendo sua trajetória. Depois de ficar sete anos sem cantar, decidiu retornar em janeiro deste ano.

Desta vez, a proposta era diferente. Em vez de simplesmente retomar o que fazia antes, Marco queria cantar aquilo que realmente gostava e construir um projeto com identidade própria. Foi quando as memórias e experiências vividas no Pantanal começaram a ganhar espaço.

A ligação com o bioma vem desde a infância. Marco costumava passar as férias na fazenda do tio, em Rio Negro, e mais tarde também trabalhou no Pantanal como motorista. "Foi através das lembranças de criança que pensei nesse novo repertório, como o lampião de querosene, escolhido como símbolo desse projeto Lampião Pantaneiro. Na infância, esse objeto acompanhou minhas caminhadas durante a noite na fazenda e me representava segurança", conta.

Entre as lembranças daquele período está a convivência com histórias, costumes e personagens que hoje aparecem em suas composições. “Eu trouxe o lampião de volta para o meu projeto, agora que eu retornei, depois da perda da minha mãe, para ele vir justamente com esse objetivo de iluminar meus caminhos, me dando segurança para que tudo dê certo lá na frente”.

Mas é nas músicas que o projeto ganha sua principal identidade. A inspiração veio também de artistas que ajudaram a construir a música ligada ao universo rural e pantaneiro. Durante uma apresentação em um almoço pantaneiro, Marco pediu aos músicos que tocassem Almir Sater e Renato Teixeira.

A escolha por Almir Sater tem relação com a própria história do cantor. Ele trabalhou como motorista no Pantanal e passou pela Fazenda Rio Negro, onde foram gravadas cenas da novela “Pantanal”.

“Eu sou fã do Almir Sater, fã mesmo. Eu trabalhei no Pantanal como motorista, há muito tempo atrás, então eu amo o Almir Sater", detalha.

Memória que vem de casa

A proposta também passa pela própria história familiar. O pai e o tio de Marco formavam a dupla Tangaraizé Viola. Após a morte da mãe de Marco, os dois também pararam de cantar. O cantor decidiu então resgatar parte desse repertório para evitar que as músicas se perdessem.

Ele conversou com o pai e o tio antes de iniciar as gravações e depois procurou Manoel Lacerda, autor de algumas das canções. “Eu fui conversar com o Manoel porque a música é dele. Eu liguei para o Manoel Lacerda, ele me atendeu, ele já me carregou no colo. Aí ele falou: ‘Filho, qual música minha você quiser, é sua. Pode pegar para gravar’”, lembra.

Marco escolheu oito músicas de Manoel. Uma delas, “Prece Pantaneira”, já ganhou gravação e vídeo. Segundo o cantor, o conteúdo chegou a dois milhões e meio de visualizações no Instagram, além de 37 mil curtidas e compartilhamentos.

A gravação foi realizada pela TV Educativa, que registrou a apresentação com o cenário levado pelo próprio artista. A identidade do projeto também aparece na forma como Marco se apresenta. Em vez de ficar isolado à frente da banda, ele prefere os músicos próximos, formando uma espécie de meia-lua.

O sanfoneiro fica de um lado, o violonista do outro, enquanto baixista e baterista completam a formação. Para o cantor, a disposição lembra uma roda de tereré. “Eu sempre sentei nessa configuração, tipo, parecia uma roda de tereré”.

O cenário tem fogueira, tereré, o cachorro e uma música própria tocando ao fundo. O primeiro vídeo já foi produzido, e os próximos devem trazer histórias com cerca de um minuto e meio. Depois de sete anos longe dos palcos, Marcob encontrou no Pantanal o caminho para uma nova fase artística. 

“Eu costumo falar que já tomei água de vazante, eu sei bem o que é o Pantanal, eu conheço muito bem. Aí eu falei para os meus músicos: ‘Vamos tocar Almir Sater, Renato Teixeira, porque aqui o público é esse’. Tocando, eu falei: ‘Cara, é esse meu repertório. Eu vou mudar para o regional, eu não vou cantar mais sertanejo antigo’. Aí eu decidi mudar para o regional e quero fazer história levando nosso bioma", conclui.