Economia
BC prepara medidas para conter riscos do crédito caro e alerta para endividamento recorde das famílias
Comprometimento da renda com dívidas chegou a 28,9%, maior nível da série histórica; Banco Central estuda medidas para reduzir riscos de modalidades com juros elevados
O Banco Central (BC) prepara medidas para reduzir os riscos provocados pelo avanço de modalidades de crédito mais caras entre as famílias. A preocupação aumentou após o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingir 28,9% em junho, maior percentual da série histórica iniciada em 2011.
O dado consta na ata da 66ª reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), realizada nos dias 25 e 26 de agosto. O documento aponta que a participação elevada de linhas de crédito mais caras, somada aos níveis de inadimplência e risco, exige maior cautela no mercado financeiro.
O endividamento das famílias também permanece próximo do recorde. Em junho, o indicador ficou em 49,8%, apenas 0,1 ponto percentual abaixo do maior nível já registrado, de 49,9%.
Segundo o Comef, as medidas em estudo devem permitir que os bancos reconheçam os riscos das operações mais rapidamente e acumulem capital de forma gradual para absorver possíveis perdas. A intenção também é criar condições mais sustentáveis para a concessão de crédito, mas o BC ainda não informou quais instrumentos serão utilizados nem quando as mudanças entrarão em vigor.
A preocupação já havia sido manifestada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, durante a Febraban Tech, em 24 de agosto. Ele destacou que o endividamento e a inadimplência continuavam elevados, mesmo diante da melhora do mercado de trabalho e do aumento da renda. “A pergunta é: por que é que, num cenário de renda crescente, desemprego caindo, a gente não viu essa renda ser revertida para reduzir esse tipo de endividamento?”, questionou.
Um dos principais pontos de atenção é o crédito pessoal não consignado, cujas parcelas não são descontadas diretamente do salário ou benefício do tomador e, por isso, costumam ter juros mais altos. O saldo dessa modalidade cresceu 188% entre março de 2020 e junho de 2026, passando de R$ 137,7 bilhões para R$ 397,2 bilhões.
Em maio, cerca de R$ 275 bilhões, ou 68,7% dessa carteira, não tinham qualquer garantia, maior participação registrada na série apresentada pelo BC. A diferença também aparece nos juros: em junho, a taxa média do crédito pessoal não consignado sem garantia chegou a 149,5% ao ano, contra 27,5% nas operações com algum tipo de garantia.
Galípolo afirmou que o custo do crédito não depende apenas da taxa básica de juros. O risco da operação e a existência de garantias também influenciam diretamente o valor cobrado dos consumidores. Para o presidente do BC, a expansão do acesso aos serviços financeiros precisa ser acompanhada de uso responsável e de escolhas adequadas para cada perfil de cliente.
Apesar da preocupação, o crédito bancário começou a desacelerar. Entre as pessoas físicas, houve redução no ritmo de expansão justamente nas modalidades consideradas mais arriscadas, mas o movimento ainda não foi suficiente para diminuir significativamente o peso dessas operações na renda das famílias. Entre as empresas, a desaceleração foi mais forte nas carteiras destinadas a micro, pequenas e médias companhias.
A inadimplência, porém, segue em nível elevado. Em julho, chegou a 5,8% entre as famílias, maior percentual da série histórica. Nas operações com recursos livres, os atrasos superiores a 90 dias alcançaram 7,8%. Mesmo diante desse cenário, o Comef avalia que os bancos possuem capital e liquidez suficientes para absorver eventuais perdas sem comprometer a estabilidade do sistema financeiro, enquanto as provisões feitas pelas instituições estão alinhadas às perdas estimadas pelo BC.