No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, é comum mulheres receberem homenagens que ressaltam a feminilidade no “seu dia”, com presentes que vão desde de rosas a bombons. Mas nem tudo são flores nesta data, o Dia marca a luta por direitos trabalhistas.

“Doar uma flor a uma pessoa é um gesto humanitário e gentil e pode ser feito sempre, mas no 8 de março nós queremos dizer a sociedade que não suportamos tanta violência”, ressalta a socióloga e ativista da Articulação de Mulheres Brasileiras Nathália Eberhardt Ziolkowski na terceira entrevista da série “mulheres de poder” que o JD1 Notícias preparou esta semana. 

De acordo com dados do estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, divulgado nesta segunda-feira (6) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres trabalham, em média, 7,5 horas a mais que os homens por semana devido à dupla jornada, que inclui tarefas domésticas e trabalho remunerado.

JD1: Qual a origem do Dia Internacional da Mulher?

Nathália Ziolkowski: Para falar sobre a origem da data, é preciso fazer um retorno na história e observar dois acontecimentos. O primeiro trata-se da reivindicação por melhores condições de trabalho, feita por trabalhadoras de uma indústria têxtil em Nova Iorque, ocorrida no final do século XIX. Este ato levou a morte muitas mulheres que em greve foram trancadas na fábrica onde atearam fogo. Também, no início do século XX, foi em um 8 de março que mulheres russas saíram as ruas em protesto por melhores condições de trabalho e vida, durante a Primeira Guerra Mundial. Toda essa luta ficou na memória das mulheres por gerações e foi recuperada por feministas algumas décadas depois, 1960. Mais tarde, em 1977, a Organização das Nações Unidas também reconheceu o dia 8 de março como o dia que marca nossa luta. Depois dessa longa jornada, o Dia Internacional da Mulher é a data onde todas somos convidadas a dar maior visibilidades aos nossos desafios diários e continuar a luta em memória a todas as mulheres que antes de nós enfrentaram as injustiças, opressões e explorações.

JD1: Qual a importância de uma data marcar o dia da mulher?

Nathália Ziolkowski: É importante entender que o Dia Internacional da Mulher é a data que marca nossa luta diária por mais respeito, dignidade, por direitos, pela superação das desigualdades.  Não se trata de uma data comemorativa, embora a apropriação no campo social e político, em especial nas esferas midiática e mercadológica têm feito do dia 8 de março uma data para comemorar e nada mais. É muito comum que no mês de março surjam muitas promoções que nos incentivam consumir mais, também vemos poderes executivos com campanhas de homenagem, distribuindo flores, batons, etc. Doar uma flor a uma pessoa é um gesto humanitário e gentil e pode ser feito sempre, mas no 8 de março nós queremos dizer a sociedade que não suportamos tanta violência. Nossos direitos são violados diariamente. Todos os dias mulheres morrem vitimas do feminicídio. Todos os dias mulheres sofrem estupros, provocados por estranho ou por seus próprios cônjuges ou ainda responsáveis. Todos os dias mulheres morrem por aborto clandestino e inseguro. Todos os dias as mulheres enfrentam a sobreposição de tarefas, pois conseguimos nos conscientizar sobre a importância do trabalho feminino no âmbito público, mas dentro de casa as tarefas não são divididas. Todos os dias temos que gritar basta de racismo. Todos os dias temos que gritar basta de transfobia e lesbofobia. Todos os dias temos que encarar o poder legislativo, o poder executivo e o poder judiciário, que não tem representatividade equânime, e lidar com os retrocessos que essa conjuntura política está provocando. Todos os dias nós mulheres sofremos violência institucional. Todos os dias mulheres dos campos, das águas e das florestas gritam por justiça socioambiental. Todos os dias... Todos os dias... É cansativo ouvir tudo isso?  Imagine viver. E ainda temos muito mais a denunciar. É por isso que o 8 de março é importante para toda a sociedade, essa data nos ajuda a gritar mais alto.   

JD1: No dia 8 de março é comum ter campanhas e empresas que distribuem flores e bombons para mulheres. Existe problema nesse tipo de ação? Qual o problema desse tipo de ação nesse dia? O que deve ser evitado?

Nathália Ziolkowski: Como havia falado, existe problema quando esse gesto transforma a data em mera comemoração. Queremos ser reconhecidas por toda a sociedade, porque nós mulheres estamos na linha de frente no enfrentamento as hipocrisias, aos fundamentalismos, aos moralismos, aos retrocessos no campo dos direitos humanos. Se esse gesto vier acompanhado de uma política igualitária, equiparação salarial, valorização do trabalho, reconhecimento das necessidades emergenciais, garantia de políticas públicas laicas... Então todo gesto fará valer a nossa luta.   

JD1: Durante esse dia, muitas vezes, há comentários de que para que haja igualdade deveria ser celebrado o dia do homem. Como você vê esse tipo de argumentos?

Nathália Ziolkowski: Esse é um discurso que não nos ajuda em nada. Quem entende o sentido de igualdade e equidade, não reproduz esse pensamento, pois sabem que a data é o simbolismo de uma luta muito maior para transformar as várias sociedades pelo mundo na qual homens cisgênero são privilegiados ao longo da história. Quem consegue enxergar isso não reivindica um dia de luta, e sim soma-se a nossa, uma vez que a luta das mulheres pretende um mundo justo e isso só irá acontecer quando a sociedade em geral, em todos os seus gêneros e condições sociais, tiver seus direitos garantidos e desfazer-se dos lugares de privilégio que resultam na dominação.

JD1: O Dia Internacional da Mulher faz referência a luta de mulheres por direitos trabalhistas. Mais de um século depois como você enxerga a inserção da mulher no mercado de trabalho? Quais as principais barreiras que as mulheres enfrentam no âmbito trabalhista?

Nathália Ziolkowski: Como um passo largo dado pela sociedade, porém com ressalvas. Essa informação de que as mulheres, ocupando o mesmo cargo que os homens, recebem menos, é um dado concreto. Mais de um século depois, ainda precisamos aprimorar nossa capacidade de transformar a forma de ver e viver no mundo. Ainda precisamos lutar por direitos trabalhistas. Quando uma mulher concorre a uma vaga de emprego com um homem, a preferência quase sempre é do homem, isso está ligado a vários fatores, mas o mais evidente, falado sem qualquer pudor pelos/as empregadores/as é de que a mulher engravida e a empresa tem que arcar com a licença maternidade. Isso nos objetifica, ao mesmo tempo que somos lançadas a predestinação da maternidade, a sociedade se desfaz de nós quando isso não lhe convém. Muitas mulheres são chefes de família, mães solteiras, para trabalharem precisam de creches para deixar as crianças, mas isso também não tem. Mulheres alcançam um cargo de chefia, mas com mais dificuldade que os homens, somos colocadas a toda prova para provarmos nossas habilidades e se não correspondemos ao esperado dizem que é porque somos mulheres, mas é preciso enxergar que os homens desenvolvem várias habilidades, para várias profissões, para o espaço público, há séculos, enquanto nossas ancestrais tinham como destino o âmbito doméstico, sem participação na vida pública, política, sem qualquer reconhecimento de que tudo o que se desenvolve ali, no lar, também é trabalho, infelizmente não está remunerado, mas é igualmente trabalho.     

JD1: Este ano os movimentos feministas estão organizando a greve internacional das mulheres. Como e por que surgiu essa mobilização?

Nathália Ziolkowski: Essa mobilização surgiu com o coletivo feminista argentino Nin Uma Menos. Esse coletivo foi criado em 2015 para fazer frente na luta contra feminicidios e outras violações de direitos as mulheres argentinas. Elas se definem como “Ni Una Menos es un grito colectivo contra la violencia machista.” Essa luta é a luta das mulheres no mundo, por isso uma campanha lançada pelo grupo em 2016 teve adesão internacional. Todas nós passamos a usar a #nemumaamenos #niunamenos para denunciar violências sofridas e para dizer que nenhuma de nós estará em paz enquanto alguma mulher em qualquer parte do mundo estiver em situação de perigo. Para o ano de 2017 o Coletivo convocou a paralisação das mulheres no mundo. Diante de tantos desafios, vários grupos, coletivos, movimentos sociais, mulheres autônomas, passaram a se somar e construir sua proposta de paralisação. Em muitos países por todos os continentes têm mulheres organizando seus atos de protesto e buscando alternativas para se somar a ação. No Brasil, vários estados e municípios aderiram a greve e em Campo Grande nós vamos parar. No dia 8 de março, no período da manhã, vários grupos e feministas autônomas se reunirão na Praça Ary Coelho, para denunciar suas violações, para fazer greve, para convidar outras mulheres a repensarem suas condições de vida e denunciarem a violência que sofrem.