Implantada em 2015 em Mato Grosso do Sul, a Caravana da Saúde chegou com o   compromisso  do Governo do Estado em  estruturar do sistema de saúde, com o objetivo de proporcionar uma melhor assistência à população sul mato-grossense. Desde o início de seu funcionamento a  meta do programa, que atende as meta do programa que atende as  11 microrregiões de saúde do estado, é diminuir as filas, problema que atinge a estrutura de atendimento de média e alta complexidade principalmente na Capital. Em entrevista ao Jornal de Domingo o Secretário de Estado de Saúde, Nelson Tavares explicou a viabilidade dos serviços da Caravana e explicou porque, apesar dos bons resultados, o programa ainda recebe críticas.

Jornal de Domingo – A marca da sua gestão e desse governo na saúde são as caravanas, que mesmo bem avaliadas são alvo de  críticas.  Como o senhor encara isso?

Nelson Tavares – As críticas à Caravana são naturais. Nós avaliamos isso já durante o período da campanha eleitoral do governador. Elas são um misto de desinformação e de má vontade em relação esse tipo de procedimento que  acontecem no mundo todo. Quando você tem uma necessidade de ação radical, quando o problema é muito grande e você tem soluções dramáticas, é inegável que precise ter soluções extraordinárias para problemas extraordinários. E a caravana da saúde se encaixa exatamente nisso. Nós estamos em um processo de regionalização da saúde, só que muitos centros não podiam esperar por isso. É desumano você ter uma pessoa esperando para ser operado por 10, 20, 30 anos. Nós fizemos em pouco mais de um ano com a caravana quase 62 mil cirurgias eletivas que não ocorreram em toda a história de Mato Grosso do Sul. Mais de 250 mil procedimentos nós fizemos e tem apoio da população, principalmente aquela que foi objetivamente atendida. Agora, as pessoas precisam ter a compreensão que a caravana é uma etapa emergencial do projeto de reestruturação. E nesse projeto nós estamos criando os hospitais regionais, na questão assistencial. Além de tudo, vem aqui em um aspecto fundamental que é o custo. A caravana custa de um modo geral um quarto do que custa o procedimento feito pela rede. Não sei se é ignorância ou politicalha  criticar  sem ter informação de verdade,  mas os custos da caravana são baseados na tabela SUS. Essa tabela que os donos de hospitais,  criticam  e há décadas dizem ser inviável ,  é usada  caravana.

Jornal de Domingo – A Caravana é barata?

Nelson Tavares – Baratíssima. É o projeto mais barato que já se criou. Tanto é que ele está sendo reproduzido em vários outros estados. Em Campo Grande ou em Dourados, por exemplo, o quanto eles pagaram por procedimento. A caravana consegue pela metade do preço. O valor que nós pagamos pelas cirurgias que fazemos é até 1/4 do preço que ela é regularmente feita na rede normal. Nós fazemos com o foco na eficiência.

Jornal de Domingo – O volume é alto pela quantidade de atendimento?

Nelson Tavares – Exatamente. Imagina se nós poderíamos fazer 56 mil cirurgias pagando o preço que eles custam na rede. Isso seria impossível. Então, nós só conseguimos fazer essas cirurgias, porque nós conseguimos contratá-la de forma eficiente. Muitas usando iniciativa privada. Vou colocar uma questão que é inquestionável: leito de Terapia Intensiva. Quando você compra ele via judicialização ele custa cerca de R$ 5 mil por dia. A média do valor dela em Mato Grosso do Sul é R$ 3.200 por dia, eu contrato privado a R$ 1.500 por leito por dia. Isso que nós precisamos colocar na saúde: gestão, capacidade, competência. Focar na equação financeira. A saúde não é volume de dinheiro, a saúde é qualidade de investimento. Você quer fazer uma evolução e as pessoas acham que está bom do jeito que está porque são privilegiados nesse modelo.

Jornal de Domingo – Muitos falam que a terceirização dos hospitais acaba custando mais caro que a rede privada. Ponta Porã, por exemplo, custava R$2,4 milhões por mês e agora vai custar R$ 3,5 milhões. O que existe de verdade nisso?

Nelson Tavares – Na verdade esse pensamento de avaliar custo dessa forma é a mesma coisa que você ir no mercado e falar o seguinte: eu comprei um carrinho de supermercado e paguei R$ 1 mil, você comprou um e pagou R$ 2 mil. Então o seu é o dobro do preço, sem saber o que está dentro do carrinho. As pessoas tem que entender o que está sendo entregue de serviço. Por exemplo, lá temos uma UTI trabalhando e só ela custa em torno de R$ 500 mil por mês. Mas uma UTI normal de 10 leitos custa R$ 1,5 milhão por mês. As pessoas também precisam considerar que 90% dos casos graves que eram encaminhados para Dourados de Ponta Porã e para Campo Grande, hoje são resolvidos lá porque tem Terapia Intensiva. Não adianta você ter um serviço de saúde que você atenda a pessoa, precisa de um serviço de saúde que resolva o problema da pessoa. Se você tiver uma unidade funcionando com emergência 24 horas em que o médico não tenha suporte de laboratório, raio-x, eletrocardiograma, ultrassonografia, é melhor  ele não existir. Os serviços que não tem aparelhagem não te, condições de ser intermediários no sistema de saúde.

Jornal de Domingo –  O senhor tá falando que um unidade que trem um médico sentado em uma cadeira escolar, onde não há laboratórios e equipamentos, é inútil?

Nelson Tavares – Sim. Sem dúvida nenhuma, sob o ponto de vista da urgência e emergência. Você pode ter um centro de saúde que faça os programas de saúde: hipertensão, diabetes, tuberculose. Todos esses programas são importantíssimos no Centro de Saúde onde a pessoa recebe medicamento e precisa ter a sua saúde controlada para que ele não entre da urgência e emergência. Mas você ter um local onde você consiga fazer um diagnóstico, estabilizar o paciente e mandar para frente, para um lugar onde ele possa ser atendido, hoje não tem sentido. E nós estamos hoje com 120 hospitais nessa situação, consumindo um custo por leito muitas vezes superior ao que custa o da Santa Casa. Esses são números que as pessoas antes de criticar precisam conhecer. A Santa custa em média R$ 38 mil por leito por mês, um hospital do interior custa mais de R$ 50 mil para ter próximo de zero de resultilidade.

Jornal de Domingo –  os conselhos de saúde e sindicatos não corroboram com  essa visão.Porque?

Nelson Tavares – O controle social é importantíssimo, é fundamental, mas precisa ser aperfeiçoado. Não pode ficar nas mãos de pessoas as vezes por 10, 20, 30 anos que acabam não discutindo o interesse da população, o interesse do usuário, acabam confundindo o interesse do servidor, do sistema sindical com o interesse do usuário. O usuário acaba sendo prejudicado. Coloca-se aspectos políticos e ideológicos interferindo nas questões de saúde pública.

Jornal de Domingo – A visão dos médicos são parecidas com as dos sindicatos. Isso é uma confluência do atraso, são pontos de vista?

Nelson Tavares – A saúde perdeu muito quando afastou o médico do papel que ele sempre desempenhou. Nós começamos a tratar o médico como um trabalhador normal, ele começou a se comportar como um trabalhador normal e hoje estamos em uma fase de transição muito difícil porque se espera muito do médico e se oferta muito pouco para ele. O sistema paga um preço elevadíssimo por isso. Se você analisar as proposições que o médico tem sobre o sistema de saúde, a maioria são perfeitas, são corretas. Existe uma minoria de pessoas que são médicos, mas mais vinculados ao setor sindical e corporativista que criticam esses posicionamentos. Mas a classe médica, de um modo geral, sempre foi e será a essência do projeto de saúde. Todas as categorias são importantes, mas o médico não pode ser desprestigiado como ele tem sido recentemente.

Jornal de Domingo – Não é a falta de dinheiro então que está inviabilizando a saúde?

Nelson Tavares – Você conseguiria resolver com dinheiro, eu não tenho dúvida nenhuma. O Brasil vem fazendo isso ha décadas. Tem um modelo ineficiente que sempre foi corrigido com injeção de mais dinheiro. Existe um consenso no Brasil hoje que está na hora da gente questionar o modelo. Hoje em Campo Grande se gasta todo o dinheiro da saúde pagando a folha da atenção básica. Como é possível gastar um quarto da arrecadação do município de Campo Grande pagando só a folha da saúde. Não é possível que as pessoas se sintam a vontade de continuar discutindo volume de recurso para a Santa Casa, para o Hospital Regional, enquanto nós não discutirmos para onde está indo esse dinheiro. Não é o quanto o prefeito pôs na saúde. Não é possível as pessoas acharem ainda que com volume de dinheiro resolve as coisas. Não é volume, é qualidade no investimento.