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"O CRM é defensor da sociedade", diz Celso Codorniz
Destacando os desafios de mudar o cenário da saúde pública em Mato Grosso do Sul, o presidente do CRM/MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) Celso Codorniz explicou em entrevista ao Jornal de Domingo que os problemas são bem pontuais e a solução, para a maioria deles, estaria em maiores investimentos e uma melhor gestão.
Codorniz também falou da desvalorização da categoria médica, a situação crítica da Santa Casa de Campo Grande e sobre o sempre polêmico erros médicos.
Confira a entrevista:
Jornal de Domingo- Situação da saúde em Campo Grande. Como o senhor avalia o quadro atual da Capital?
Celso Codorniz – O quadro atual da saúde é muito difícil no Brasil todo. Você tem falta de dinheiro, má gestão do dinheiro público, dificuldades para incorporar novas tecnologias no SUS, novos remédios, novos tratamentos no SUS demoram. E tem também uma coisa muito importante que a desvalorização da classe médica, da classe de saúde que trabalham nesses locais. 75% da população dependem do SUS, então a pior situação é a do pessoal do SUS.
Jornal de Domingo- Os postos de saúde vivem lotados de pacientes a espera de atendimento. Faltam médicos para atender a demanda e qual a melhor forma de resolver isso?
Celso Codorniz – A saúde é uma coisa só. Ela tem que começar no posto de saúde, continuar pela porta do hospital dentro. Paciente que é mais grave, ao invés de ficar nos posto de saúde deveria ser transferido para um hospital e lá poderia ir para a enfermaria, centro cirúrgico ou CTI, depende da gravidade. Então a coisa é uma só. Falta pessoal nos postos? Falta. Eles abrem concursos públicos e não preenchem as vagas. Falta, por exemplo, pediatras na rede pública. As vagas não são preenchidas porque os salários que eles oferecem, a carreira que eles oferecem é pouco interessante, as pessoas acabam preferindo seguir lá fora do que seguir uma carreira dentro da prefeitura. Durante o dia eles preferem trabalhar nos consultórios, inclusive falta pediatras em todos os postos, mas eles tem juntado e colocado nos maiores como Coronel Antonino. Os outros postos ficam desassistidos.
Jornal de Domingo- O assunto erro médico sempre gera polêmica. Qual o papel do CRM nesses casos e o procedimento adotado para evitar?
Celso Codorniz – O CRM é defensor da boa medicina, defensor da sociedade. Todas as vezes que nós recebemos qualquer tipo de denúncia, de onde for, do hospital, do posto, do gestor, do paciente, eles são apurados aqui dentro através de sindicância, processos e são punidos. A maioria desses processos, ou pelo menos 50% vão para punição. Mas é apurado aqui dentro e todas as pessoas tem o direito de usar a palavra. Nós apuramos todas as denúncias até as que chegam através da imprensa. Esse termo erro médico é muito genérico, abrange tudo, eu acho que um termo assim é muito mais para chamar a atenção. O que nós consideramos erro médico: um médico pecou por negligência, deixou de fazer o que poderia; por imprudência, fez mais do que deveria e acabou prejudicando o paciente; por imperícia, ele não tinha um preparo, não era treinado para fazer aquilo e fez; Se ele não usar de todas as técnicas disponíveis para diagnóstico e tratamento. Tudo isso nós apuramos, mas especificamente isso. Se ele foi negligente, imperito ou imprudente.
Jornal de Domingo- Onde a vítima de erro médico pode denunciar o ocorrido?
Celso Codorniz – O órgão que apura essas denúncias do ponto de vista ético e moral somos nós. Ele pode se dirigir diretamente ao CRM. Os hospitais dispõem de um braço do CRM que é a comissão de ética deles. Então a denúncia pode ser feita no hospital e eles apuram. Porém, existem imperícias, negligência e imprudências, mas também existem os efeitos colaterais das doenças, existe um risco assumido, e nisso o paciente deve ser bem esclarecido. Se eles acharem que o médico se descuidou, vão mandar para a gente. O CRM não é um órgão de defesa do médico, é um órgão de defesa da sociedade.
Jornal de Domingo- Os problemas da saúde não só na Capital, mas no estado seriam resolvidos com mais investimentos? O problema é a falta de dinheiro?
Celso Codorniz – São muitos os focos. Talvez aqui em Campo Grande, Dourados, nas cidades maiores a gente consiga administradores de saúde, mas muitas vezes cidades menores têm dificuldades de terem administradores de saúde. A Santa Casa trouxe um de São Paulo para administrar. Então é preciso administradores de saúde e incorporar tecnologias.
Jornal de Domingo- Em relação a classe médica, falta valorização da categoria?
Celso Codorniz – Sim. Para os políticos, o médico é o líder da equipe, é o que está na frente das batalhas. Se ele não tem condições de atender em um posto de saúde, por exemplo, é ele que está na frente do paciente, é o que recebe o impacto e ele passa a ser culpado. As pessoas passam a culpa o médico ou o enfermeiro, agredido com frequência dentro do hospital ou posto de saúde porque não satisfez a necessidade do paciente. Você vê as pessoas esperando muito tempo, a falta de medicamento no posto e eles acreditam que a equipe médica é a responsável por aquilo tudo, porque é a pessoa que está na frente dele.
O curso de medicina é o mais longo que nós temos, cerca de seis anos de período integral. Depois você faz uma complementação chamada residência médica para se especializar, são mais quatro anos de período integral, ou até mais, porque a lei diz que o residente tem que trabalhar 60 horas por semana e ter um dia de folga. Você precisa de tempo para formar, estabelecer uma técnica, ganhar experiência e isso não se faz de uma hora para outra. São dez anos entre eu entrar na faculdade e sair como especialista para começar a trabalhar. Então PE uma coisa prolongada. É um aprendizado na verdade é continuo, a gente continua aprendendo mesmo depois de sair da faculdade.
Jornal de Domingo- Outro problema bem pontual é a Santa Casa de Campo Grande. Em que o conselho tem contribuído para resolver os problemas do hospital e em sua opinião qual seria o motivo para todos eles?
Celso Codorniz – Na Santa Casa de Campo Grande, como nos outros hospitais, o que existe é uma defasagem entre o gasto desses hospitais e o dinheiro que eles recebem. A Santa Casa afirma que tem um prejuízo mensal de R$2,5 milhões porque o SUS paga uma pacote fechado e ela atende mais que aquele pacote. Isso acontece com a maternidade também. O SUS é subfinanciado. Mesmo que ela recebesse pelos procedimentos, geralmente o que ele paga não cobre os custos de uma cirurgia e além disso você é obrigado a atender uma parcela maior. Se uma pessoa tiver passando mal do lado de fora, você vai recolher e isso ultrapassa a capacidade do hospital por isso ficam pacientes nos corredores do hospital, as vezes salas da administração são desocupadas para colocar macas. Nós tentamos mediar essa situação entre a Santa Casa e o gestor do SUS, que no caso é a Sesau tentado sensibilizá-lo. Mas por outro lado a Sesau e o prefeito dizem não ter mais dinheiro para colocar.