Ninguém escreve ao poeta. Sentado, impávido, em seu sofá ao ar livre na esquina das ruas Afonso Pena e Rui Barbosa a estátua de Manoel de Barros desperta mais curiosidade do que admiração ou interesse. A tal esquina, da mais famosa avenida da cidade com a rua mais conhecida como corredor de ônibus foi o ponto escolhido para abrigar a obra do cartunista e escultor sul-mato-grossense Ique Woitschach, que saiu jovem das redações locais para o sucesso na Cidade Maravilhosa.

De seu estúdio no Rio de Janeiro, o bem-intencionado Ique concebeu a obra na qual Mané, sentando em seu sofá, aprecia um bom livro na companhia de pássaros, motos, fuscas e muita gente. Para quem “passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas” tudo aquilo parece gigantesco. Durante o dia, o corre-corre das pessoas tentando não chegar atrasadas no trabalho ou de estudantes apressados para não perder a condução. Justificativa para a escolha do local não faltaram. Ique diz que ficar sob a sombra da figueira seria a escolha do próprio Manoel. 

“É o quintal do Manoel, local que sempre gostou e admirou”. Marisa de Barros, nora do artista, concorda e diz que Manoel adoraria o lugar, apesar de parecer intimidador. “Era assim, ele era bem tímido. Mas era nesse sofá que ele recebia as visitas, os amigos”, concluiu. A obra pesa 400 quilos e custou R$ 230 mil aos cofres do Governo do Estado, financiador do projeto, e segundo seu autor tem os traços característicos de Manoel de Barros, como o sorriso e a posição dos pés. Para quem dizia ser “livre para o silêncio das formas e das cores”, talvez o local não seja tão relevante assim.

“O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser.” E entre tanta gente, Maneco nunca termina o seu livro porque não tem pressa, e na sombra centenária sabe que “as flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas” porque depois de tanto debate algo novo pode surgir. Mas, seria ali o melhor local para fixar o grande poeta? Esse debate dividiu opiniões e provocou paixões e às vezes, revolta e indignação, como agora com o recente caso de jovens simulando sexo com a estátua. Depois de se transformar em cama para moradores de rua e ter os refletores surrupiados, a criatividade dos vândalos desocupados levou dois rapazes a simularem sexo com a estátua. Coisa tosca, grosseira, mas que faz o debate ficar mais acalorado. Claro que o problema não ocorre apenas em Campo Grande. 

Obras similares a essa – fixadas em locais públicos em tamanho real que anima turistas e moradores e dispararem seus flashes -, existem no Rio de Janeiro com homenagem a Carlos Drummond de Andrade, Michael Jackson e Noel Rosa, entre outros; para Bridget Barbot, em Búzios; e a Fernando Pessoa, em Lisboa; são ocasionalmente vítimas de vandalismo. No entanto, parece que na Capital Morena barbarizar coma imagem do poeta parece ser a opção mais provável. Transitando pelo local, raramente se vê pessoas admirando a obra ou mesmo se deixando fotografar por ali.

A impressão é de que a maioria das pessoas lhes são indiferentes ou desconhecem saber quem é o senhor simpático ali. Para Lourdes Guimarães, 53 anos, moradora do Bairro Tijuca “é claro que já vi falar do Manoel e li algo dele, mas a maioria das pessoas não o conhecem. Acho que devia falar mais dele nas escolas, trazer as crianças para conhecer a estátua e, assim, valorizar mais as coisas daqui”, sugere a campo-grandense. E mesmo entre escritores, jornalistas e formadores de opinião não há consenso sobre o tema. Sylvia Cesco, poeta, diz que “sempre fui contra o local em que foi colocada a estátua. A própria estátua e o local não traduzem absolutamente nada da alma e dos poemas do nosso Maneco. Dói na gente que o conhecemos mais de perto sabê-lo aturando as buzinas da avenida mais movimentada e urbana dessa Morena”. E vai mais além. “Além do escárnio de vândalos que são bem diferentes aos bêbados infantis por ele reverenciados e, portanto, o lugar desse nosso poeta inigualável seria entre o verde, os pássaros, as lagartixas, as borboletas, o azul, o azul, o azul do silêncio”, sugere a escritora que sugere o Horto Florestal como local alternativo à Afonso Pena. Alex Fraga, jornalista e detentor de um blog cultural bastante acessado, diz que “a homenagem foi até tardia, pois ele merece. Representa a nossa poesia oculta aos olhos de muitos. Quanto ao local não aprovo. Deveria ser em uma área com maior movimento de turista e com mais segurança.  Sempre disse que o melhor local seria na Praça dos Imigrantes, ou Praça dos Artesãos, pois daria maior movimento para os artesões em suas lojas e com tem segurança 24 horas”.

O fato é que o caso realmente divide opiniões, principalmente para quem gosta de viajar mais por palavras do que de trem. A única questão que parece ser quase consensual é que colocar o poeta na esquina da Afonso Pena com a Rui Barbosa não foi a melhor das ideias. A maioria acredita que há vários lugares muito mais interessante e apropriados para a homenagem, como o Parque das Nações Indígenas, por exemplo. E há aqueles que simplesmente acreditam que o quê vale é a homenagem. Geraldo Espíndola, músico e compositor, diz concordar com o que a sociedade campo-grandense decidir e encaminhar. “Para mim o que vale é que ele merece ser homenageado mesmo. A cidade decidiu, os Conselhos decidiram e isso é função deles e eu aceito e respeito. Considero Manoel de Barros o mágico da poesia da língua portuguesa, e tenho o maior orgulho de ele ser de nossa terra. Ele faz do invisível das palavras se tornar gente em nossa frente, e independente do lugar eu acredito que ele deve ser homenageado sempre”, finalizou um dos grandes artistas sul-mato-grossense. E Geraldo tem razão, afinal “poesia é voar fora das asas.”

E assim, parece que a polêmica segue adiante. Contra ou a favor, o fato mais relevante é que a cidade precisa se preparar melhor para cuidar de seu patrimônio e preservar sua memória histórica, arquitetônica e cultural. É preciso que o poder público e as entidades, públicas e privadas, que cuidam do setor aprendam a dialogar melhor com o conjunto da cidade para que aberrações como as citadas acima não aconteçam. O povo tem que ter acesso à cultura e aos equipamentos públicos, e à medida que a cultura estiver mais próxima e disponível a todos a tendência é que problemas como esse sejam dirimidos. Enquanto isso, seguimos com nossa incompletitude enquanto sociedade enquanto Maneco, de onde estiver, nos olha dizendo: “perdoai, mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas.”

“Me entristece muito”, diz autor de obra

Para o artista plástico Ique Woitschach, autor da estátua do poeta Manoel de Barros, o principal motivo para os ataques de vandalismo que a obra é a falta de educação da população. “A única coisa que é possível ser feito para acabar com vandalismo é educar o povo. O povo não tem educação, não sabe o que é cultura, o povo desconhece isso. O que falta é a educação, e isso é geral, não é só em Campo Grande é no Brasil inteiro”, salienta Ique.

Sobre o local escolhido para abrigar a estátua, Ique destaca que para ele não teria melhor lugar. “Existe uma tentativa de desqualificar o local, desqualificar o espaço, desqualificar a obra. Ai tem uma colaboração sofisticada que é o lado da história que não queria aquela obra ali. O local não tem nada a ver com o vandalismo, aliás ali é o melhor local, por que é um local público, que tem iluminação, que passa gente praticamente 24 horas, avenida principal da cidade”, disse.

Ique ainda explica que apesar dos fatos ocorridos, o vandalismo é para ele é um fato isolado. “Me entristece muito ver, mas eu prefiro ela na rua, tendo esse tipo de reação. Por que na verdade  é meio por cento das reações que ela provoca na verdade, as positivas são muito melhores”, salienta. 

Além disso, Ique destaca que o ibope dado a essas práticas de vandalismo só faz com elas voltem a se repetir ,mas ele não culpa os autores pelo ato. “Os meninos que subiram nela e ficaram fazendo obscenidade com a peça  vivem essa agressividade, eles vivem esse dia a dia e querem mostrar. Precisamos mostrar que o mundo não é tão ruim como o que eles vivem. Porém, quanto mais se repercutir isso, mais ibope eles vão ter e vão continuar a fazer. Se não falar nisso e falar das coisas boas, simplesmente não terá de novo porque  eles não vão ter a repercussão que eles esperam”, conclui Ique.


 Localização foi imposição judicial

A estátua de bronze do poeta Manoel de Barros hoje está localizada na avenida Afonso Pena, entre as ruas Rui Barbosa e Pedro Celestino, porém o local onde ela ficaria foi definido depois de muita polêmica. 

A localização foi escolhida após um encontro, em setembro do ano passado, com o juiz da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, David de Oliveira Gomes Filho, que impediu a instalação da estátua no local originalmente escolhido (no canteiro central da avenida Afonso Pena, entre as ruas Rui Barbosa e 13 de Maio), em razão de ação impetrada pelo Ministério Público Estadual (MP-MS).

O impasse do destino da estátua teve início quando o local inicialmente escolhido era na verdade uma área tombada pelo patrimônio histórico e cultural da cidade.  Enquanto aguardava a escolha do local definitivo para a sua instalação, a estátua ficou em exposição no Museu de Arte Contemporânea (Marco), em Campo Grande.