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DESPEDIDA
Ontem cumpri o doloroso dever de sepultar meu Pai. No caixão duas bandeiras: uma do Inter e outra do Líbano. Confortado pelas inúmeras mensagens, pelas muitas presenças e pelas dezenas de homenagens recebidas através de coroas de flores, percorremos o último cortejo acariciados por músicos tradicionalistas gaúchos que entoavam o “Canto Alegretense”.
Agora, passadas algumas horas do último adeus, faço algumas reflexões.
Meu Pai teve vida longa, 92 anos, e uma morte sem sofrimento. Agradecemos a Deus esta dádiva. E morreu com vontade de continuar vivendo. Mas por que não estava cansado da vida se já passava por tantas privações? Se andava de cadeira de rodas e se necessitava de cuidadores 24 horas por dia? Porque viveu e morreu cercado por uma imensa corrente de amor e fraternidade.
A começar por minha Mãe, a Dna Dica. Eu morava longe, mas as minhas irmãs Jamile e a Janine, meus cunhados Roque e César e os netos Juliana, Artur, Ana Laura e Paulo, este de forma especial porque de certa maneira foi criado por ele quando do fim do primeiro casamento de minha irmã, formaram um time amoroso que nunca permitiu em um único segundo que ele deixasse de se sentir importante. Some-se a isto uma grande corrente de parentes e amigos nossos, que se tornaram amigos dele e formaram um “Veião Futebol Clube” que não cansava de celebrá-lo. Tínhamos inclusive um grupo de zap que se formou com o nome “90 anos Dr Marun” e que, passada esta festa, mudou para “95 anos do Marun 2026”. Os 95 não chegaram, mas os 92 foram muitíssimos bem vividos.
Orador brilhante teve várias fases na vida. A infância e a adolescência no Alegrete. O quartel, onde foi Cabo de Artilharia no tempo em que os canhões eram puxados a cavalo e onde quebrou os dois braços na queda de um deles. O basquete, onde chegou a compor a seleção gaúcha, jogando pelo Corinthians de Santa Maria. O Curso de Economia na PUC-Porto Alegre, com brilhante discurso como Orador da Turma. A Política, seguindo Fernando Ferrari.
O Casamento em Cruz Alta com a dona Dica. A Sociedade Libanesa. O Tribunal de Contas. O Cinema (como administrador e não como ator, rs). Os Eucaliptos. As boias-cativas. As visitas semanais, sempre aos domingos, às obras do Beira Rio. Os foguetes da “alvorada rubra” e a inauguração do Estádio, me levando pela mão. Capão da Canoa. Xangri-Lá. A volta aos bancos escolares na UniSinos para estudar Direito, iniciando no mesmo ano em que iniciei o Curso de Engenharia para que “nos formássemos juntos”, o que aconteceu em 1982. A bocha. As visitas ao Mato Grosso do Sul. As festas. Os 70 anos ao som de Luís Carlos Borges. As Bodas de Prata, ao som de Moacir Franco. Os seus 80 anos no Al-Nur, que não aceitou de forma alguma que pagássemos a festa, pois era para eles uma honra que o aniversário do “Lenda” acontecesse ali. Os 80 anos da Mãe, ao som de Vanderlei Cardoso. Os 60 anos de casado. Os 90 anos comemorados no Restaurante Santo Antônio, novamente ao som de Luís Carlos Borges…
A cada nova fase, novos amigos, sem que fossem esquecidos os velhos, que foram se indo e deixando dolorosa saudade. Ao final, decidimos não mais informá-lo do falecimento destes.
E aí foi chegando o entardecer da vida, onde o afeto dos novos amigos tornou-se ainda mais fundamental.
Veio então a decisão da Luciane e do Lourenço de voltarmos, depois de 35 anos, a residir em Porto Alegre para ficarmos mais perto dos “nossos velhos”. Esta decisão ainda é muito incompreendida por amigos e correligionários de MS, onde mantenho escritório, residência e domicílio eleitoral, mas hoje eu agradeço muito que eles a tenham tomado.
Que lições me deixa a vida do meu Pai? Muitas. Inicialmente integridade e bondade. A alegria. A ironia. A disponibilidade. Mas a maior de todas é a valorização do “ser” sobre o “ter”.
Vejo muita gente preocupada em deixar riqueza material para os filhos, mas descuidando do carinho e da parceria. Nosso pai praticamente não nos deixa patrimônio, mas nos ofereceu um “tsunami” de afeto e por isto nunca esteve sozinho. Não estou diminuindo a necessidade de boa condição financeira. Foi por tê-la conquistado que o Dr Marun teve conforto nos seus dias derradeiros. Porém, definitivamente, acreditem: patrimônio não é o principal.
Muito Obrigado a todos e todas pelas mais diversas formas pelas quais expressaram a nós a sua solidariedade neste momento extremamente doloroso.
E que siga lá pelota!
Fraterno Abraço!
Carlos Marun
* O autor é engenheiro, ex-deputado e ex-ministro