Ao longo de mais de 30 anos dedicados à educação pública, atuei como professor, diretor de escola, coordenador, exerci funções pedagógicas na Secretaria de Estado de Educação e cheguei ao cargo de secretário de Estado de Educação. Em todas essas etapas, uma certeza se fortaleceu: nenhuma escola alcança plenamente seus objetivos sem a participação da família.

Antes mesmo de entrar em uma sala de aula, a criança já começou a aprender. Aprende pelo afeto, pelo exemplo, pela conversa, pelos limites e pela convivência. A família é o primeiro espaço de formação, onde se constroem valores, confiança, curiosidade e segurança emocional.

Na prática, vi estudantes recuperarem a autoestima quando alguém passou a perguntar como havia sido seu dia na escola. Vi o desenvolvimento integral se fortalecer e a proficiência individual evoluir quando a família começou a acompanhar mais de perto a rotina de estudos. A presença familiar não exige domínio dos conteúdos. Exige interesse, escuta, incentivo e constância.

As pesquisas confirmam essa percepção. Estudo com aproximadamente 3,9 milhões de estudantes brasileiros apontou associação positiva entre envolvimento familiar e desempenho em leitura e matemática, especialmente nos anos iniciais. O PISA 2022 também indicou que estudantes que conversam com seus responsáveis sobre escola, aprendizagem e projetos de vida demonstram maior motivação, melhores estratégias de estudo e maior participação no próprio processo de aprendizagem.

Mas é preciso reconhecer que muitas famílias enfrentam pobreza, jornadas extensas de trabalho, violência, insegurança alimentar e outras vulnerabilidades. Por isso, não basta cobrar presença. É necessário criar condições para que essa participação aconteça.

Nesse processo, a escola não pode caminhar sozinha. A Defensoria Pública, o Ministério Público, os Conselhos Tutelares, o Tribunal de Contas, o Poder Executivo e os demais órgãos de proteção e controle têm papéis fundamentais na garantia de direitos, no acompanhamento das políticas públicas e na proteção das crianças e adolescentes. Quando essas instituições atuam de forma articulada, fortalecem as famílias e ampliam as oportunidades de aprendizagem.

Em Mato Grosso do Sul, essa reflexão ganha uma dimensão ainda maior. Nosso Estado reúne realidades diversas: fronteiras, periferias urbanas, comunidades indígenas, quilombolas, assentamentos e escolas do campo. Cada criança chega à escola trazendo uma cultura, uma história e uma forma própria de compreender o mundo.

Como ensinou Paulo Freire, educar exige reconhecer a identidade cultural do estudante. Isso significa valorizar os saberes das comunidades e transformar a diversidade em potência pedagógica. Não existe uma única infância, assim como não existe uma única forma de aprender.

Lev Vygotsky mostrou que o desenvolvimento acontece nas relações sociais. Urie Bronfenbrenner demonstrou que a criança se desenvolve a partir da interação entre família, escola, comunidade e cultura. Joyce Epstein evidenciou a importância da parceria entre escola e família. A ciência, portanto, confirma aquilo que a experiência educacional revela todos os dias.

Nenhuma criança aprende sozinha. Ela aprende quando encontra uma família que incentiva, uma escola que acolhe, professores que inspiram, instituições que protegem e uma sociedade que compreende que educar é uma responsabilidade compartilhada.

Esse é o verdadeiro sentido da educação pública: uma construção coletiva, feita por muitas mãos, para garantir que cada criança possa aprender, desenvolver seus talentos e realizar seu projeto de vida.

Helio Daher
Secretário de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul e vice presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação