Opinião
OPINIÃO: O que os rankings não conseguem medir
Recentemente, ao discutir publicamente os resultados educacionais de Mato Grosso do Sul, defendi que comparar escolas apenas pela posição que ocupam em um ranking pode produzir uma leitura incompleta e, muitas vezes, injusta da realidade.
Uma escola não recebe apenas estudantes. Recebe histórias.
Há crianças que chegam alimentadas e outras que enfrentam a fome. Há jovens que contam com apoio familiar e outros que convivem com a violência, a ausência dos pais ou a necessidade de trabalhar. Há escolas inseridas em territórios vulneráveis e outras que encontram condições muito mais favoráveis à aprendizagem.
Por isso, mais importante do que perguntar qual escola está em primeiro ou último lugar é compreender de onde ela partiu, quais obstáculos enfrentou e quanto conseguiu avançar.
Essa compreensão dialoga com Paulo Freire. A educação não acontece separada da realidade concreta do estudante. Sua história, sua família e seu território atravessam o processo de aprendizagem. Considerar esse contexto não significa justificar resultados insatisfatórios, mas compreender melhor a realidade para transformá-la. Da mesma maneira Michel Foucault também nos ajuda a refletir sobre o poder das classificações. Ao analisar os mecanismos de exame e normalização, mostrou como instrumentos de avaliação podem produzir hierarquias. Na educação, o problema surge quando uma posição em uma tabela deixa de ser informação e passa a funcionar como uma sentença sobre a qualidade de uma escola.
Uma unidade localizada em território de grande vulnerabilidade que consegue reduzir o abandono, recuperar estudantes e melhorar a aprendizagem pode estar realizando um trabalho extraordinário, mesmo sem ocupar as primeiras posições de um ranking.
Isso não diminui a importância das avaliações externas. SAEB, IDEB e outros indicadores são fundamentais para diagnosticar a aprendizagem, estabelecer metas e orientar políticas públicas. O problema começa quando o indicador deixa de ser instrumento e passa a ser finalidade.
Em Mato Grosso do Sul, temos procurado fazer uma escolha clara: qualidade educacional não se constrói por atalhos. Obviamente levamos a sério a participação dos estudantes no SAEB porque um diagnóstico precisa representar a realidade da rede. Da mesma forma, não acreditamos em aprovações generalizadas como estratégia para melhorar indicadores. Nosso compromisso é com a aprendizagem, com recuperação, acompanhamento e apoio para que o estudante avance com conhecimento.
Melhorar o indicador deve ser consequência da evolução da educação, nunca o contrário.
Essa compreensão também está presente nas reflexões de Andreas Schleicher, diretor de Educação e Competências da OCDE e responsável pelo PISA. Tive o prazer de estudar com Schleicher na OCDE, em Paris, experiência que ampliou minha compreensão sobre o papel das avaliações e sobre como seus resultados devem ser utilizados para aperfeiçoar os sistemas educacionais. Afinal avaliar deve servir para identificar fragilidades, compreender desigualdades e orientar mudanças. Quando essa lógica se inverte, corremos o risco de deixar de aperfeiçoar a educação para melhorar os indicadores e passar a administrar a educação para produzir indicadores elevados.
E são coisas muito diferentes.
Educação não pode ser conduzida pela lógica do marketing. Uma boa manchete dura alguns dias. A aprendizagem, ou a ausência dela, acompanha um estudante por toda a vida. E não podemos nos esquecer de que nossa responsabilidade não é produzir rankings convenientes. É produzir aprendizagem.
Precisamos reconhecer as diferenças entre as escolas sem diminuir nossas expectativas sobre nenhuma delas. Talvez uma das medidas mais importantes seja justamente a distância entre a escola que tínhamos e a escola que conseguimos construir.
Acredito na avaliação, na transparência e no estabelecimento de metas. Mas acredito, com a mesma convicção, que números precisam de contexto. Pois quando olhamos apenas para uma tabela, enxergamos posições. Quando olhamos para dentro das escolas, enxergamos pessoas.
Enxergamos o estudante que voltou a acreditar que poderia aprender. O professor que insistiu. A escola que evitou um abandono. O jovem que encontrou na educação uma possibilidade diferente para sua vida.
Nada disso cabe inteiramente em uma planilha.
E talvez esteja justamente aí aquilo que os rankings não conseguem medir.
A missão da educação pública não é descobrir qual escola ocupa o primeiro lugar. É fazer com que cada escola seja melhor do que foi ontem e garantir que cada estudante tenha a oportunidade de aprender e construir seu projeto de vida.
Porque o melhor lugar que uma escola pode ocupar não é o topo de um ranking. É um lugar decisivo na transformação da vida de seus estudantes.
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Professor Helio Daher, especialista em Gestão Escolar
Mestre em Educação
Secretário de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul