Opinião
Quem acolhe também precisa de colo
No Dia do Professor, penso nas pessoas que existem por trás das homenagens. Naqueles que entram na sala de aula carregando muito mais do que livros e planos de ensino. Levam uma noite mal dormida, a preocupação com alguém da família, uma saudade que aperta ou uma dor que ainda não conseguiram explicar. Mesmo assim, recebem os estudantes, respondem às perguntas e procuram oferecer a cada um a atenção de que precisa. Nem sempre alguém percebe o que estão vivendo.
Depois de tantos anos na educação, como professor e gestor, compreendo cada vez mais que celebrar esses profissionais exige também cuidar deles. Há uma vida inteira por trás de quem ensina. Há famílias, medos, perdas, sonhos e limites que precisam encontrar espaço em nosso olhar.
Costumamos reconhecer os professores pela dedicação e pela capacidade de continuar. Mas também precisamos enxergá-los quando estão cansados. Quando a voz falha, quando o entusiasmo diminui, quando uma doença exige uma pausa. O respeito que temos por alguém precisa alcançar também os dias em que essa pessoa não consegue dar conta de tudo.
Neste Dia do Professor, precisamos falar sobre as condições em que nossos docentes vivem e trabalham. Sobre o tempo para descansar, o apoio diante das dificuldades, o respeito à saúde e a possibilidade de pedir ajuda sem medo. As homenagens ganham sentido quando encontram continuidade no cotidiano.
Leonardo Boff, em Saber cuidar: ética do humano — compaixão pela Terra, compreende o cuidado como uma atitude de responsabilidade, atenção e envolvimento afetivo com o outro. Essa reflexão nos convida a perceber que acolher exige presença e compromisso. Na escola, isso pode começar com uma pergunta simples, feita com disposição verdadeira para ouvir: “Como você está?”.
Às vezes, o primeiro alívio nasce da certeza de que alguém percebeu nossa dor. Uma conversa sem pressa, uma atitude compreensiva, o respeito ao silêncio quando as palavras ainda não chegam. São gestos que ajudam a construir confiança e tornam possível dizer aquilo que, por medo ou vergonha, vinha sendo guardado.
A filósofa e educadora Nel Noddings também oferece uma contribuição importante ao colocar as relações de cuidado no centro de sua reflexão sobre a educação. Sua perspectiva valoriza o encontro e a atenção às necessidades do outro. Ao trazer essa compreensão para a gestão educacional, penso que precisamos cultivar com os professores o mesmo acolhimento que desejamos oferecer aos estudantes.
Quem enfrenta um momento difícil necessita de orientação, acompanhamento e condições para cuidar de si. Precisa poder buscar ajuda sem ter sua trajetória reduzida à dificuldade que atravessa. A escuta precisa encontrar continuidade em decisões que respeitem sua saúde e sua dignidade.
Isso se torna especialmente importante quando a saúde exige uma mudança de função. Para quem construiu parte de sua identidade na sala de aula, afastar-se dela pode despertar uma sensação de perda. Há vínculos, lembranças e um modo de estar no mundo envolvidos nessa experiência. Acompanhar esse momento exige delicadeza e respeito ao tempo de cada pessoa.
Em Mato Grosso do Sul, o acolhimento desenvolvido pela Unabes, na Secretaria de Estado de Educação, ajuda a dar forma a esse compromisso. Uma de suas iniciativas, a coletânea “Aprendizagem e o Fazer Pedagógico”, reúne experiências de profissionais em readaptação e abre espaço para que seus conhecimentos sejam reconhecidos e compartilhados.
Vejo nessa publicação um significado profundamente humano. Uma trajetória continua tendo valor quando precisa seguir por outro caminho. A experiência acumulada, a sensibilidade e os saberes de um professor permanecem com ele. Encontrar novas possibilidades de participação, quando suas condições permitem, pode fortalecer o sentimento de pertencimento nessa nova etapa.
Mas o cuidado deve existir também quando a pessoa precisa apenas descansar e se recuperar. Ninguém deveria sentir que precisa provar sua utilidade para merecer atenção. Antes de qualquer resultado, há uma vida que importa.
Quero uma escola em que os professores encontrem a atenção que procuramos oferecer aos estudantes. Uma escola em que pedir ajuda seja possível, em que os limites sejam respeitados e em que ninguém precise esconder o sofrimento para preservar o reconhecimento de seu trabalho.
Neste Dia do Professor, desejo que cada docente se sinta lembrado, respeitado e amparado. Que receba o reconhecimento por tudo o que constrói e encontre apoio para aquilo que enfrenta em silêncio.
Quem tantas vezes acolhe a dor de um estudante também precisa de alguém que perceba a sua. Quem ajuda a sustentar tantos sonhos também precisa encontrar onde descansar o próprio cansaço. Quem acolhe também precisa de colo.
Hélio Daher
Secretário de Estado de Educação