Vídeos nas redes sociais, questionários rápidos e listas de comportamentos têm levado muita gente a questionar se tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). O problema é que identificar semelhanças entre a própria rotina e os sintomas descritos na internet não significa ter o transtorno.

O alerta ganha destaque durante o Outubro Laranja, período de conscientização sobre o TDAH. Para o psiquiatra Kleber Vargas, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), a avaliação precisa ir além de sinais isolados, já que dificuldades de atenção também podem ter outras explicações.

“Nem todo sintoma significa necessariamente que o indivíduo tem uma doença”, explica o médico. Ansiedade, depressão, estresse, privação de sono e uso de determinadas substâncias estão entre os fatores que podem prejudicar a concentração e a memória.

O transtorno é uma condição do neurodesenvolvimento que pode envolver desatenção, hiperatividade e impulsividade. Entre as manifestações estão dificuldade para manter o foco, organizar tarefas e seguir instruções, além de inquietação e atitudes tomadas sem avaliar as consequências.

Esses sinais, porém, não são exclusivos do TDAH. Esquecer compromissos, perder objetos e procrastinar podem fazer parte do quadro, mas também ocorrer em pessoas sem o transtorno.

“Temos que tomar muito cuidado com esse tipo de teste, porque eles não têm sensibilidade suficiente para que você consiga realmente fazer um autodiagnóstico”, destaca Kleber.

O ritmo de vida também entra nessa avaliação. Sobrecarga de atividades, estresse, sono insuficiente e uso excessivo de telas podem afetar o funcionamento cognitivo, especialmente entre crianças e adolescentes.

Embora muitas pessoas só descubram o TDAH depois de adultas, os sintomas precisam ter começado na infância. Por isso, o especialista investiga o histórico de desenvolvimento e procura entender como as dificuldades aparecem em diferentes ambientes, como casa, escola e trabalho.

Problemas de organização, dificuldades escolares e comportamentos observados durante a infância podem ajudar a reconstruir esse histórico. Algumas pessoas passam anos sem diagnóstico porque apresentam sintomas menos evidentes ou desenvolvem estratégias para compensar as dificuldades.

A avaliação é clínica e deve ser feita por profissional habilitado, como psiquiatra ou neurologista com experiência no transtorno. Testes neuropsicológicos podem auxiliar a investigação, mas não confirmam o diagnóstico sozinhos.

Quando o TDAH é confirmado, o acompanhamento pode combinar orientação sobre o transtorno, psicoterapia e medicamentos, conforme as necessidades de cada pessoa.

O tratamento busca ajudar o paciente a compreender suas dificuldades e desenvolver estratégias para organizar tarefas, planejar a rotina e lidar com a procrastinação. Em determinados casos, o médico pode indicar medicamentos, com acompanhamento da resposta e de possíveis efeitos adversos.

A automedicação e o uso de remédios prescritos para outras pessoas devem ser evitados.

Dificuldades persistentes de atenção, organização, controle dos impulsos ou inquietação merecem avaliação quando começam a prejudicar os estudos, o trabalho e outras atividades cotidianas.

O atendimento pode começar pela Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a equipe poderá orientar os encaminhamentos necessários.

“Se você percebe que sua atenção não está boa ou está tendo dificuldades nas atividades acadêmicas, escolares ou laborais, é importante procurar um especialista para fazer uma avaliação e verificar se existe ou não a possibilidade de ter TDAH”, orienta Kleber.

Conteúdos on-line podem ajudar a reconhecer dúvidas e buscar informações, mas não substituem uma avaliação profissional capaz de identificar a origem das dificuldades e indicar o cuidado adequado.