Saúde Mental
Setembro Amarelo: entre o silêncio, o estigma e a pressão das redes, saúde mental pede escuta e acolhimento
Entre a necessidade de pertencer, a exposição constante e a dificuldade de falar sobre o que sentem, crianças, adolescentes e adultos enfrentam desafios que podem afetar a saúde mental; especialista reforça importância do diálogo e da busca por ajuda
Mato Grosso do Sul já registrou 225 mortes por suicídio até o início de agosto de 2026, segundo dados do painel Estatística Sigo, da Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública). Desse total, 14 vítimas eram adolescentes e 69 estavam na faixa considerada jovem. Os números reforçam a importância do debate sobre saúde mental, especialmente durante o Setembro Amarelo.
Para o médico psiquiatra e professor da Afya Educação Médica, Carlos Periotto, crianças, adolescentes e jovens estão entre os grupos mais vulneráveis. Além da imaturidade emocional e da impulsividade, conflitos familiares, vulnerabilidades sociais e o ambiente digital também podem influenciar o sofrimento.
“Os jovens são uma população vulnerável devido à imaturidade emocional e à impulsividade. Além disso, há fatores como conflitos familiares, vulnerabilidades sociais e, mais recentemente, o impacto das redes sociais, com comparação constante e alta exposição”, explica.
A necessidade de pertencimento também pode aumentar essa vulnerabilidade. “A sensação de não fazer parte de um grupo pesa muito”, afirma Periotto. A exposição permanente à comparação, cobrança e rejeição pode contribuir para ansiedade, isolamento e baixa autoestima. Em situações mais graves, pode estar associada a comportamentos de risco, automutilação e pensamentos suicidas.
O especialista ressalta, porém, que as redes sociais não podem ser apontadas como causa isolada. Cada caso precisa ser analisado individualmente e envolve diferentes fatores. “Nem sempre existe um diagnóstico formal, especialmente entre adolescentes. Muitas vezes ainda não houve tempo para caracterizar um transtorno, mas a angústia e a frustração já estão presentes e podem levar a comportamentos impulsivos”, explica.
Mudanças de comportamento exigem atenção
Isolamento repentino, irritabilidade, queda no rendimento escolar, alterações no sono ou no apetite, abandono de atividades que antes davam prazer e falas negativas sobre si mesmo são sinais que merecem atenção. Mudanças bruscas de humor e na relação com amigos também devem ser observadas.
Nenhum desses sinais, sozinho, significa que o adolescente esteja pensando em suicídio. A preocupação aumenta quando as alterações são persistentes ou intensas, principalmente quando aparecem acompanhadas de falas sobre morte, desesperança ou falta de perspectiva.
“Não é preciso esperar que a situação se agrave. Quanto mais cedo a intervenção, melhor o prognóstico”, reforça o psiquiatra.
A família, segundo ele, precisa acompanhar o que acontece com crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital, mas o cuidado não deve se resumir à fiscalização. “A prevenção começa com vínculo, escuta sem julgamento e diálogo aberto. Muitas vezes, o jovem precisa de acolhimento, não de crítica ou punição”, afirma.
Periotto também alerta para a importância de não minimizar o sofrimento. “Tratar como ‘chamar atenção’ pode agravar muito o quadro”, diz.
Saúde mental sem rótulos
Se entre os jovens a necessidade de pertencimento pode aumentar a vulnerabilidade, entre adultos o medo do julgamento ainda afasta muitas pessoas do tratamento. Há quem mantenha trabalho, estudos e relacionamentos enquanto enfrenta sofrimento em silêncio.
Foi o que aconteceu com Sabrina Diniz, nome fictício utilizado para preservar sua identidade, e com Alana Dutra, também nome fictício. As duas receberam diagnósticos diferentes, mas enfrentaram dificuldades semelhantes para reconhecer o sofrimento e aceitar que precisavam de ajuda.
Sabrina procurou uma psicóloga aos 15 anos, depois de se mudar da Bahia para São Paulo e enfrentar dificuldades de adaptação e episódios de xenofobia. Anos depois, recebeu o diagnóstico de transtorno de personalidade borderline.
“Costumo dizer que às vezes entro em um espiral de pensamento do qual só consigo sair com ajuda. Foi quando descobri que aquilo não era normal.”
Ela também precisou enfrentar o preconceito contra medicamentos. “Tinha preconceito com remédios, me sentia maluca por precisar deles, achava que eu era caso de hospício mesmo.”
A primeira experiência com um psiquiatra não foi positiva, mas serviu para mostrar a importância do vínculo entre paciente e profissional. “É difícil achar um médico que te ouça e te veja como um ser humano, não só um caso que precisa ser consertado. [...] Hoje entendo que na saúde mental, ser ouvido não é um detalhe. Faz parte do cuidado.”
Alana, por sua vez, começou a enfrentar problemas relacionados à saúde mental ainda na adolescência, depois de comentários e comparações envolvendo seu corpo. Aos 22 anos, após problemas físicos relacionados à gastrite, foi encaminhada ao psiquiatra e recebeu diagnósticos de transtornos alimentares, depressão e transtorno bipolar.
“Eu sempre fui muito comparada com a minha prima, que é um mês mais nova que eu e sempre foi mais magra que eu. Eu chegava em casa e atacava tudo e depois vomitava, e isso virou rotina.”
Durante anos, ela escondeu o sofrimento. Em 2022, após perder o tio durante a pandemia e passar pelo fim de um relacionamento, entrou em uma depressão profunda. Depois de uma crise mais grave, iniciou acompanhamento com psiquiatra, psicóloga e nutricionista.
“Todo esse acompanhamento foi necessário para o meu bem-estar e recuperação.”
Pedir ajuda também é cuidado
Para Periotto, uma das principais mudanças necessárias é compreender que não é preciso chegar ao limite para procurar ajuda.
“Falar da própria intimidade, reconhecer dificuldades emocionais e pedir ajuda exige vulnerabilidade. Algumas pessoas ainda interpretam isso como sinal de fraqueza, quando, na verdade, é um ato de cuidado.”
O diagnóstico também não deve ser encarado como uma sentença. “O diagnóstico não transforma uma pessoa em sua doença. Também não significa necessariamente um quadro grave. A maioria dos pacientes atendidos apresenta transtornos comuns e com bom prognóstico.”
O tratamento pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico, atividade física, sono adequado, redução do estresse e, quando indicado, medicamentos. “O objetivo da medicação não é mudar a personalidade da pessoa, mas reduzir sintomas que estão causando sofrimento.”
Alana resume o aprendizado da própria trajetória: “Eu acho que o principal que aprendi é que o antidepressivo não é uma solução mágica e nem funciona sozinho. Hoje entendo que o medicamento não tira todos os problemas, mas pode dar condições para você conseguir lidar melhor com eles e continuar o processo de recuperação.”
Para ela, a recuperação é um processo. Uma das maiores conquistas foi conseguir se alimentar sem associar imediatamente a comida à necessidade de compensação. “Foi literalmente parar de vomitar após cada refeição. Isso foi libertador!”
O apoio da família também pode ser decisivo. Sabrina conta que, apesar da dificuldade inicial da mãe em compreender a situação, ela se tornou uma de suas principais fontes de apoio. “Foi difícil aceitar que sua filha única estava tão mal a ponto de precisar de ajuda. Minha mãe foi meu alicerce.”
Segundo Periotto, informação e acolhimento são fundamentais para combater o estigma. Dados do Covitel 2023 apontam que 12,7% da população brasileira convive com depressão e 26,8% relata ansiedade. Na rede pública, os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial do SUS e oferecem acolhimento e acompanhamento.
Para quem ainda sente medo ou vergonha, Sabrina deixa um recado: “Um transtorno é igual a qualquer doença, é como uma gripe que pode durar anos. [...] Você não sabe como é estar na vida do outro, pode ser um inferno. Seja mais gentil e compreensivo, nunca sabemos as cruzes que os outros carregam.”
Alana reforça: “Eu diria para não deixar o medo do medicamento ser maior do que a vontade de ficar bem. [...] O mais importante é não sofrer sozinho e não esperar chegar ao limite para procurar ajuda.”
E Periotto resume a importância de buscar apoio cedo: “Não espere o sofrimento aumentar para procurar ajuda. Quanto mais cedo iniciarmos o tratamento, maiores são as chances de aliviar os sintomas, recuperar a qualidade de vida e prevenir que o problema se torne crônico.”