Mondovino
A Última Ceia
Na Última Ceia, na sexta-feira santa, foi servido vinho e pão. Muitas pessoas me perguntam se isso é verdade e se foi realmente servido vinho ou suco de uva? Sim, foi servido vinho sim , mas qual vinho? De que uva? Devemos lembrar que, na época, Jerusalém era muito diferente da que conhecemos hoje, muito menos desértica e muito mais próxima de um jardim. Haviam plantações de uvas e oliveiras por toda a parte, a cidade de Jerusalém era cercada por um verdadeiro cinturão verde. Com pomares e produção de grãos. O cultivo de uvas era uma atividade extremamente lucrativa, o vinho de Jerusalém não era tão famoso quanto o da vizinha Canaã, por exemplo, mas era um bom vinho. Vendia-se por bons preços, inclusive fora do país as caravanas de comércio levavam os produtos, como vinhos, tâmaras secas, azeitonas, azeite etc., tudo era produzido na região.
Arqueólogos e historiadores já encontraram provas substanciais de vinificação nas regiões que Jesus teria percorrido. Para o arqueólogo Patrick McGovern, professor do Museu de Arqueologia da Universidade da Pensilvânia, o vinho servido na Última Ceia poderia ter sido muito semelhante ao Amarone de hoje, com base em evidências existentes sobre as práticas de vinificação na área naquele momento histórico.
O vinho servido talvez não fosse muito parecido com o vinho que conhecemos hoje, talvez mais próximo dos vinhos do novo mundo como Austrália e Nova Zelândia, Argentina e Chile, o vinho sempre esteve presente na vida de Jesus. Segundo a Bíblia, o primeiro milagre de Jesus foi transformar água em vinho num casamento que foi convidado em Canaã, famosa por seus vinhos de qualidade.
Protagonista em muitos trechos bíblicos, o vinho ainda é um forte símbolo do cristianismo. E se em um exercício os aspectos religiosos fossem colocados de lado, e uma análise focada na bebida crística, fosse feita. Quais seriam as preferências dos consumidores de vinhos na época em que Jesus viveu?
A literatura sobrevivente diz que os vinhos locais da antiga Jerusalém e Judá foram descritos como escuros e ricos. McGovern relata ainda que o vinho das terras altas da Transjordânia central era notoriamente tão forte que “induzia o corpo a pecar".
De acordo com o pesquisador, apenas os melhores vinhos eram envelhecidos e bebidos puros. A maioria era misturada com água ou mesclada com uma gama de especiarias e ervas, como pimenta, absinto, alcaparras e açafrão, o que sugere uma semelhança com os contemporâneos coquetéis à base de vinho e as versões de mulled wine, ou vinho quente, por aqui.
No Evangelho de Marcos, um vinho de mirra é oferecido a Jesus depois que os soldados o vestiram e ele se recusa. A mirra e outras resinas de árvores exóticas provavelmente teriam sido adicionadas aos vinhos do período.
Segundo o pesquisador, a ideia não era apenas encobrir os sinais de um vinho em deterioração, embora isso fosse um incentivo adicional, mas, sim, manter os vinhos por mais tempo e produzir novos e excitantes gostos para os paladares cansados.
Outros pesquisadores também estão analisando as características dos vinhos apreciados há 2.000 anos. Guy Bar-Oz, do Instituto Zinman de Arqueologia da Universidade de Haifa de Israel, escolheu uma abordagem mais técnica para a análise, e está investigando o DNA de restos de sementes de uva para aprender mais sobre técnicas de vinificação no período.
A hipótese inicial sobre vinhos antigos da região do Negev, no sul de Israel, é que eles podem ter sido bastante poderosos; uma vez que uma característica da região é grande insolação e salinidade do solo.
A fotossíntese elevada e a pressão osmótica devido à salinidade do solo produzem uvas doces com grandes quantidades de açúcar. Então, talvez a qualidade do vinho do Negev tenha sido obtida por seu maior teor de álcool. É o que explica Bar-Oz, alertando que ainda é apenas uma especulação; uma vez que a pesquisa ainda está em andamento.
Bons vinhos a todos!
“Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com bom coração o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras.” (ECLESIASTES 9:7)