Cultura
"NY Times" classifica retirada de "Aquarius" do Oscar como decisão política
Correspondente do jornal norte-americano afirmou que filme dialoga com escândalos no país
Uma matéria do New York Times assinada pelo correspondente do jornal no Brasil, Simon Romero, afirmou em reportagem publicada nesta terça-feira (27) que forças políticas influenciaram na decisão do comitê brasileiro de deixar o longa-metragem vencedor de prêmios "Aquarius" fora da disputa pelo Oscar deste ano.
O filme, que ganhou prêmios em festivais internacionais renomados e foi o único filme latino-americano a disputar um prêmio no Festival de Cannes, tem causado polêmica e dividiu opiniões entre brasileiros após o elenco do longa-metragem dirigido pelo diretor Kleber Mendonça Júnior realizar um protesto no Festival de Cannes, em maio deste ano. Os atores seguraram placas onde denunciavam o chamado de "golpe" do atual governo de Temer pela tomada do poder do país através do impeachment da ex-presidenta afastada Dilma Rousseff. À época, o atual ministro da Cultura, Marcelo Calero, fez duras críticas ao ato, afirmando que a manifestação "causou prejuízos à reputação e à imagem do Brasil".

Elenco de "Aquarius" no Festival de Cannes, em maio deste ano (Reprodução)
A reportagem também ressalta o fato de quem desde o protesto, o filme enfrentou problemas junto ao governo, quando o Ministério da Justiça classificou o longa-metragem como indicado para maiores de 18 anos. Após o ministério ser acusado de retaliação do governo pelo protesto através da medida, já que outros filmes brasileiros com cenas de nudez e uso de drogas haviam recebido classificação mais flexível, as autoridades voltaram atrás e apontaram uma classificação de 16 anos para o longa metragem.
Neste mês, o comitê brasileiro anunciou que o filme que irá representar o país no mais renomado festival de cinema do mundo, o Oscar, será o "Pequeno Segredo", causando alvoroço entre a classe artística do país. O crítico de cinema do Folha de São Paulo, Alcino Leite Neto, por exemplo, classificou a escolha como "um dos piores filmes do cinema brasileiro em anos" e "oceano de clichês e sentimentalismo". Em entrevista à revista Veja, o diretor de "Aquarius" Kléber Mendonça Junior viu a decisão do Ministério da Cultura como previsível. “É bem possível que a decisão da comissão esteja em total sintonia com a realidade política do Brasil, ou seja, é coerente e já esperada", afirmou. Dois diretores brasileiros, Anna Muleart e Gabriel Mascaro, retiraram seus filmes da seleção como gesto de apoio a Kleber Mendonça.
Romero ainda afirma que "De repente, "Aquarius" se transformou em um catalisador de indignação em um país desgastado pela crise e atormentado por escândalos de corrupção". O repórter também retratou a divisão entre apoiadores do filme, que são muitas vezes classificados de "petralhas" por membros de setores conservadores, e figuras que defendem a decisão do Ministério da Cultura.
Sobre o conteúdo do filme, o jornalista afirma que "Aquarius, enquanto lida com a tensão [racial e de classe] do país, vai além ao explorar o modelo de desenvolvimento urbano predominante nas grandes cidades do Brasil, modelo que destrói tesouros arquitetônicos e ergue prédios medíocres que contribuem com o congestionamento no trânsito e com o isolamento da classe média atrás de grades".
"O filme encaixa com a raiva latente no Brasil pelas grandes construturas, centros de escândalos de corrupção envolvendo o "establishment" político do país", afirma em outro trecho. Apesar das críticas da imprensa à decisão, o diretor que presidiu o comitê do Oscar, Bruno Barreto, afirmou que a banca não sofreu pressão do governo de Michel Temer para decidir contra o filme na seleção.
Apesar da escolha, ainda há esperança para ver o filme na disputa. A empresa responsável pela distribuição do filme nos Estados Unidos, a Vitagraph Filmes, irá lançar uma campanha para tentar uma indicação de melhor atriz a para a protagonista Sonia Braga. "Aquarius" chega aos cinemas dos EUA em 14 de outubro, após estrear no Festival de Cinema de Nova York, que começa no próximo dia 30.