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Setembro Amarelo: Não é dada devida atenção a saúde emocional dos jovens, diz psicólogo
Para encerrar o Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio, o JD1 Notícias entrevistou o psicólogo Júlio Furlaneto sobre o aumento dos números de suicídios de jovens no Brasil.
De acordo com dados do primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio divulgado pelo Ministério da Saúde, o suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil. Mato Grosso do Sul é vice-líder no ranking nacional de suicídios entre jovens, com idades entre 15 e 29 anos. De cada dez pessoas que cometeram suicídio no Estado, quatro são jovens.
Para Furlaneto, o assunto tem ganhado evidencia, mas o suicídio sempre existiu. “O número de suicídios tem aumentado, pois não está sendo dada a devida atenção para a importância da saúde emocional desses jovens”. Confira a entrevista completa.
JD1 - Por que o número de suicídio entre jovens está aumentando?
Julio - Os jovens de hoje são bombardeados pelos mais diversos estímulos, cobrados por estereótipos a agir de determinada maneira, e muitos, principalmente aqueles que não se encaixam no padrão da maior parte do grupo são questionados, criticados, excluídos ou até mesmo sofrem alguma forma de bullying. O suicídio, seja ele no jovem ou qualquer faixa etária, está normalmente ligado a depressão. O número de suicídios tem aumentado, pois não está sendo dado a devida atenção para a importância da saúde emocional desses jovens. Como se adaptar a um universo repleto de informações e cobranças que às vezes não fazem sentido algum para aquele momento de vida da pessoa?
JD1 - O acesso a tecnologia e equipamentos eletrônicos interferem no crescimento desta taxa?
Julio - A tecnologia potencializa tudo. Facilita a propagação da informação. Então, ao mesmo tempo que você pode ter acesso a um livro raro e ótimos conteúdos pelo celular, também pode destruir a vida de uma pessoa publicando uma foto íntima e acabando com a sua vida social. Pode ser uma ferramenta usada para o bem e o crescimento, como é quando utilizada para debates e divulgação de boa informação, ou pode sim interferir negativamente potencializando o problema quando usada de forma irresponsável e muitas vezes criminosa.
JD1 - Especialistas ainda apontam uma superproteção dos pais na criação dos filhos. A mudança na educação interfere no aumento do índice de depressão, tentativa e suicídio de jovens?
Julio - Sim. Os filhos devem ser preparados ao máximo para lidar com o mundo, e não a evitá-lo. Não é preciso tratar com nenhum tipo de grosseria ou desrespeito, pelo contrário, um tratamento amoroso e benevolente é essencial para qualquer vínculo que se preze. Porém, é necessário ser claro, pontual e firme nas orientações que forem necessárias e também nas intervenções para que garanta não só a proteção de um filho, mas como potencialize sua capacidade de desenvolvimento e adaptação no contexto social. O filho tem que ser criado para o mundo, caso contrário encontrará muitas dificuldades a diante. É melhor um desconforto que o ajude a compreender e passar por uma dificuldade do que apenas a proteção, tirando a oportunidade desse jovem aprender com o que está acontecendo. É preciso por parte dos pais estarem participativos, ativos, acolhedores e interessando, e principalmente, muito bem informados. Exemplo: se um pai acha que depressão é frescura como poderá ajudar um filho que corre o risco de se suicidar? Para refletir.
JD1 - Quais as principais causas que podem levar um jovem ao suicídio?
Julio - Os fatores mais comuns observados no histórico de pessoas que vieram a cometer suicídio são: uso de drogas e álcool; depressão; problemas amorosos; problemas familiares; traumas (exemplo: bullying na escola; exclusão social; foto íntima exposta publicamente de forma indevida e invasiva e etc.).
JD1 - Jovens que pensam em suicídio dão sinais do que estão passando? Quais?
Julio - Em senso comum é normal associar sinais de depressão a sintomas de tristeza, mas nem sempre isso ocorre. Além da tristeza podem haver sinais como irritabilidade, cansaço, sintomas físicos (como dor no peito, falta de ar), alterações no peso, sono excessivo ou pouco sono, alterações no desempenho escolar/universitário; mudanças repentinas e negativas no convívio social, baixa produtividade no trabalho e outros. É preciso considerar qualquer fator que esteja prejudicando a qualidade de vida do jovem como algo a ser observado.
JD1 - Como prevenir o suicídio de jovens?
Julio - Em um contexto familiar é preciso que os pais criem um via de comunicação com respeito e realmente íntima com o jovem. É preciso se livrar de qualquer forma de preconceito para que ele realmente crie um vínculo, se sinta seguro e a vontade em casa para abordar questões simples do dia a dia. Para instituições como a escola, é preciso observar qualquer comportamento incomum que esteja prejudicando o rendimento do jovem, buscando apoio e parceira em atitude multidisciplinar com a família e profissionais das diversas áreas da saúde. Para todos é preciso ter interesse por essa questão grave que é o suicídio. Buscar compreender o que realmente é e como ocorre. Tratar o assunto com seriedade e respeito. Falar sobre isso com as pessoas próximas para que também se tornem atentas ao problema. Isso fortalece a diminuição do preconceito em expor as emoções, facilitando a intervenção e solução do problema.