Opinião
OPINIÃO - Agosto Lilás: quando uma mulher volta a aprender, ela volta a sonhar
Há mulheres que guardam um caderno interrompido dentro de si. Mulheres que deixaram a escola não porque lhes faltassem vontade ou capacidade, mas porque a vida exigiu delas, cedo demais, responsabilidades que não podiam esperar.
Algumas precisaram trabalhar ainda meninas. Outras se tornaram mães e colocaram os sonhos dos filhos à frente dos próprios. Muitas cuidaram da casa, dos pais, dos companheiros e de toda a família. Há também aquelas que tiveram seus caminhos interrompidos pelo medo, pela dependência financeira e pela violência dentro do lugar onde deveriam se sentir protegidas.
O tempo passou, mas o desejo de aprender permaneceu.
Essas trajetórias ganharam voz no livro Do Silenciamento ao Lugar de Fala, produzido pelas estudantes do EJA Mulher, programa da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul. A obra nasceu de um trabalho pedagógico que reuniu leitura, produção textual, rodas de conversa, escuta e acolhimento. Em suas páginas, as alunas transformaram experiências de trabalho precoce, responsabilidades familiares, estudos interrompidos, dificuldades e superação em relatos de força e esperança.
Mais do que uma produção escolar, o livro representa uma conquista simbólica. Mulheres que durante muito tempo tiveram suas histórias silenciadas passaram a ocupar o lugar de autoras da própria narrativa. Ao escrever, elas reconheceram o valor de suas experiências e descobriram que suas palavras também podem ensinar, inspirar e abrir caminhos para outras mulheres.
Uma das participantes resume esse sentimento: “Quando escrevemos nossa própria história, percebemos a força que temos e o quanto a escola pode nos ajudar a seguir em frente”.
Essa frase contém a essência do que a educação pode representar na vida de uma mulher vulnerável. Ao escrever a própria história, ela deixa de ser apenas alguém sobre quem os outros falam. Passa a reconhecer sua voz, sua força e seu direito de decidir os próximos capítulos.
Neste Agosto Lilás, quando somos chamados a refletir sobre o enfrentamento à violência contra a mulher, precisamos compreender que proteção não se resume ao momento da denúncia. Proteger é acolher, garantir direitos e oferecer caminhos para que cada mulher possa reconstruir sua vida com segurança, dignidade e autonomia. E poucos caminhos são tão transformadores quanto a educação.
Retornar à escola depois de muitos anos exige coragem. É preciso vencer a vergonha de não ter concluído os estudos, o medo de não conseguir acompanhar as aulas e a insegurança de sentar novamente diante de um caderno. Depois de um longo dia de trabalho, ainda é necessário enfrentar o cansaço e encontrar alguém que possa cuidar dos filhos.
Por trás de cada mulher que retorna à Educação de Jovens e Adultos existe uma história de resistência. Cada matrícula representa alguém dizendo a si mesma: “Ainda há tempo para mim”.
A EJA, nesse contexto, não pode ser vista apenas como uma modalidade para concluir etapas escolares. Para muitas mulheres em situação de vulnerabilidade, ela significa recuperar a própria voz, voltar a acreditar em suas capacidades e enxergar possibilidades que pareciam definitivamente perdidas.
Anísio Teixeira nos ensinou que a educação é um direito, e não um privilégio. Quando uma mulher teve esse direito interrompido pela pobreza, pela maternidade precoce, pelo trabalho ou pela violência, garantir seu retorno à escola é também reparar uma injustiça histórica.
A educadora Bell Hooks compreendia a educação como prática da liberdade e defendia ambientes em que cada pessoa pudesse falar, ser ouvida e aprender a partir de suas experiências. Essa visão encontra sentido profundo na trajetória das mulheres que retornam à escola trazendo marcas, responsabilidades, saberes e sonhos.
Miguel Arroyo também nos lembra que os estudantes da EJA não chegam vazios à sala de aula. Eles trazem experiências de trabalho, de família, de luta e de sobrevivência. No caso dessas mulheres, cada história carrega conhecimentos construídos na vida e uma coragem que nenhum certificado consegue medir.
Por isso, uma política pública destinada a elas precisa oferecer mais do que uma vaga. Precisa acolher sua realidade.
Um dos maiores obstáculos para que uma mãe volte a estudar é não ter com quem deixar os filhos no período noturno. Muitas vezes, o desejo existe, a matrícula está disponível e a escola fica perto de casa, mas não há uma rede de apoio. Diante dessa escolha, quase sempre é a mãe quem renuncia, mais uma vez, a si mesma.
É nesse ponto que a sala de acolhimento se torna tão importante.
Enquanto as mães estudam, seus filhos permanecem na escola em um espaço seguro, acompanhados por profissional responsável e envolvidos em jogos, leituras, musicalização e brincadeiras. Em uma sala, a mãe aprende a escrever uma nova parte de sua história. Na outra, seu filho brinca e descobre o mundo. Os dois estão protegidos. Os dois estão aprendendo. Os dois estão construindo um futuro diferente.
A sala de acolhimento não é um detalhe nem um benefício complementar. Ela é a ponte que permite a muitas mulheres atravessarem a porta da escola. É a demonstração de que a política pública compreendeu uma verdade fundamental: a maternidade não pode continuar sendo uma condenação ao abandono dos estudos.
O EJA Mulher nasceu justamente dessa compreensão. A iniciativa da Secretaria de Estado de Educação oferece a mulheres jovens, adultas e idosas um ambiente preparado para acolher suas trajetórias, respeitar seus saberes e permitir que retomem a educação básica. A sala de acolhimento e a possibilidade de qualificação profissional tornam concreta uma oportunidade que, por muito tempo, existiu apenas como desejo.
Mas a questão é maior do que um programa. Trata-se de reconhecer que políticas públicas só transformam vidas quando enxergam as pessoas por inteiro. Não basta abrir a porta da escola. É preciso remover os obstáculos que impedem tantas mulheres de entrar e permanecer nela.
O enfrentamento à violência exige segurança, justiça, saúde, assistência social e uma rede de proteção capaz de agir rapidamente. Mas também exige oportunidades. Uma mulher que recupera sua escolaridade fortalece a autoestima, amplia suas possibilidades profissionais, reduz a dependência econômica e conquista mais instrumentos para decidir sobre a própria vida.
A educação, sozinha, não apaga as marcas da violência. Mas pode ajudar uma mulher a perceber que sua história não termina naquilo que sofreu.
Neste Agosto Lilás, precisamos reafirmar que proteger uma mulher também é devolver-lhe o direito de sonhar. Cada mulher que retorna à escola recupera mais do que os anos de estudo que ficaram para trás. Recupera confiança, esperança e a certeza de que ainda pode escolher novos caminhos.
E, quando uma mulher volta a aprender, seus filhos aprendem com ela que nenhum sonho precisa ser abandonado para sempre.
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Secretário de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul, professor Helio Daher
Especialista em Gestão Escolar
Mestre em Educação