GAECO
Esquema na Santa Casa usava saques de R$ 49.999 para driblar monitoramento do Coaf
Operação Antidotum expôs manobras financeiras, contratos investigados e conversas entre integrantes do grupo
A Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), revelou detalhes de uma organização criminosa que se instalou na cúpula da Santa Casa de Campo Grande e na operadora Santa Casa Saúde. Sob a liderança da então presidente Alir Terra Lima, o grupo é acusado de desviar milhões de reais e utilizar manobras financeiras para evitar o radar das autoridades federais.
A Estratégia do "Limite Seguro"
De acordo com o GECOC e o GAECO, o grupo adotou um padrão sistemático de saques e transferências no valor de R$ 49.999,00. A quantia, precisamente um real abaixo do limite de R$ 50 mil, tinha como objetivo burlar os mecanismos de monitoramento do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
A regulamentação bancária exige que qualquer movimentação em espécie igual ou superior a R$ 50 mil seja automaticamente comunicada ao órgão de controle. Ao fracionar os valores dessa forma, os investigados buscavam dificultar o rastreamento do dinheiro público, que era retirado das contas das empresas contratadas logo após o recebimento dos repasses da Santa Casa.
O "Sangramento" de R$ 9,6 Milhões
A investigação aponta que a operadora Santa Casa Saúde foi usada para favorecer o advogado Paulo da Cruz Duarte, sócio da presidente Alir em um escritório de advocacia. O Conselho Fiscal da instituição utilizou o termo "sangramento" para descrever como as empresas de Duarte receberam R$ 9.617.738,49 apenas no exercício de 2025.
Enquanto o grupo "sangrava" o caixa da operadora, a entidade registrou um resultado negativo de mais de R$ 3,5 milhões no mesmo período. As empresas contratadas para serviços complexos, como telemedicina e consultoria, muitas vezes não possuíam sequer um funcionário registrado.
"A Caneta está com a Gente"
A arrogância dos envolvidos foi registrada em interceptações telemáticas. Em um áudio, o então vice-presidente Jary de Carvalho Castro, ao ser questionado sobre resistências técnicas internas a um novo sistema que o grupo queria implantar, tranquilizou o empresário Maurício Benites, "Beleza. Ela pode até estar com eles, mas nós não estamos, né? E a caneta está com a gente. Então, fica tranquilo".
O empresário em questão, Maurício Aparecido Benites, controlava o núcleo da empresa Redvalue, contratada para digitalização de documentos. O hospital pagou cerca de R$ 750 mil por serviços que, segundo a perícia, tiveram uma execução física de apenas R$ 88 mil, gerando um prejuízo de mais de R$ 660 mil apenas nessa frente.
Ostentação e Dinheiro Vivo
A evolução patrimonial dos líderes acompanhou o ritmo das fraudes. Em janeiro de 2025, no auge do esquema, Alir Terra Lima adquiriu um prédio residencial na Rua João Pessoa por R$ 400.000,00, pagos integralmente em espécie (dinheiro vivo) no ato da compra. Já o sócio, Paulo Duarte, adquiriu apartamentos de luxo nos edifícios Pernambuco e Tom Jobim no mesmo período.
Prisões e Medidas Judiciais
Diante das provas de peculato, lavagem de capitais e organização criminosa, a Justiça decretou a prisão preventiva de seis pessoas:
- - Alir Terra Lima (Presidente e elo central).
- - Rinaldo Hakme Romano (Diretor Administrativo e Financeiro).
- - Alessandro Dias Junqueira (Gerente Administrativo).
- - Paulo Guilherme Gutierres Mariosa (Diretor Financeiro Adjunto).
- - Monique Gregório de Oliveira (Supervisora do SAME).
- - Maurício Aparecido Benites (Empresário).
O advogado Paulo da Cruz Duarte e a administradora Beatriz Lemes da Silva foram afastados de suas funções e proibidos de acessar as dependências do hospital e da operadora para garantir a integridade da instrução criminal.
Outro lado
O JD1 Notícias procurou a defesa de Alir Terra Lima para um posicionamento sobre os apontamentos feitos pelo Gaeco contra ela. Em nota, o advogado afirmou que Alir nega todas as acusações. Segundo a defesa, está sendo preparado um habeas corpus com os devidos esclarecimentos e pedido de revogação da prisão preventiva.
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