Alir Terra Lima, presa pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), na última sexta-feira (11), é apontada pela investigação como líder e elo central de uma organização criminosa instalada na Santa Casa de Campo Grande e na operadora Santa Casa Saúde.

Segundo as informações apresentadas pelo Gaeco, Alir assumiu a Diretoria-Presidência da instituição em fevereiro de 2023 e, desde então, exercia o comando institucional e o controle sobre a operadora Santa Casa Saúde.

Entre as principais acusações apontadas contra ela está a contratação da empresa Redvalue para a digitalização de documentos. Conforme a investigação, Alir teria promovido e sustentado a contratação sem estudo técnico, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem econômica.

Ainda segundo o material, mesmo após ter sido formalmente alertada pelo Conselho Fiscal sobre irregularidades e pagamentos indevidos, Alir manteve o contrato vigente. A investigação também aponta que ela teria prestado informações falsas ao Ministério Público ao declarar que os serviços eram executados com diligência, enquanto as provas indicariam o contrário.

Outro ponto investigado envolve a contratação de empresas pertencentes a Paulo da Cruz Duarte, apontado como sócio e parceiro de Alir em um escritório de advocacia.

De acordo com o Gaeco, Alir teria inserido na Operadora Santa Casa Saúde diversas empresas pertencentes a Duarte. Algumas delas, conforme a investigação, não possuíam funcionários ou estrutura e receberam mais de R$ 9,6 milhões em 2025, período em que a operadora acumulava prejuízo milionário.

A investigação também aponta uma suposta ocultação sistemática de documentos. Alir teria adotado uma conduta reiterada para impedir o acesso do Conselho Fiscal, da Controladoria-Geral do Estado e do Poder Judiciário a documentos relacionados aos pagamentos investigados.

Segundo o material, ela chegou a descumprir ordens judiciais para apresentação de contas, situação que teria causado “espanto” ao magistrado responsável pelo caso.

Imóveis, dinheiro em espécie e depósitos

A investigação também identificou evolução patrimonial considerada suspeita durante o período das contratações investigadas.

Conforme o material, Alir adquiriu imóveis de luxo. Um deles, localizado na Rua João Pessoa, teria custado R$ 400 mil e sido pago integralmente em espécie, em dinheiro vivo, no momento da compra.

A apuração também identificou que Alir teria recebido mais de R$ 200 mil diretamente de Paulo Duarte, além de inúmeros depósitos sem origem identificada e que não teriam sido declarados no Imposto de Renda.

Alteração de endereços

Ainda segundo a investigação, após tomar conhecimento de uma ação judicial que expunha o vínculo entre empresas de Paulo Duarte e um imóvel de propriedade de Alir, onde funcionava o escritório de ambos, ela e outros envolvidos teriam iniciado uma alteração coordenada de endereços nos registros públicos.

A medida, conforme o material, teria como objetivo apagar os rastros da ligação entre os envolvidos.

Pessoas de confiança em cargos estratégicos

O Gaeco também aponta que Alir teria nomeado pessoas de sua estrita confiança para cargos considerados estratégicos dentro da Santa Casa e da operadora.

Entre os nomes citados estão Beatriz Silva, Rinaldo Romano e Alessandro Junqueira. Conforme a investigação, as nomeações teriam como finalidade garantir o controle sobre contratações, pagamentos e ocultação de provas.

Diante das evidências apontadas de peculato, lavagem de capitais e organização criminosa, a Justiça decretou a prisão preventiva de Alir Terra Lima, cumprida pela polícia na sexta-feira (11), durante a Operação Antidotum, deflagrada pelo Gaeco/MPMS.

Para o Gaeco, os elementos reunidos apontam para uma organização criminosa estruturada, com comando definido, divisão de tarefas, estabilidade e finalidade econômica.

Ainda segundo o órgão, os fatos demonstrariam a prática coordenada de fraudes contratuais, peculato e falsidade documental, além de outras infrações que possam ser comprovadas a partir da análise completa de documentos, dispositivos eletrônicos e movimentações financeiras.

Outros cinco investigados são presos e dois são afastados

Além de Alir Terra Lima, a Justiça decretou a prisão preventiva de outros cinco investigados e determinou o afastamento de funções de outras duas pessoas no âmbito da Operação Antidotum.

As prisões preventivas foram decretadas e cumpridas em 11 de setembro de 2026 contra Rinaldo Hakme Romano, diretor Administrativo e Financeiro da Santa Casa, apontado como gestor do contrato sob investigação; Alessandro Dias Junqueira, gerente Administrativo e fiscal do contrato, acusado de atestar serviços sem comprovação de execução; Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, diretor Financeiro Adjunto e presidente do Comitê de Contratos, envolvido na formalização e programação de pagamentos suspeitos; Monique Gregório de Oliveira, supervisora do SAME (Serviço de Arquivo Médico e Estatística), responsável por atestar notas fiscais mesmo ciente da inexecução dos serviços; e Maurício Aparecido Benites, empresário e controlador material do núcleo empresarial formado por Redvalue, Exbe e Infortech, utilizado para simular concorrência e receber valores desviados, conforme o material.

O pedido de prisão contra Jary de Carvalho Castro, ex-vice-presidente, foi indeferido pela juíza. Segundo a decisão, ele já havia se desvinculado da administração da Santa Casa meses antes da operação.

Também foram determinadas medidas cautelares contra duas pessoas. Paulo da Cruz Duarte, advogado e sócio de Alir Terra Lima, cujas empresas receberam milhões da operadora de saúde em contratos suspeitos, e Beatriz Lemes da Silva, administradora e diretora executiva da Operadora Santa Casa Saúde, acusada de ocultar documentos e viabilizar pagamentos às empresas de Paulo Duarte, foram afastados cautelarmente de suas funções.

A Justiça também determinou a proibição de acesso de ambos às dependências da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde. As medidas têm como objetivo preservar a instrução criminal e evitar que os investigados continuem tendo acesso a documentos e estruturas administrativas que são objeto central das apurações.

Outro lado

O JD1 Notícias tenta contato com a defesa de Alir Terra Lima para um posicionamento sobre os apontamentos feitos pelo Gaeco contra ela. O espaço segue aberto para manifestação.

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