A Câmara dos Deputados do Paraguai rejeitou, nesta quinta-feira (5), o pedido de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana, que deve assumir o comando do país após a renúncia de Santiago Peña. A mudança ocorre em meio à crise política e financeira envolvendo o banco digital Ueno, cuja quebra provocou o bloqueio de contas de milhares de clientes e ampliou a pressão sobre o governo.

Na mesma sessão, os deputados aprovaram, por unanimidade, com 78 votos, o pedido de impeachment contra Peña, encaminhando o processo ao Senado. A iniciativa tinha apoio tanto da oposição quanto de integrantes da própria base governista. Já o pedido contra Alliana foi rejeitado por 48 votos a 30.

Peña deixou o cargo após ser acusado de conivência com a crise da instituição financeira, da qual era acionista. A renúncia, anunciada nesta quinta-feira, ainda depende de aceitação formal do Congresso Nacional para produzir seus efeitos.

A eventual chegada de Alliana à Presidência coloca no comando do Executivo um dos principais nomes do Partido Colorado, legenda que domina a política paraguaia e mantém influência sobre a atual estrutura de poder.

Trajetória política

Aos 52 anos, Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez nasceu em 19 de fevereiro de 1974, na cidade de Pilar, departamento de Ñeembucú, no sul do Paraguai. Sua trajetória política ganhou projeção em 2008, quando foi eleito governador da região, cargo que ocupou até 2012.

Em 2013, chegou à Câmara dos Deputados, onde permaneceu por dez anos. Durante esse período, presidiu a Casa e também comandou o Partido Colorado, entre 2016 e 2023, consolidando sua influência dentro da legenda.

Antes de ingressar na política, Alliana teve uma trajetória ligada ao esporte. Na adolescência, praticou basquete, disputou competições nacionais e chegou a integrar a seleção paraguaia da modalidade em 1991, aos 17 anos.

O político também teve passagem pelo Partido Encuentro Nacional antes de se consolidar no Partido Colorado. Posteriormente, aproximou-se do grupo ligado ao ex-presidente Horacio Cartes, uma das principais lideranças da legenda e figura de influência no atual governo.

Alliana chegou à Vice-Presidência em agosto de 2023, como companheiro de chapa de Santiago Peña. Os dois venceram as eleições daquele ano e assumiram o governo em 15 de agosto.

Crise diplomática com o Brasil

O vice-presidente também ganhou projeção nas relações diplomáticas com o Brasil. Em julho de 2026, representou o governo paraguaio em uma crise provocada por declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai.

Na ocasião, ao defender investimentos nas Forças Armadas brasileiras, Lula mencionou a invasão de Corumbá pelas tropas paraguaias durante o conflito. A declaração provocou reação em Assunção, que convocou o embaixador brasileiro e entregou uma nota de repúdio.

Alliana afirmou que a distorção dos acontecimentos históricos não contribuía para a construção de um futuro comum entre os dois países. Apesar da manifestação, disse que o representante diplomático havia esclarecido que Lula não tinha intenção de ofender o Paraguai e que o governo não pretendia ampliar o desentendimento.

Em abril de 2026, o vice-presidente confirmou sua pré-candidatura à Presidência nas eleições de 2028, com apoio de Horacio Cartes e do próprio Peña. A eventual chegada ao comando do Executivo poderá, portanto, antecipar sua experiência como chefe de Estado antes da disputa eleitoral.

Como funciona a sucessão

A Constituição paraguaia estabelece que, em caso de vacância definitiva da Presidência, o vice-presidente assume o comando do Executivo e permanece no cargo até o encerramento do período constitucional.

No caso de Peña, a renúncia precisa ser submetida à apreciação do Congresso Nacional, responsável por aceitar ou rejeitar o pedido. Se aprovada, Alliana assumirá a Presidência sem necessidade de convocação de novas eleições.

Com a transferência do vice-presidente para o comando do Executivo, a Vice-Presidência ficará vaga. O artigo 234 da Constituição estabelece regras específicas para o preenchimento do posto, conforme o período do mandato em que ocorre a vacância.

Quando a vaga acontece nos três primeiros anos do governo, deve ser convocada uma eleição para escolher o substituto. Nos dois últimos anos, como ocorre na atual situação, a escolha cabe ao Congresso Nacional, por maioria absoluta de seus integrantes.

Considerando a composição de 125 parlamentares, sendo 45 senadores e 80 deputados, são necessários pelo menos 63 votos para a escolha do novo vice-presidente. O substituto permanecerá no cargo até o término do atual mandato, em 15 de agosto de 2028.

O Paraguai já enfrentou situações semelhantes. Em 2012, após a destituição de Fernando Lugo por meio de um processo de impeachment, o então vice-presidente Federico Franco assumiu a Presidência. Na ocasião, o Congresso escolheu Óscar Denis Sánchez para ocupar a Vice-Presidência até o encerramento do mandato.

Em 2018, após a renúncia do vice-presidente Juan Afara, o Legislativo também participou da sucessão e designou Alicia Pucheta para completar o período.