Saúde
Saneamento básico protege a saúde e reduz riscos para pessoas com doenças autoimunes
O acesso à água tratada, à coleta de esgoto e à destinação adequada dos resíduos é fundamental para prevenir doenças como diarreia, verminoses e outras infecções. Os benefícios, entretanto, vão além do combate às enfermidades infecciosas. Uma infraestrutura sanitária eficiente também representa uma proteção adicional para pessoas que convivem com doenças crônicas e alterações no funcionamento do sistema imunológico.
Em Campo Grande, essa relação ganha dimensão humana na experiência de moradores que precisam conciliar o acompanhamento médico com os cuidados cotidianos para preservar a saúde.
Uma rotina de cuidados que exige atenção
Aos 60 anos, a funcionária pública Marilucia Araujo de Oliveira convive há mais de três décadas com o hipotireoidismo. O diagnóstico foi feito em 1994, após o nascimento da filha, quando episódios de tremores pelo corpo a levaram a procurar atendimento médico. Inicialmente, ela acreditava que os sintomas fossem consequência do desgaste físico provocado pela amamentação.
Após uma consulta e a realização de exames, recebeu o diagnóstico e foi encaminhada ao endocrinologista. Desde então, iniciou o tratamento medicamentoso e passou a realizar acompanhamento regular.
"Descobri o hipotireoidismo em 1994, após o nascimento da minha filha, porque o corpo tremia muito. Em consulta com ginecologista, perguntei se poderia receitar alguma vitamina, pois achei que era fraqueza devido à amamentação. Ele pediu exames, nos quais tive o diagnóstico, e então me encaminhou para o endocrinologista. Desde então, a única mudança foi ter iniciado a medicação para estimular o funcionamento da tireoide. Por ter descoberto muito cedo, o tratamento ajudou a não ter sintomas mais incômodos ou prejuízos à saúde", conta.
Além do hipotireoidismo, Marilucia realiza tratamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para hipertensão e hérnia de disco. A convivência com condições crônicas ampliou sua percepção sobre a importância da prevenção e dos cuidados permanentes.
Moradora do Jardim Noroeste, na região leste da Capital, há 24 anos, ela considera que o acesso à água de qualidade, a ambientes limpos e à infraestrutura sanitária adequada integra as medidas necessárias para evitar outros problemas de saúde.
"Contribui muito o acesso, porque é algo que interfere diretamente no nosso organismo e, junto com outros comportamentos, evita doenças e outros problemas", avalia.
Para ela, infecções podem representar uma preocupação adicional para quem já enfrenta alterações no organismo. "Muitas infecções podem ser gatilho para que algo no organismo pare de funcionar corretamente e, às vezes, pode ser difícil de reverter", afirma.
Na região onde mora, a ausência de rede coletora de esgoto em sua residência faz com que os moradores dependam de soluções individuais para o descarte dos resíduos. Marilucia relata situações que exigem atenção, especialmente durante períodos de chuva, quando algumas fossas podem apresentar vazamentos. Ela também destaca a necessidade de conscientização sobre o descarte adequado de resíduos.
Embora a condição de Marilucia não estabeleça uma relação de causa e efeito entre a ausência de saneamento e o desenvolvimento do hipotireoidismo, o caso ilustra como o cuidado com a saúde envolve não apenas medicamentos e acompanhamento médico, mas também condições ambientais adequadas.
O que são doenças autoimunes?
As doenças autoimunes surgem quando o sistema imunológico perde a capacidade de distinguir corretamente as estruturas do próprio organismo dos agentes considerados ameaçadores. Em vez de proteger o corpo, as células de defesa passam a atacar tecidos e órgãos, provocando inflamações e comprometendo seu funcionamento.
O endocrinologista Nelson Passaria, professor do curso de pós-graduação em endocrinologia da Afya Campo Grande, explica que essas condições podem atingir diferentes partes do organismo.
"São condições em que o sistema imunológico, nosso sistema de defesa e que normalmente protege nosso organismo contra vírus, bactérias e outros agentes infecciosos, passa a reconhecer equivocadamente estruturas do próprio corpo como se fossem uma ameaça. Isso provoca uma resposta imunológica que pode gerar inflamação e comprometer o funcionamento de diferentes órgãos e tecidos", esclarece.
Entre as doenças mais conhecidas estão a tireoidite de Hashimoto, a doença de Graves, a artrite reumatoide, o lúpus, a psoríase e o diabetes mellitus tipo 1. Na endocrinologia, a tireoidite de Hashimoto merece atenção porque provoca uma reação imunológica contra a tireoide e pode levar ao hipotireoidismo. É importante, entretanto, diferenciar o hipotireoidismo de sua possível origem autoimune. Nem todo caso é provocado por uma doença autoimune.
A dimensão dessas patologias também aparece nos dados epidemiológicos. Uma pesquisa publicada em novembro de 2025 na revista científica BMJ Open, baseada em registros dos sistemas público e privado de saúde entre 2018 e 2022, analisou quatro doenças inflamatórias reumáticas imunomediadas: artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, artrite psoriásica e espondilite anquilosante.
Somente no SUS, o levantamento identificou, em 2022, 288.391 registros de pacientes com artrite reumatoide, 82.011 com lúpus, 49.837 com espondilite anquilosante e 36.748 com artrite psoriásica. Os números se referem exclusivamente às quatro enfermidades pesquisadas e não representam o total de brasileiros com doenças autoimunes.
No Centro-Oeste, a prevalência estimada por 100 mil habitantes foi de 113,2 casos de artrite reumatoide, 39,7 de lúpus, 31,9 de espondilite anquilosante e 16,1 de artrite psoriásica. O estudo não individualiza os resultados por estado ou município.
Infecções podem agravar o quadro de alguns pacientes
Pessoas com doenças autoimunes não são necessariamente mais suscetíveis a infecções. Segundo o endocrinologista Nelson Passaria, o risco depende do tipo de enfermidade, da atividade inflamatória e dos medicamentos utilizados. Em alguns casos, tratamentos que reduzem a ação do sistema imunológico exigem cuidados adicionais para evitar complicações decorrentes da exposição a agentes infecciosos.
"As infecções podem representar um risco adicional para alguns pacientes com doenças autoimunes, principalmente quando a doença está mais ativa ou quando existe necessidade de medicamentos que reduzem a atividade do sistema imunológico. Nessas situações, determinadas infecções podem evoluir de maneira mais grave, exigir internação ou dificultar temporariamente o controle da doença autoimune de base. O risco depende muito da doença, do seu grau de atividade e do tratamento utilizado", afirma.
Entre os tratamentos utilizados no controle de doenças autoimunes estão corticoides em doses elevadas, imunossupressores e medicamentos biológicos. Embora sejam importantes para controlar inflamações e evitar danos aos órgãos, essas terapias podem reduzir a capacidade do organismo de combater infecções, exigindo acompanhamento médico, avaliação vacinal e medidas preventivas.
Nesse cenário, o saneamento básico ganha importância, pois a água contaminada, o esgoto sem tratamento e o descarte inadequado de resíduos favorecem a circulação de microrganismos. Para pacientes que utilizam medicamentos imunossupressores, evitar essas exposições pode representar uma proteção adicional contra infecções.
Já a relação entre fatores ambientais e o desenvolvimento de doenças autoimunes ainda é objeto de investigação científica. Aspectos genéticos e ambientais podem atuar conjuntamente, enquanto exposições ao tabagismo, à poluição atmosférica, à sílica, a pesticidas e a solventes estão entre os fatores estudados.
"Embora a falta de saneamento básico aumente o risco de infecções e outros problemas de saúde, ainda não podemos afirmar que ela seja uma causa direta de doenças autoimunes, já que o desenvolvimento dessas condições envolve uma interação complexa entre fatores genéticos, ambientais e imunológicos", ressalta o endocrinologista.
A microbiota intestinal, formada por microrganismos que vivem no sistema digestivo, também é objeto de estudos por sua participação na regulação do sistema imunológico. Algumas infecções são investigadas pela possível relação com o desenvolvimento de doenças autoimunes, como o vírus Epstein-Barr, fortemente associado à esclerose múltipla.
Segundo o médico, essas relações ainda estão em investigação e não permitem estabelecer uma associação direta generalizada entre infecções e doenças autoimunes. Por outro lado, os benefícios da prevenção já são conhecidos: água potável, coleta e tratamento de esgoto e higiene adequada reduzem a exposição a agentes causadores de doenças gastrointestinais e parasitárias.
"Essas medidas diminuem a exposição a agentes infecciosos, especialmente aqueles responsáveis por doenças gastrointestinais e parasitárias, e ajudam a reduzir episódios de adoecimento. Para pacientes que utilizam medicamentos imunossupressores, essa proteção pode ser ainda mais relevante, já que determinadas infecções podem trazer consequências mais graves", conclui Passaria.
Saneamento também representa economia para a saúde pública
A expansão dos serviços de água tratada e coleta de esgoto também gera impactos positivos na economia e na saúde pública. Em Mato Grosso do Sul, estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a Ex Ante Consultoria Econômica, estima que a ampliação do saneamento proporcionou R$ 1,3 bilhão em benefícios econômicos relacionados à saúde entre 2005 e 2024. No período, as internações por doenças de veiculação hídrica e respiratórias apresentaram queda média de 1,9% ao ano.
O levantamento estima ainda cerca de 600 mil afastamentos de atividades por doenças de veiculação hídrica no Estado, que representaram mais de 2,5 milhões de dias de interrupção da rotina em 2019. Entre 2010 e 2024, a cobertura de coleta de esgoto nos municípios analisados avançou de 27,1% para 63,1%, enquanto a taxa de internações por essas doenças caiu aproximadamente 23%. O acesso à rede coletora também foi associado a uma redução de 2,96% na probabilidade de afastamento por diarreia ou vômito.
Para o futuro, o estudo projeta que a universalização do saneamento entre 2025 e 2040 poderá gerar R$ 40,8 bilhões em benefícios econômicos e sociais, com saldo positivo estimado em R$ 25,9 bilhões após os custos previstos. Somente na saúde, os ganhos adicionais podem chegar a R$ 258,8 milhões, considerando a redução de afastamentos e despesas com internações no SUS. A estimativa é de que cada R$ 1 investido proporcione R$ 5,90 em benefícios sociais.
Campo Grande registra queda nas doenças diarreicas
Em Campo Grande, um estudo com dados de 2003 a 2022 identificou redução de 91% nos casos de doenças diarreicas agudas e de 97% nas internações entre crianças menores de quatro anos. A queda foi registrada no mesmo período em que a cobertura de esgotamento sanitário avançou de 19% para 89% da população, evidenciando os impactos da ampliação da infraestrutura na prevenção de doenças.
Atualmente, segundo informações da Águas Guariroba, concessionária responsável pelos serviços na Capital, Campo Grande alcançou 95% de cobertura da rede de esgoto em 2026. Todo o esgoto coletado pela empresa passa por tratamento. A cobertura do abastecimento de água chega a 99,8%.
Apesar do avanço, a infraestrutura ainda não alcançou todos os bairros. O Jardim Noroeste, onde Marilucia mora há 24 anos, está entre as regiões que aguardam a ampliação do serviço. Questionada sobre o planejamento, a concessionária informou que o bairro está contemplado entre as áreas prioritárias para receber a rede até 2028.
A empresa prevê implantar aproximadamente 697 quilômetros de novas redes coletoras e realizar 66 mil novas ligações domiciliares. Para 2027, o cronograma estabelece cerca de 200 quilômetros de novas redes. A meta é alcançar 98% de cobertura de esgotamento sanitário até 2028.
No interior de Mato Grosso do Sul, a Ambiental MS Pantanal, em parceria com a Sanesul, atua no tratamento de esgoto em 68 municípios, onde a cobertura ultrapassa 81%. Desde 2021, o índice de atendimento avançou de 46% para 81,26%, enquanto o volume de esgoto tratado superou 131,4 bilhões de litros. Somadas, as operações da Ambiental MS Pantanal e da Águas Guariroba beneficiam mais de 1,2 milhão de pessoas no Estado, com uma estrutura superior a 4,8 mil quilômetros de redes coletoras.
A prevenção começa antes do atendimento médico
A relação entre saneamento e saúde evidencia que a prevenção não depende exclusivamente de consultas, exames e medicamentos. As condições ambientais também interferem na exposição a agentes infecciosos e na qualidade de vida de quem convive com enfermidades crônicas.
Para pessoas que utilizam imunossupressores, evitar o contato com água contaminada e manter condições adequadas de higiene pode reduzir riscos adicionais. Isso não significa, contudo, que a ampliação das redes de esgoto seja capaz de impedir o surgimento de doenças autoimunes.
A ciência ainda investiga a participação de fatores ambientais, infecciosos e genéticos nesses processos. O que já está estabelecido é que o saneamento reduz a circulação de agentes causadores de infecções e protege a população de doenças que poderiam ser evitadas.
Para Marilucia, a mudança precisa chegar também às ruas do bairro onde construiu sua história. Mais do que infraestrutura, ela espera condições adequadas de moradia, higiene e segurança sanitária.
A universalização do saneamento, portanto, ultrapassa as metas de infraestrutura e os indicadores econômicos. Representa uma estratégia de prevenção, proteção social e redução das desigualdades em saúde, com benefícios que alcançam desde a rotina de pacientes crônicos até a sustentabilidade do sistema público de atendimento.