Economia
Ibovespa registra pior semana desde a pandemia e acumula queda de 18,12%
Bolsa brasileira foi pressionada por incertezas sobre a política econômica após a reeleição de Lula e por fatores internacionais; índice fechou esta sexta-feira (30) aos 167.921,80 pontos
O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, encerrou esta sexta-feira (30) em queda de 0,75%, aos 167.921,80 pontos. Com o resultado, a desvalorização acumulada ao longo da semana chegou a 18,12%, no pior desempenho desde março de 2020, quando o avanço da pandemia de Covid-19 provocou fortes perdas nos mercados financeiros mundiais.
A sequência negativa foi influenciada principalmente pela reação dos investidores à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (25). O resultado eleitoral ampliou as preocupações do mercado financeiro em relação à trajetória das contas públicas e à condução da política econômica nos próximos quatro anos.
O movimento mais intenso ocorreu na segunda-feira (26), primeiro pregão após a votação. Na ocasião, o Ibovespa despencou 13,88%, registrando a maior queda diária desde março de 2020. Diante da intensidade das perdas, a Bolsa precisou interromper temporariamente as negociações por meio do circuit breaker, mecanismo utilizado para conter oscilações extremas.
Quedas históricas
Um levantamento com base em dados da Bloomberg identificou outros episódios de forte desvalorização do Ibovespa desde a implantação do Plano Real, em 1994.
A maior queda semanal ocorreu em outubro de 1997, quando o índice recuou 22,2% em meio à crise asiática. A turbulência começou na Tailândia e se espalhou por outros países, provocando uma saída de investimentos dos mercados emergentes, incluindo o Brasil.
Em outubro de 2008, durante o agravamento da crise financeira internacional, a Bolsa brasileira perdeu 20% em uma semana. A turbulência foi desencadeada pelo colapso do mercado imobiliário norte-americano e pela quebra do banco Lehman Brothers.
Já na semana encerrada em 20 de março de 2020, em meio ao avanço da pandemia, o Ibovespa acumulou perdas de aproximadamente 18,9%.
Outros períodos de forte retração foram registrados em setembro de 2001, quando o índice caiu 18,1% na semana dos atentados terroristas nos Estados Unidos; em fevereiro de 1995, com recuo de 16,2% durante a crise mexicana; e em dezembro de 1998, quando a crise russa contribuiu para uma queda de 16,1%.
Juros e cenário internacional
Além das incertezas relacionadas ao cenário político e econômico brasileiro, fatores externos também contribuíram para a instabilidade dos mercados. Entre eles estão as decisões sobre juros das principais economias, conflitos geopolíticos, resultados corporativos e sinais de desaceleração econômica.
A consultora de investimentos da Unicred, Karen Focchesatto, explica que, em períodos de maior incerteza, investidores costumam buscar aplicações consideradas mais seguras, reduzindo a exposição a mercados de maior risco, como o de renda variável.
Na quarta-feira (28), o Fed (Federal Reserve), banco central dos Estados Unidos, decidiu manter os juros entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão foi tomada diante da persistência das pressões inflacionárias e da resistência da atividade econômica norte-americana. Foram dez votos favoráveis à manutenção e dois contrários, que defendiam uma elevação de 0,25 ponto percentual.
Na quinta-feira (29), o BCE (Banco Central Europeu) também manteve suas três principais taxas de juros. A taxa de depósito permaneceu em 2,50% ao ano, enquanto as taxas de refinanciamento e de empréstimo marginal continuaram em 2,65% e 2,90%, respectivamente.
A autoridade monetária europeia alertou que a alta dos preços da energia pode pressionar a inflação e prejudicar o crescimento econômico, o que exige cautela nas próximas decisões.
Mercado acompanha decisão do Copom
No Brasil, a atenção dos investidores se volta para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, marcada para terça-feira (3) e quarta-feira (4). Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano, após cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual ao longo de 2026.
O último Boletim Focus, divulgado na segunda-feira (26), antes de o mercado incorporar integralmente os efeitos da reeleição presidencial, apontava expectativa de que a Selic terminasse 2026 em 13,25% e chegasse a 11,75% em 2027.
As projeções para a próxima decisão, porém, mudaram. Levantamento divulgado pela B3 na quinta-feira (29), com base nos preços dos contratos negociados no mercado, indicou probabilidade de 63,1% de manutenção da taxa em 13,75% ao ano. A possibilidade de redução para 13,50% era de 28%.
A decisão do Copom será acompanhada de perto pelos investidores, em meio à volatilidade do mercado financeiro e às incertezas sobre os rumos da economia brasileira.