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Entrevista

“Precisamos avançar, melhorar o serviço”

João fala sobre um projeto ousado, que vai salvar o transporte coletivo

06 julho 2019 - 08h58Mauro Silva

Em entrevista ao JD1 Notícias, o presidente do Consórcio Guaicurus, João Rezende, concessionária responsável por administrar o transporte coletivo de Campo Grande,  abordou vários assuntos, entre os quais destacou o esforço da administração municipal em resolver alguns problemas que afetam a fluidez e a qualidade do serviço, planos para o futuro e novidades no setor

JD1 Notícias – Como o senhor vê a qualidade do transporte coletivo em Campo Grande?

João Rezende – Qualidade é um termo bem amplo. O transporte coletivo no Brasil passa por um momento de muita turbulência e questionamentos. A qualidade é o nosso desafio e, infelizmente, ela não está sob o nosso domínio total. O que está na nossa mão é o treinamento da mão de obra. O principal agente é o motorista, mas, naturalmente, todo funcionário, desde o lavador, é importante. Mas o que aparece mais para o cliente, quem entrega o serviço, é o motorista. Permanente treinamento, qualificação, manutenção e renovação da frota [são feitos], mas se colocarmos hoje, em circulação, 100% da frota zero quilômetro, provavelmente não aumentará o número de usuários, porque o cidadão não está deixando de usar o ônibus porque ele não é zero quilômetro e tem dez anos de uso. Ele deixa de o usar, muitas vezes, por causa da lentidão. A cidade está abarrotada de automóveis, motocicletas, bicicletas e patinetes porque o cidadão hoje em dia compra tempo, tudo gira em torno de tempo, e o deslocamento de ônibus está cada vez mais lento. O cidadão passa do ônibus para o automóvel porque acha o serviço do transporte coletivo ruim. E isso não é só em Campo Grande. Eu participo de entidades no Brasil e sei que estamos vivendo a consequência de uma escolha, que é a do transporte individual em detrimento do transporte de massa. Quem mora em Campo Grande sabe que houve um tempo em que as pessoas que moravam nas Moreninhas e trabalhavam no Centro conseguiam almoçar em casa e voltar. Hoje, não dá mais tempo e o preço não permite. Então, a pessoa compra uma motocicleta. Para o cidadão perceber mudança na qualidade de maneira expressiva, está faltando infraestrutura para o transporte. Faixas exclusivas, corredores, semáforo dando vez para o ônibus, e isso está na mão do poder público. Reconheço o esforço do prefeito, que resgatou recursos federais que estavam indo embora e está com o corredor da avenida Bandeirantes em andamento, o da Brilhante também. Mas, ele ainda não está disponível para o usuário, então o consórcio tem perdido muitos usuários pela demora na viagem e pela falta de padrão em cumprimento de horário, e é essa a qualidade que o cliente quer. O preço nem é o mais importante, temos tarifas mais caras Brasil afora.

JD1Notícias– A respeito de questões contratuais que não estariam sendo cumpridas, envolvendo a quantidade de ônibus novos e com ar condicionado, o consórcio está deixando de cumprir cláusulas que garantem a qualidade do serviço?

João Rezende – O consórcio tem um contrato, firmado em 2012, com a prefeitura e ele é resultado de uma licitação, que foi colocada à disposição para quem se interessasse, estabelecendo as regras, direitos e obrigações do concessionário, direitos e obrigações do usuário e direitos e obrigações do poder público. O consórcio não está cumprindo a idade média da frota, sendo esta a única coisa que não está sendo cumprida. Mas, não é por desrespeito ao contrato e sim  por falta de condições financeiras. Como eu disse, estamos perdendo usuários em número e essa perda é crescente. As despesas não acompanharam a redução, temos praticamente a mesma despesa para faturar muito menos. O poder público tem se esforçado bastante, mas a prefeitura, neste contrato, não cumpriu a sua parte. Ela não fez ainda nenhum quilômetro de corredor. Se tivesse feito, certamente que a qualidade seria outra. Ela não fez nenhuma reforma de terminal, fará ainda. Nesse projeto, que deu origem a licitação, há a construção de 80 estações, parecidas com a da Praça Ary Coelho, e ela não fez nenhuma. Com transparência, essa informação precisa chegar ao usuário. Não que o consórcio esteja querendo se eximir de alguma responsabilidade, mas temos que ter a coragem de dizer a verdade, respeitando o poder público. Mas, não é a idade média da frota que altera a qualidade do transporte. Alguns ônibus, que estão com a idade vencida, estão em condições de trabalhar, estando devidamente revisados. O que precisamos é de infraestrutura para o ônibus circular mais rapidamente e cumprir os horários estipulados. Poderíamos até reduzir a frota e economizar, mas, para isso, temos que ter velocidade, para compensar. Hoje, estamos usando mais ônibus para transportar menos pessoas e gastando mais tempo, de modo que não fecha a conta. Temos hoje um processo administrativo dentro da agência de regulação discutindo isso, cobrando do poder público uma iniciativa para garantir segurança jurídica, o equilíbrio financeiro do contrato para que possamos continuar honrando a folha de pagamento, com os impostos, com tudo o que o empresário precisa. 

JD1Notícias– Ar condicionado nos ônibus mudaria o equilíbrio econômico-financeiro desse contrato?

João Rezende – Com certeza. Hoje temos, numa frota de 560 ônibus, 14 com ar condicionado. Consumimos um milhão de litros de óleo diesel por mês. O ônibus com ar condicionado consome 30% a mais, então os 14 não estão desequilibrando essa conta significativamente. Se tivéssemos 100% da frota com ar condicionado, consumiríamos 1,3 milhão de litros por mês, uma despesa de mais de R$ 1 milhão para o sistema e com certeza não teremos o aumento de clientes na mesma proporção. Tecnicamente, o ar condicionado no ônibus urbano é bem diferente do ônibus intermunicipal, que fecha a porta aqui na rodoviária e vai abri-la longe. No ônibus urbano, fazendo uma comparação bem simples, é como se alguém pegasse uma panela quente e colocasse dentro da geladeira, seguidas vezes, até o equipamento não mais funcionar. Sempre que a prefeitura aborda o assunto, estamos tentando contrapor porque o ar condicionado não resolve o problema do transporte. Ele minimiza uma situação de desconforto, mas o cidadão vai continuar chegando atrasado. Outra questão é que um ônibus com ar custa R$ 360 mil, enquanto que um sem ar custa R$ 300. Além do consumo do diesel, tem a manutenção dele, que tem um custo bastante expressivo.

JD1Notícias– A gratuidade encarece a passagem de ônibus. É muito amplo o volume de pessoas que circulam de graça?

João Rezende – É sim, bastante. Essa tarifa de R$ 3,95 foi definida em dezembro. Naturalmente, hoje ela já seria outra, mas, naquele cenário, se todos os usuários pagassem a passagem, ela custaria R$ 2,70. No nosso entendimento, esse é um dos grandes problemas. O preço também é moeda de exclusão. Quando uma empresa vai contratar um funcionário, se um precisa de vale-transporte, e ela tem a opção de contratar outro que não precisa, com certeza vai dar preferência a quem não vai gerar aquela despesa ali. A gratuidade está sendo discutida em Brasília, para que sejam criados fundos e a tarifa se torne menos pesada. É nossa esperança, mas também não adianta reduzir a tarifa se a qualidade continuar a mesma.

JD1Notícias– Em um ranking de qualidade do transporte coletivo, em que posição Campo Grande estaria hoje, entre as capitais?

João Rezende – Aqui há um transporte de qualidade razoável. Temos, seguramente, um transporte de qualidade quando falamos no quesito segurança, por exemplo. Tínhamos, há uns cinco ou seis anos, uma média de 60 assaltos a ônibus por mês. Hoje, estamos sem nenhum. Se não tivéssemos feito mudanças, teríamos sofrido cinco mil assaltos. Além do cenário de risco de morte, há outros agravantes, como a máquina pública trabalhando com inquérito policial, funcionários afastados por síndrome do pânico, depressão. De modo que qualidade nós temos, nesse sentido. Nossa frota está entre as mais novas do Brasil. Recentemente, Porto Alegre ampliou, assim como nós pedimos para a prefeitura aqui também, a idade média dos ônibus de cinco para sete anos. Nós não estamos tão diferentes de Porto Alegre, Cuiabá e Goiânia. Temos 100% da frota com elevador, então os cadeirantes saem de casa com a certeza de que terão um ônibus com elevador. Para mim, isso é qualidade, inclusão, acolhimento. Por falar em acessibilidade, temos um aplicativo que permite ao deficiente visual solicitar o embarque ao motorista, que já fica sabendo que o cliente está lá no ponto, esperando por ele. Isso é algo que não tem por aí. Há problemas, mas também muitas coisas boas aqui. Temos a necessidade de avançar, melhorar a qualidade. Vamos ter 55 novos ônibus até o final do ano, a princípio, nenhum com ar condicionado. É necessário ver a condição de compra. Se comprarmos todos com ar, são R$ 3 milhões a mais. Contratualmente, não temos a obrigação de colocar a frota com ar. A prefeitura fez esse pedido e, inicialmente, atendemos, mas, nesse momento dramático, estamos pedindo que nos deem essa oportunidade de comprar os ônibus sem o ar condionado, mas efetuar a compra, para renovar gastando menos.

JD1Noticias– Por que Campo Grande é uma das poucas capitais do país sem ônibus executivo no aeroporto?

João Rezende – Porque não há demanda para isso. São poucas as cidades que têm esse serviço permanente. O cliente do avião tem outro perfil. Fizemos um experimento e, na época, os taxistas até ficaram preocupados. Isso não funcionou, não teve a resposta esperada.

JD1Notícias– Com tanta reclamação, se houver outra licitação aqui, o Consórcio Guaicurus disputaria de novo?

João Rezende – No cenário de hoje, com a segurança jurídica que deixa a desejar, o consórcio teria que pensar muito. O deslocamento de pessoas está sendo totalmente alterado com a presença dos aplicativos, que tem toda uma simpatia do usuário, pela rapidez. Para participar de uma licitação aqui, hoje, teríamos que pensar bem, fazer as contas, porque é algo bastante duvidoso. Temos visto, em várias cidades do Brasil, licitações sem nenhum interessado. Em Campo Grande seria diferente? Torço para que seja.

JD1Notícias – Com a modernidade, as possibilidades de transporte estão se multiplicando. Como fica o futuro do consórcio?

João Rezende – Essa é uma grande dúvida nossa e é alvo de discussão permanente. Na quinta-feira (3), eu estive em Brasília, na Câmara federal, na instalação da Comissão Parlamentar Mista do Transporte e lá eu tive a oportunidade de ver a apresentação de um projeto elaborado pela Frente Nacional de Prefeitos, pela ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) e pela NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos). Um projeto ousado, que tem cinco fases e vai tentar salvar o transporte, as empresas. O transporte público é usado pelo estudante, pelo idoso, pelo deficiente, e o poder público tem que garantir esse transporte, mas da maneira que está acontecendo a gratuidade daqui a pouco não vai ter mais. Então, esse projeto tem a pretensão de baratear a tarifa e melhorar a qualidade. A primeira e a principal fase é a infraestrutura. Se isso não for feito, o transporte coletivo está fadado a sucumbir.

 

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