Dia 7 de fevereiro de 1980 cheguei em Campo Grande. Sai de Recife, cidade onde morei e me formei Arquiteto e vim morar na mais nova capital do país. Fui morar com meu tio, na Rua Ana América, no bairro Cabreúva, que tinha uma casinha bem simpática. O bairro Cabreúva, ainda sem muita urbanização, era próximo ao centro mas de difícil acesso. Saindo de casa para o centro da cidade, eu passava por uma pinguela para acessar a Rua dos Ferroviários, subia a Antônio Maria Coelho e 5 ou 6 quadras, estava no centro. Como adoro música e toco violão e logo me vi impulsionado em procurar um refúgio musical na cidade e encontrei a Panifadora Carícia, onde Willian Portela (o homem-orquestra) tocava órgão e ali fiz contatos com o chamamé. No começo, meio estranho; com o passar do tempo, os gritos nas boas músicas, como Km11, por exemplo, era a cara das festas que ia. Ao lado da padaria, tinha o Café Soçaite, onde encontrei a música de Mato Grosso do Sul sendo tocada, com todos os Espíndolas, Almir Sater, Paulinho e uma tropa de músicos encantadores. Dali daquele espaço, que rapidamente fechou, migramos para outros lugares da cidade onde a música se fazia presente. No Rui Bar Bossa, na Mato Grosso, no bar da Soraia, em tantos lugares, no bar do Dib, enfim, era a Campo Grande pulsando de alegria, adorando ser uma capital. Vim para cá para trabalhar e meu primeiro emprego foi no escritório do arquiteto Jurandir Nogueira, de saudosa memória. Lá naquele escritório moderno, todo envidraçado, estava presente a arquitetura que ele fazia na sua vida. Seu escritório era a síntese de sua arquitetura. Piso preto, forro metálico, um belo acervo de livros e revistas, a mapoteca mais organizada que vi em minha vida. Deste escritório de Jurandir começo a conhecer a nata da engenharia e da arquitetura da cidade: Euclides de Oliveira; Carlos Portugal; Fausto Mato Grosso e tantos outros. Dou meus primeiros passos em direção a uma entidade de classe, quando fui convidado para uma reunião na Associação de Engenheiros e Arquitetos – AEACG, que tinha um grande atrativo: o futebol aos sábados e naquele ambiente esportivo-tecnológico, fiz mais amigos: Frederico Valente, Dary Werneck, Wilson Verde Selva e tantos outros. Uma semana depois que estava na cidade, era carnaval e fui convidado para conhecer o Pantanal, através de Coxim. Aquela cidade às margens do Taquari – rio que era considerado o mais piscoso do país e que hoje amarga uma situação lamentável de assoreamento -, era bem pequena, mas tinha uma riqueza do Zacarias Mourão, do Pé de Cedro, que conheci naqueles tempos. Trabalhar com o melhor arquiteto da cidade era uma situação privilegiada para mim que dividi, durante alguns meses, com outro colega que por lá ficava, o Emmanuel de Oliveira. Paulista, formado na Unicamp, casado na época com Iris Ebner, Emmanuel era meu companheiro de primeiras conversas arquitetônicas, de escritório. Trabalhamos juntos no projeto da Residência de Odenir Vandoni em Cuiabá, uma casa inteira dentro de uma quadra e ainda pudemos detalhar a Escola Oliva Enciso, no bairro Universitário. Emmanuel logo saiu para seguir carreira solo; Iris trabalhava na Secretaria de Planejamento, no antigo ERPE, atual Memorial da Cultura, antiga sede do governo de Mato Grosso do Sul. O que mais me impressionava nesse ano de 1980 em Campo Grande era a dinâmica da cidade: ainda sem Shopping, com apenas uma rádio FM, a Canarinho, onde Luis Aspesi nos brindava, à noite, com uma boa música, a cidade tinha a sua lógica. Os bares eram mais cheios; havia mais festas e shows diversos seja no Moreninho, no Morenão ou em outro lugar. Naquele 1980 conheci Paulo Simões e Almir Sater, duas pessoas que fazem parte de minha vida campo-grandense. Tal era a ligação com Almir que seu primeiro disco gravado em São Paulo foi disponibilizado em uma fita cassete e foi ouvido, pela primeira vez, em meu quarto, juntamente com Astúrio, José Alfredo e Chico Chaves. Quando o disco foi gravado levei, a pedido de Almir, 10 discos para Recife e deixei um com o Lenine – sim, Lenine esse astro da música brasileira era meu amigo de violão em Recife – e outros com Zé Rocha, outro músico pernambucano de primeira. Em Campo Grande, ainda sem planejamento urbano, crescendo 10% ao ano, população migrante chegando a todo o tempo, os aluguéis dispararam. O Governo do Estado estava instalado em casas e prédios particulares, em sua grande maioria. O Governador do Estado em 1980 era Marcelo Miranda e o Prefeito da cidade, Albino Coimbra. Estive com o engenheiro Arroyo, atual deputado estadual a procura de emprego pois ele era Secretário da Prefeitura e conheci colegas antigos por lá, como Dirceu Peters e tantos outros. Em 1980, com vários amigos em formação, começamos a criar nosso ponto de encontro, a Sanduicheria Coisa&Tal, na Rua Barão do Rio Branco. Novos amigos na parada: Marisa Machado, Bosco Delvizio, Ligia, Seu Antônio Saboya, Cândido Fonseca, Marilia Leite, Mario Ramires, viche quanta gente. O local era muito legal. Nós fazíamos o sanduiche que queríamos na hora. Me lembro de vários dias especiais mais um deles foi muito diferente. Estávamos tocando música de Tim Maia quando, de repente, entra no bar o músico Fábio que tinha gravado Velho Camarada com o Tim e ele logo veio para nossa mesa e cantou com a gente: noite memorável. Outro detalhe: Seu Antônio somente bebia whisky e como lá não tinha, ele levava a garrafa de casa, ela era guardada no bar só para ele. O bar Caras&Bocas logo foi aberto e nasce um novo lugar na cidade para diversão que juntamente com o Bar da Tia dividiam as nossas atenções. Era legal ir ao cinema na Rodoviária; era ótimo ir no Auto Cine; era muito bom o carnaval no Rádio Clube; era sensacional viajar no Trem da Noroeste para Corumbá; era divertido percorrer os bares na noite campo-grandense; era gostoso ficar tocando violão no Bar da Tia. Ouvi pela primeira vez o Grupo Acaba na casa de Adalgisa, uma advogada amiga. Assistíamos shows no Teatro Dom Bosco, palestras, debates, sempre com a casa cheia. Aquela Campo Grande de 1980 eu tenho muitas saudades.