Ao tempo em que o cancioneiro da paz Bob Dylan era agraciado com o prêmio máximo da literatura um de seus milhares de fãs anônimos cumpria sua   sina nordestina.

Dioberto da Silva Ramos de Souza. Seu nome completo. Ou Dioberto da Silva de Souza Ramos de Castro Martins brincávamos! Para mim e Márcia um filho. Para meus filhos um irmão. Dioberto tinha pouco mais de 13 anos quando o conhecemos. Na década de 80 eu ainda solteiro, vindo trabalhar de repórter da TV Morena. O menino serelepe e cheio de vida já pelejava pelas ruas de Campo Grande. Sua mãe dona Maria tecia as redes em sua pequena fábrica e as enviava direto de São Bento/PB.

Era o seu ganha pão e de sua família. Dioberto aportou em nossa vida, sutilmente e como um raio de luz contemplou nossos corações de afeto e de simplicidade. Vez ou outra o menino tomava um chá de sumiço. Mais sempre dava conta de mandar avisar quando começávamos a nos preocupar. Assim era o Dioberto um ser especial. Adorava música e era um grande leitor. Conseguiu terminar o EJA/SESC e se orgulhava muito disso: o próximo passo? Uma faculdade de Filosofia. Seu gosto musical era bem eclético: da autentica música caipira à MPB. Cantava Tião Carreiro e Pardinho e também Zé Ramalho, Raul, Belchior, Caetano, Gil, Almir...

Assim era nosso Dioberto. Autentico, simples, ingênuo, corajoso e humilde tantos outros adjetivos que um filho pode relembrar.

Dioberto   não tinha vergonha de dizer “não sei”. E estava sempre em busca do saber. Do saber formal e do saber do afeto. Tinha verdadeira paixão por seus dois filhos: Debora e Pedro. Nestes mais de 25 anos foi e voltou diversas vezes para diversos lugares. Dioberto nunca mais nos deixou.

Dioberto marcou a infância de nossos filhos e dos filhos de nossos amigos como Munira e Crispim, Mauricio e Batatinha, os Espindolas...  no destino entre Campo Grande e Bonito. Lugares onde ele morou um bom tempo e onde foi acolhido por muitas amizades.

Seu desejo era formar seus filhos; companheiro e sonhador, queria ser filósofo ou cantor, passou indelével em nossa vida, cravando para sempre em nosso peito a marca da saudade. Era um garoto que como nós amava os Beatles, os Roling Stones, Caetano, Chico Cesar, Gil, Bob Dilan. Autodidata na vida, foi de redeiro a porteiro de prédio e chegou a ser programador da Rádio Educativa.  Teve seu destino trágico marcado por sua sina nordestina, como um Riobaldo.

Ironia do destino morrer quando decidiu voltar ao sertão da Paraíba para educar de perto seus filhos? Morrer não! Dioberto não morreu! Dioberto foi assassinado!

O menino homem ás vésperas do dia das crianças, dia de Nossa Senhora de Aparecida, teve sua vida covardemente subtraída. De forma abrupta por dois pistoleiros, quando visitava a família em Brejo da Cruzes.

Ele viverá sempre em nossos corações. Em tempos de violência e mortes inocentes nem Caetano nem Dylan apaga em nós a dor de sua perda.                  Agora traduzida na música do rap cantado pelo Expressão Nativa, “Na dor de Uma Lágrima:” Pra quem foi, pra quem ficou/De quem vai, de quem fica/Só Deus explica, só Deus pra explicar/Pra me conformar, assim é a vida/Minha parte eu faço, a minha parte eu faço/A vida segue o sentido a caminho da morte eu sei/ (Mas não me acostumei...). Um silêncio toma conta de quem chora por dentro/E uma palavra de lamento, não pode amenizar/Esse momento triste de quem deixou de existir/Que nunca mais vai chorar, ou muito menos sorrir...

Um inocente que pode sentir que existe luz ali no céu/Prontas pra perdoar alguém que acabou de morrer.

O sentimento de perda bate na hora da partida...

(...) vi que a vida é um sopro/Que a morte suga de volta no ultimo suspiro /Alguém gritou e eu ouvi .../Porque mataram o meu filho meu Deus/Deus, meus olhos não vão resistir.../Rola uma lágrima/Só uma gota e nada mais/Rola uma lágrima/Só uma gota te pedindo a paz (...)

 

(*) Bosco Martins é jornalista e diretor presidente da Fertel