A notícia do falecimento de uma menina de sete anos, dias atrás, vitimada pela Leishmaniose visceral, me sensibiliza e me constrange, a ponto de voltar a esse Jornal para reafirmar a minha preocupação e a minha discordância, com os procedimentos que vem sendo adotados aqui em Campo Grande, em relação a essa terrível doença. Por tantas notícias veiculadas a respeito, a população já tem conhecimento de que a leishmaniose é uma doença terrível que em pouco tempo pode arrasar o cão que é incurável para ele, e que é uma zoonose, isto é, acomete também o ser humano, podendo haver comprometimento de vários órgãos vitais, de difícil tratamento, com muito sofrimento e em muitas vezes, como foi o caso, culminando com a morte. 

Nossa Capital é a única cidade no Brasil, onde o tratamento dos cães portadores de leishmaniose é permitido liminarmente, com medicamento de uso humano. Não cabe a mim questionar aspectos ou decisões jurídicas, mas me reservo o direito de expor meu ponto de vista, e o meu pensamento como profissional da área, como já fiz em outras ocasiões, respeitando naturalmente outras convicções. Admito mesmo que seja penoso para um dono, ter que concordar com o sacrifício de seu animalzinho, em função de portar uma doença incurável e transmissível. O Médico Veterinário, da mesma forma, por certo, se sensibiliza também, por ter que adotar esse procedimento drástico. Mas até quando iremos fazer vistas grossas para um problema de Saúde Pública tão sério, e por questões meramente sentimentais, colocar em risco permanente, outros animais, a família e demais pessoas.

A Leishmaniose antes era observada em pequena escala no meio rural,       atingindo alguns animais silvestres, e há pouco tempo chegou às cidades, para se hospedar no cão, e hoje se espalha por todo o Território Nacional. Possivelmente a sua rápida propagação se deu em função de naquela época, ser mais difícil a confirmação do diagnóstico por falta de recursos de laboratório e pelo fato de seus sintomas serem comuns a uma série de outras doenças que acometem o cão.

Lembro-me, quando na dificuldade da confirmação da doença em laboratório, por vezes, e na dúvida, em acordo com o proprietário, praticávamos o sacrifício que hoje se instituiu chamar de eutanásia. Outro fator para essa propagação seria a existência do cão assintomático, ou oligossintomático, quando o animal é portador, mas não apresenta nenhum, ou poucos sintomas da doença. Quando esse diagnóstico se tornou mais evidente para a classe veterinária, e já que não se tinha conhecimento de medicamento eficaz, passou-se a realizar o sacrifício (eutanásia). Campo Grande atualmente está entre as primeiras cidades em número de casos de leishmaniose no Brasil. 

Acompanhei de perto o trabalho desenvolvido pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da Capital, nos governos do Dr. Nelson Trad que possivelmente por ser médico tenha visto o problema sob o aspecto técnico e agido de maneira a seguir a orientação dos Ministérios da Saúde e o da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e instituiu os Inquéritos sobre a doença, colaborando inclusive com a FIOCRUZ, realizando trabalhos visando a liberação de um Teste Rápido para diagnóstico da Leishmaniose produzido por aquele Instituto. À época, nosso CCZ se tornou Referência Nacional para diagnóstico e controle da Leishmaniose Visceral Canina, muito embora em função do elevado número de eutanásias praticadas, tivesse sofrido severas críticas por parte da população, de setores ligados à proteção de animais e de uma parcela de Profissionais da área, adepta do tratamento.

No meu ponto de vista, não fosse aquele trabalho, a situação agora seria bem pior.   Hoje, o Ministério da Saúde admite, mas não recomenda, o tratamento da Leishmaniose Visceral Canina, usando-se um produto veterinário importado que mantém o animal com características hígidas, mas continuando a ser portador do protozoário. Um produto extremamente caro e ao alcance de poucos. Portanto, a meu ver, a paralisação dos trabalhos realizados pelos Profissionais do CCZ da Capital que embora possam parecer antipáticos, seria uma temeridade, já que a população humana está a conviver hoje com situações de risco muito mais evidentes. Volto a afirmar que respeito opiniões, mas não me obrigo a concordar com elas, e voltando ao triste episódio do falecimento da

 Menina, acho que se poderia considerar um caso isolado, já que ela morava em outra cidade e ganhou repercussão, por se tratar de uma criança. Mas, e os demais tantos outros casos de morte ocorridos aqui na nossa Capital, única cidade a andar na contramão do problema? Simplesmente as pessoas morreram e foram enterradas! Mas muitas delas poderiam estar vivas! Não seria o caso de se questionar como ficariam as responsabilidades se é que elas possam existir? O fato é que cão portador, tratado ou não, é uma realidade minha gente. Ele é um risco permanente e não há ninguém que possa contestar isso. Ninguém... repito! 

Ele está aí, no campo, nas clínicas, nas residências e soltos pelas ruas, a disposição de um mosquitinho que hoje pouco tem sido incomodado. Ele voa em céu de brigadeiro. Não se poderia imputar essa culpa por enquanto, e por questões óbvias, à nova Administração que pegou o bonde andando. Mas o fato é que o cão doente está aí, à disposição do flebotomíneo faminto que vai sugar o seu sangue contaminado e mais tarde, quando tiver fome novamente, em vez do cão, poderá picar outra criança, e quem sabe, fazê-la doente, para mais tristeza, mais sofrimento e que Deus não permita, uma outra fatalidade.

“A VETERINÁRIA é uma Profissão que inicialmente visava a saúde animal, mas hoje ganha também, uma importância fundamental no campo da Saúde Pública.”