O calendário anunciou a primavera no dia 22. Mas, em Campo Grande, a estação que culturalmente evoca flores e suavidade chegou com sol de forno, vento quente e o céu carregado de pó. No asfalto, os termômetros chegaram na última semana mais de 33 °C, mesmo em dias que deveriam ser amenos. A sensação é de que saltamos do inverno seco direto para um verão precoce. Está difícil se manter com a saúde em dia.

Choveu pouco. Em setembro, volumes bem baixos de água, menos de 5 milímetros em quinze dias. O número é quase nada diante da média histórica, e esse “quase nada” já se traduz em gramados queimados, árvores sem viço e reservatórios que descem lentamente. Você lembra quando foi a última chuva forte que caiu na sua rua?

As séries históricas do Instituto Nacional de Meteorologia confirmam que Campo Grande vive há anos uma oscilação: picos de calor que chegam a 36 °C fora de época e noites em que o frescor não dá trégua. Nos últimos dez anos, as médias anuais caminharam sempre acima dos 30 °C. O corpo humano se adapta a esse ritmo? A cidade, com seu concreto e sua pressa, consegue oferecer abrigo?

O impacto do calor vai muito além da sensação térmica. No cotidiano, ele se infiltra em pequenas escolhas: beber ou não beber água a cada hora, sair ao meio-dia ou esperar o sol baixar, cuidar da pele com proteção ou arriscar queimaduras silenciosas. Quantos litros de água você tomou ontem, por exemplo? Dois, três, nenhum? Pense sobre isso.

Há também o fator comunitário. Quando a primavera chega mais árida do que florida, vizinhos idosos tornam-se mais vulneráveis, crianças adoecem com facilidade, e animais procuram sombra e tigelas de água que talvez não existam. Você sabe como está o senhor da casa ao lado? Já ofereceu um copo d’água a quem não tem acesso tão fácil? E aquele pote de sorvete vazio não poderia servir de pote de água para animais em situação de rua? Outro item para você pensar.

E a cidade, como organismo coletivo, sente na pele. O solo seco aumenta o risco de queimadas. O verde urbano, já reduzido, não consegue frear a “ilha de calor” que se forma sobre os bairros mais adensados, mais populosos. Quantas árvores restam na sua rua? Elas ainda dão sombra suficiente?

A primavera, nesse contexto, pede mais do que contemplação. Ela pede atenção, cuidado, empatia. O calor excessivo não é apenas um fenômeno climático; é um convite incômodo para repensarmos nossos hábitos e a forma como nos relacionamos com a comunidade e com o espaço urbano. Preparar-se, neste início de estação, não significa obedecer a regras ditadas de cima, mas refletir: o que cada um de nós pode fazer para que esta cidade atravesse o calor com menos sofrimento e mais solidariedade?

Porque, afinal, a primavera chegou — mas será que estamos prontos para recebê-la?