A investigação da Operação Lívia revelou a existência de grupos criminosos organizados em plataformas digitais, principalmente no Discord, onde os integrantes faziam parte de 'panelas' e eram responsáveis por recrutar manipular e controlar adolescentes em diferentes estados do país, como aconteceu com a adolescente Lívia, de Navirái, que tirou a própria vida no dia 22 de julho.

A delegada Anne Karine Trevizan, titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Atendimento à Criança e ao Adolescente), explicou que esses grupos possuem hierarquia, lideranças e disputam entre si para praticar atos cada vez mais violentos.

De acordo com a delegada, a Polícia Civil já identificou todos os envolvidos diretamente na morte da adolescente Lívia, de Naviraí, mas as investigações continuam para localizar outras "panelas" que atuam na internet. "Nós já acreditávamos que se tratava de uma organização criminosa que ocorre no ambiente virtual, coordenada basicamente por adolescentes", afirmou durante coletiva de imprensa, nesta quinta-feira, dia 6.

Anne Karine explicou que cada grupo possui administradores e uma estrutura interna. As chamadas "panelas" concorrem entre si para ganhar notoriedade entre os integrantes. "Eles têm várias lideranças, eles concorrem entre si. O que é o hype deles? É ter mais violência. Quanto mais violento é o grupo, melhor é o grupo, porque mais pessoas querem entrar naquela panela", declarou.

Segundo a investigação, os criminosos marcam os chamados "eventos", momentos em que integrantes acompanham e incentivam crimes praticados pelas vítimas, como automutilações e até mortes. "Eles marcam esses eventos dentro de grupos chamados panelas", explicou a delegada. Ela afirmou ainda que, na noite da morte de Lívia, também foi registrado um episódio de automutilação em outro estado, ambos acompanhados pelos integrantes da organização.

A polícia também identificou que os criminosos utilizam diversas plataformas digitais para dificultar o trabalho de fiscalização. Conforme Anne Karine, quando uma transmissão é interrompida, os integrantes migram rapidamente para outro aplicativo que possua menos mecanismos de moderação. "Eles podem começar um evento numa plataforma, ser derrubado, vai para outra, que eles sabem que dura mais tempo, e assim eles vão migrando", disse.

Outro ponto destacado pela delegada é que os integrantes praticamente não conhecem a identidade uns dos outros. Segundo ela, a relação entre os criminosos acontece exclusivamente no ambiente virtual, onde utilizam apelidos e perfis falsos. "Eles mesmo não sabem de onde é a outra pessoa. Eles não sabem nem mesmo o nome. Eles se tratam pelo nickname deles", afirmou.

Apesar das investigações terem identificado os envolvidos no caso de Lívia, Anne Karine afirmou que existem outros grupos semelhantes em atuação no país. "Nós sabemos que tem outras", declarou. A Polícia Civil continua analisando o material apreendido durante a operação para identificar novos integrantes e aprofundar o mapeamento da organização criminosa que atua nas redes sociais.