PEC da Segurança
Secretário de MS diz que estados manterão autonomia sobre políticas de combate ao crime
Antônio Carlos Videira avalia que mudanças aprovadas pelo Senado exigirão alinhamento com diretrizes nacionais, mas permitirão que governadores definam prioridades regionais
A aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública pelo Senado Federal não deve retirar a autonomia dos estados na definição de suas políticas de combate à criminalidade. A avaliação é do secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, que comentou as mudanças previstas no texto durante entrevista ao programa Capital Meio-Dia, da rádio FM Capital, nesta quarta-feira (4).
A proposta foi aprovada em dois turnos na noite de terça-feira (3), com 73 votos favoráveis e nenhum contrário no primeiro turno e 75 votos favoráveis no segundo. De autoria do Poder Executivo, a PEC estabelece novas diretrizes para a organização da segurança pública no país, com integração entre União, estados e municípios.
Segundo Videira, o governo federal ficará responsável por estabelecer a política nacional de segurança, mas os governadores continuarão com liberdade para definir prioridades e estratégias de acordo com a realidade de cada região. A exigência será manter alinhamento com as diretrizes nacionais.
“O governo federal estabelece a política nacional, e ela é muito ampla, tendo em vista que o Brasil tem dimensões continentais e suas particularidades. Então, para cada região, para cada estado, cada governador continua com sua autonomia, para sua política estadual, para o seu plano estadual”, afirmou.
O secretário exemplificou, citando como prioridades da área de segurança pública de Mato Grosso do Sul, o enfrentamento à violência doméstica e ao crime organizado. Sobre este último, destacou a disputa entre as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), que, segundo ele, tem contribuído para o aumento dos homicídios no Estado.
Videira explicou que o Comando Vermelho busca ampliar sua presença em território sul-mato-grossense para controlar rotas e rodovias de acesso a estados vizinhos, utilizadas no transporte de drogas provenientes do Paraguai e da Bolívia, principalmente cocaína destinada à exportação pelos portos brasileiros.
Sistema penitenciário tem custo elevado
Durante a entrevista, o secretário também chamou atenção para os gastos com a estrutura de segurança pública e, principalmente, com o sistema penitenciário estadual. Segundo o secretário, Mato Grosso do Sul possui aproximadamente 4 mil viaturas, que representam despesas mensais de R$ 4,5 milhões com combustível e manutenção. Já a conta de água da Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), conforme o secretário, chega a R$ 10 milhões mensais.
Videira afirmou que o custo de manutenção do sistema penitenciário atualmente supera o da própria segurança pública. Diante desse cenário, defendeu mudanças na estrutura administrativa da Agepen, com a transformação da autarquia em uma secretaria responsável pela administração penitenciária e pelas medidas socioeducativas.
Na avaliação do secretário, a reorganização permitiria aprimorar a gestão, ampliar as ações de ressocialização e reduzir a reincidência criminal. Ele também apontou a necessidade de investimentos em tecnologia e automação para impedir a entrada de celulares e drogas nas unidades prisionais.
“O custo atual do sistema penitenciário é maior do que o custo da segurança pública. Manter um preso custeado em Mato Grosso do Sul custa mais do que fazer segurança pública. E isso exige uma gestão mais aprimorada, exige uma reengenharia”, declarou.
O secretário acrescentou que o modelo de organização das forças de segurança adotado em Mato Grosso do Sul é diferente do utilizado em outros estados e defendeu uma revisão administrativa, tendo como referências estruturas existentes no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Ordens de facções partem de dentro dos presídios
Ao comentar as mudanças relacionadas à execução penal, Videira destacou que o enfrentamento ao crime organizado não deve se limitar à manutenção dos condenados nas unidades prisionais. Para ele, é necessário impedir que lideranças continuem coordenando atividades criminosas mesmo atrás das grades.
“A proposta não é só você manter o preso, mas impedir que, de lá de dentro, ele continue comandando o crime. Por exemplo, as ordens para as invasões de facções partem de dentro dos presídios”, afirmou.
A PEC estabelece medidas mais rigorosas para integrantes de facções e milícias, incluindo a possibilidade de cumprimento de pena em unidades de segurança máxima e restrições à progressão de regime.
O texto também amplia as atribuições da PRF (Polícia Rodoviária Federal), permite a criação de polícias municipais de natureza civil e prevê mudanças no financiamento da segurança pública, com repasses obrigatórios de recursos federais aos estados e municípios.
Durante a votação no Senado, propostas para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, ou até 14 anos em determinados crimes, foram retiradas do texto principal e poderão tramitar separadamente. Com a aprovação em dois turnos, a PEC seguirá para promulgação pelo Congresso Nacional.