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Consumidor deve sentir pouco, afirma especialista sobre reforma tributária em 2026

O economista Eugênio Pavão avalia que modernização e tecnologia serão decisivas no novo cenário de "darwinismo econômico"

15 fevereiro 2026 - 10h45Sarah Chaves

A reforma tributária finalmente saiu do papel depois de décadas de discussão no Congresso Nacional e começa a dar seus primeiros passos práticos em 2026. Para muita gente, a pergunta é, o que muda na vida real e no bolso? No mercado? Em entrevista ao JD1 Notícias, o professor e mestre em Economia, Eugênio da Silva Pavão, explica que o primeiro ano será muito mais de adaptação das empresas do que de impacto direto para o consumidor.

Segundo Pavão, 2026 funciona como um "ano teste". As empresas começam a operar com o novo modelo de impostos sobre consumo, que vai substituir cinco tributos atuais por dois principais: a CBS, que é federal, e o IBS, que será dividido entre estados e municípios. "É um período de ajuste interno, de organização de sistemas, de treinamento de equipes e de adaptação tecnológica. Para o consumidor comum, a mudança deve ser quase imperceptível nesse começo", resume.

Hoje o Brasil tem um sistema cheio de camadas, regras diferentes em cada estado e muita cobrança em cascata, ou seja, imposto em cima de imposto ao longo da cadeia de produção. A reforma tenta organizar essa bagunça. O principal objetivo, de acordo com Pavão, é simplificar. "A ideia central é reduzir o número de tributos, acabar com essa cobrança acumulada e tornar o sistema mais transparente. A justiça fiscal entra com o mecanismo de devolução de parte do imposto para quem tem menor renda, o chamado cashback", explica.

Na prática, isso significa que famílias de baixa renda poderão receber de volta parte do que pagam em impostos embutidos nas compras do dia a dia, especialmente em itens essenciais. É uma tentativa de tornar o sistema menos pesado para quem ganha menos. Ao mesmo tempo, o modelo muda a lógica de arrecadação entre os estados. Hoje o imposto fica mais concentrado onde o produto é fabricado. Com a nova regra, a cobrança será no destino, ou seja, onde o produto é consumido. Isso tende a redistribuir melhor os recursos entre as regiões do país.

Pavão destaca que, no longo prazo, essa mudança pode ajudar a reduzir desigualdades regionais. Estados muito produtores, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, deixam de concentrar tanto a arrecadação. Por outro lado, estados mais consumidores passam a ter maior participação. É uma mudança estrutural que mexe com o equilíbrio federativo.

Sobre quem ganha e quem perde, o economista é direto. "Setores industriais tendem a ganhar porque sofrem hoje com imposto acumulado em cada etapa da produção. Tecnologia da informação, comunicação e franquias também podem se beneficiar. O mercado interno como um todo pode ganhar com um sistema mais previsível", afirma. Já os serviços em geral podem sentir mais impacto, porque hoje muitos pagam menos imposto proporcionalmente e podem enfrentar uma carga maior no novo modelo.

Pequenas empresas também entram na lista de preocupação, ainda mais as que dependiam de incentivos fiscais estaduais. Com o fim da chamada 'guerra fiscal' aquela disputa entre estados oferecendo vantagens para atrair empresas deixa de existir. Indústrias que se instalaram em algumas regiões por causa de desconto de imposto precisarão se reorganizar.

E o consumidor? Vai pagar mais em 2026? Pavão acredita que não. "No primeiro momento, a reforma será praticamente neutra. Não deve haver um aumento generalizado de preços por causa dela. A partir de 2027, o que o consumidor deve perceber é mais clareza. O preço na gôndola tende a ser mais previsível, sem tantas distorções escondidas na cadeia produtiva."
Um dos pontos que mais geram expectativa é justamente a transparência. Hoje quase ninguém sabe exatamente quanto paga de imposto em uma compra simples no supermercado. Com o novo modelo, a promessa é que as notas fiscais detalhem melhor os tributos cobrados. "Vai ficar mais fácil entender. A informação será mais clara e o acompanhamento dos preços também", diz Pavão.

Enquanto isso, o Congresso continua atuando para reduzir impactos nos setores mais sensíveis. Foram incluídas regras de transição longas, que vão até 2033, para evitar choque abrupto. Também foram criados regimes diferenciados para áreas como agronegócio, transporte coletivo, saúde e educação. Produtos da cesta básica terão tratamento especial, com alíquota reduzida ou até zerada em alguns casos.

Além disso, há previsão de um Imposto Seletivo para produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como cigarros e bebidas alcoólicas. A ideia é compensar parte da arrecadação e ao mesmo tempo desestimular o consumo desses itens.

O Congresso também criou mecanismos de acompanhamento, com relatórios periódicos sobre os efeitos da reforma e possibilidade de ajustes nas alíquotas ao longo da transição. A intenção é evitar distorções inesperadas e corrigir rumos se algum setor ficar excessivamente prejudicado.

Para as empresas, a grande mudança será tecnológica. A nova estrutura exige sistemas digitais integrados, emissão de notas mais detalhadas e maior controle eletrônico. "É um salto de modernização. Quem estiver preparado vai sair na frente. Quem não se adaptar pode ficar pelo caminho", alerta Pavão. Ele chama esse processo de uma espécie de "darwinismo econômico", em que sobrevivem as empresas mais organizadas e eficientes.
No fim das contas, o economista avalia que a reforma é resultado de um esforço longo, cheio de idas e vindas, mas que coloca o Brasil mais próximo de modelos adotados em países desenvolvidos. "É um sistema mais moderno, com menos papel e mais digitalização. O desafio agora é fazer funcionar bem na prática."

As mudanças mais visíveis devem aparecer aos poucos, conforme o novo modelo substitui de vez o antigo com mecanismos de proteção para quem ganha menos. 

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