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Opinião

Luz que permanece acesa

12 março 2011 - 00h00Bruno Peron
Casos crescentes de pederastia abalam a poderosa Igreja Católica, que perde fiéis diariamente e busca alternativas para reformar seu quadro eclesiástico. A própria instituição revelou testemunhos de quase 500 casos de abuso sexual nos últimos 60 anos somente na Bélgica. A credibilidade dos belgas na Igreja Católica, por conseguinte, despencou no intervalo de pouco mais de um ano. Por esta razão, há uma demanda crescente de des-batismos à Igreja Católica na Bélgica devido à onda de acusações e as evidências de pederastia. Quase metade da população belga declara-se católica e 60% estão batizados. O holofote deste tema focaliza hoje o contexto belga, mas a Igreja Católica sofreu reveses por pederastia também nos Estados Unidos, Irlanda e Alemanha. As denúncias induzem ao diagnóstico de que o problema afeta párocos em todo o mundo. O Vaticano é um Estado pontifício encravado em Roma cujo chefe dialoga com presidentes como se fosse um deles. É um líder religioso e político. Esta legitimidade corrobora a participação política mundial que os Papas sempre tiveram ao longo da história da Igreja Católica. A instituição se afeta ainda mais após as declarações do Papa Bento XVI contra o uso de preservativos e a postura conservadora frente ao aborto e o homossexualismo. Estas questões marcam o impasse de muitos indivíduos na opção religiosa e a renúncia de muitos ao Catolicismo. Sou bastante crítico à Igreja Católica e às religiões de modo geral, que transformam a fé de seus fiéis em comércio e hierarquia. Muitas delas vinculam-se a torturas e opressões históricas, quando não se aliaram aos Estados como religião oficial e botaram outros credos na ilegalidade. Em visita a edifícios governamentais em Brasília, notei que uma capela segue intacta na lateral externa do Palácio da Alvorada, residência presidencial tupinica, enquanto imagens católicas ainda inspiram edifícios públicos, como o Congresso Nacional, num país que se diz laico. Não creio, porém, que o erro de alguns indivíduos seja tão representativo a ponto de macular toda uma instituição. Tampouco estou convencido de que o grave crime de pederastia ocorre somente na Igreja dos católicos, objeto de ataque de falanges que querem apagar este foco de luz que permanece acesa num planeta sem rumo. Frente a um mundo em descontrole e que beira o colapso pelo consumismo e a destruição irreversível da natureza, a Igreja Católica, por piores que sejam alguns de seus porta-vozes e sua história, fala de amor, caridade, irmandade e solidariedade. Antes falar do bem que promover a discórdia e a inimizade entre os povos. Não há grilhões que prendem os fiéis aos bancos da instituição religiosa senão a sede de instrução sobre um dos caminhos para a reforma íntima. Um senhor que já faleceu e está na erraticidade me disse uma vez que as religiões são boas e que maus são os homens. Enquanto se perde tempo tentando julgar, deixa-se de ajudar. Provoca-me ressalvas opinar sobre uma instituição que quis ser a única legítima, já torturou e frustrou a disseminação de saberes por cientistas que desafiaram os dogmas, mas não ignoro que seres iluminados já tenham passado por ela e por tantas outras comunidades que já foram alvo de polêmicas. Há que pedir explicações e afastar os criminosos da instituição a fim de perseverar na sinergia do bem, assim como se extirpam os corruptos da política em vez de desfazer-se dela toda. A mácula da pederastia convoca a Igreja Católica a rever conceitos e posturas a fim de adaptar-se ao mundo dinâmico e à exigência dos fiéis, que hoje dispõem da pluralidade de religiões. É preferível manter esta luz acesa a ceder às tentações da escuridão. BPL

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