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Opinião

OPINIÃO: DE MONTEVIDÉU AO CHUÍ, ENCONTRANDO O ESCULTOR

16 março 2024 - 09h16Por Sergio Maidana, um pantaneiro no Chuy    atualizado em 18/03/2024 às 11h02

Depois de muitos sonhos, resolvemos fazer uma viagem de carro a Argentina e Uruguai, voltando pelo Rio grande do Sul. Como toda a viagem, tudo que você programa é desprogramado pelo tempo e pelos momentos do caminho. Em Montevidéu, recebi através do whatsapp, informações que a estadia em Punta Del Este, Uruguay, havia sido cancelada. Hijo de putana! Fazer o que no dia 31 de dezembro? Bora! pra frente que se joga.

Imediatamente, mudamos os planos. Tínhamos uma reserva para dois dias, qual planejamos visitar a cidade balneário mais badalada do Uruguay (Punta) e a Casapueblo (museu mais visitado na América Latina), casa do artista uruguaio  Carlos Paez Vilaró, tendo várias obras do artista/arquiteto, sendo uma casa com monumental arquitetura, atualmente um hotel Spa famosíssimo na américa latina.

Assim, resolvemos passar por Punta Del Este, visitar Casapueblo e os pontos turísticos da cidade, seguir para dormir em alguma cidade próxima. Mas, em viagem de carro, pode surgir mil e um imprevisto, assim, chegamos pelas duas horas da tarde em Punta (a famosa parada para ver isto ou aquilo, ir no banheiro e aliviar a tensão do tráfego – que estava muito movimentado no dia). Fomos direto a Casapueblo, depois passamos na cidade, tirando fotos nos dedos, e quando vimos era 19h00. O que fazer? Em Buenos Aires e Uruguay no verão, o sol se põe pelas 20h00, e isto faz-nos perdemos o “timing” do tempo.

Bora, bora! E pegamos a estrada (aliás as estradas da Argentina e Uruguay deixa brasileiro com vergonha, são super conservadas, maior parte em pista dupla e, super sinalizadas). Partimos rumo a Rocha, distante 90 km de Punta Del Este, uma cidade muito bonita, muito parecida com as cidades do interior paulista, com uma grande área urbana. Ao procurarmos hotéis, a maioria estavam fechados, era dia 1º de janeiro, e como era feriado, a maioria não estava funcionando. O único hotel aberto estava cobrando o valor de R$ 600,00 a diária de um quarto com ventilador para duas pessos. Imediatamente desistimos de sermos explorados, resolvendo partir para o Chuí, onde pelos “sites” da internet diziam ter “muitos hotéis”.

Partimos para o Chuí, 130 km de Rocha. A estrada parecia  n]ao ter fim até chegar ao destino, aportando lá, por volta das 23h00, antes paramos na Aduana para dar visto de saída do Uruguay (país que pretendo voltar, por ser tão perfeito que chega a assustar). Conseguimos um bom hotel por indicação de outro hotel – estava quase esgotadas as vagas – e por um preço bem camarada. O hotel era no Brasil cujos donos, um era uruguaio e outro brasileiro. Viva la Frontera!!!. Me senti novamente morando na região sudoeste do MS, onde misturamos o Paraguai com o Brasil.

De manhã resolvemos visitar o Fuerte de San Miguel, um forte fundando pelos espanhóis em 1734, tomado e construído pelos portugueses em 1737, retomado pelos espanhóis em1763, reconquistado pelos portugueses em 1808, depois conquistado pelos uruguaios com a independência, deposi, por volta de 1840 foi abandonado até 1930, quando  fizeram a restauração. O lugar é muito bonito, ficando no alto de um morro qual você vê todos os lados, o horizonte dos pampas,  o mar  distante e a lagoa Mirim próxima. Passamos o tempo,  começou a nublar, parecia que viria um temporal. Resolvemos partir para a cidade do Chuy e Chuí – é fronteira seca –  e Wal, a amiga que nos acompanhava na viagem, deu uma ideia: vamos lá na ponta do Chuí!?

Bora! Andamos alguns quilômetros, chegamos num local que tinha uns mastros com a bandeira do Brasil toda esfarrapada (uma vergonha para os gaúchos que não dão a mínima para a bandeira brasileira por ali), e passamos uma curva e já era o Uruguay novamente. Demos uma volta na cidadezinha bonita que tem ali, Barra del Chuy, e comentamos; mas não tem nada aqui, tche! Nada que marca o ponto sul do Brasil.

Voltamos! paramos de novo monumento mastro, dita como a “bandeira nacional mais ao sul do Brasil”, para tirarmos umas fotos. Do outro lado da rodovia um senhor, meio riponga, varria a frente da casa com alguns cachorros amarrados próximo. Ao avistá-lo, pensei comigo que ele não era um morador comum, puxei conversa sobre a bandeira e começamos a conversar meio no grito, ele de um lado da rodovia  e eu do outro.

Atravessei a pista, me acompanhando  Eliane e Wal, e conversamos com o Hamilton, seu primeiro nome. Depois de uma conversa saudável e boa sobre o Chuí, a região, o Forte San Miguel, ele disse que ali era o seu ateliê, era artista visual, escultor em osso de baleia e madeira. Foi show!! Nos convidamos para entrar ao seu ateliê, e aquele experiencia foi como garimpar um diamante no  meio do deserto.

O Ateliê  do Hamilton Coelho tem peças primorosas, com várias esculpidas em osso de baleia. Hamilton é uma joia rara das artes, esquecido no ponto extremo ao sul do Brasil. Após apreciar sua arte, nos convidou para conhecer sua horta, onde plantava de quase tudo e se alimentava dali, mostrou a arte de suas plantações, com plantas raras, e a alegria de viver com pitadas de poesias. Acredita Hamilton que a vida é breve, que você pode melhorar o mundo sim, procurando viver de maneira simples e plantando o que puder para se alimentar.

A arte de Hamilton Coelho merece respeito e admiração, e mais admiração ainda pela insistência em persistir na vida artística, pois pelo que vi, não tem incentivo nem da prefeitura, ou do governo estadual e federal. Aliás, no Brasil quem produz arte é antes de tudo um persistente, pois os agentes culturais tem o costume de  bajular artistas que lhe dará visibilidade perante a mídia, e não o artista nato, estes como Hamilton Coelho. Quem sabe um dia o presidente Lula resolva ir ao Chuí e visitar o Hamilton Coelho, assim a Ministra da Cultura, bebendo um pouco da cultura das esculturas de Hamilton, resolva fazer algo para que o lugar tenha visitação que merece. Não digo que se torne uma Casapueblo, mas que seja visitado pelos brasileiros, quais não recebem nenhuma informação do local na cidade de Chuí-RS, quanto recebem informação no Uruguay para visitar o Fuerte San Miguel. Acorda Brasil! Esta na hora de valorizarmos o que é nosso.

Da visita gravei um vídeo. Hamilton me disse que não gosta de dar entrevista, é tímido. E que de tempo em tempos aparece um ou outro jornalista querendo escrever uma matéria sobre ele, e depois tudo volta ao normal. Me senti feliz pelo destino me ter dado esta oportunidade de conhecer este grande artista brasileiro.

A palavra “Uruguay” foi escrita com “y” em respeito ao nome espanhol e a independência deste país do Brasil.

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