Em entrevista exclusiva ao JD1, o diretor-presidente do Instituto de Meio-Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) André Borges afirmou que o crescimento econômico do Estado precisa caminharjunto com a preservação ambiental. Segundo ele, o equilíbrio passa porplanejamento territorial, licenciamento técnico rigoroso e monitoramento constante dos recursos naturais.
O gestor também destacou os desafios para proteger o Pantanal, as ações de prevenção a incêndios e o papel do Estado diante da expansão da indústria de celulose. A proximidade da COP15 (Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres), em Campo Grande, também foi apontada como oportunidade para projetar Mato Grosso do Sul como referência internacional em sustentabilidade.
Confira a entrevista completa:
JD1. O Estado tem apresentado crescimento no setor do agronegócio. Como equilibrar desenvolvimento econômico e preservação ambiental?
André Borges - Mato Grosso do Sul tem mostrado que crescimento econômico e preservação ambiental não precisam ser objetivos opostos. O equilíbrio passa por três pilares: planejamento territorial, licenciamento ambiental com base técnica e uso de tecnologia para monitoramento. O setor produtivo é essencial para a economia do Estado, mas esse crescimento precisa ocorrer dentro de regras claras, com respeito ao Código Florestal, às áreas protegidas, aos recursos hídricos e às condicionantes ambientais. O papel do IMASUL é justamente garantir que o desenvolvimento aconteça com segurança jurídica e responsabilidade socioambiental.
JD1 - Quais são hoje as principais prioridades do IMASUL para a preservação ambiental em Mato Grosso do Sul?
André Borges - Hoje, eu diria que as prioridades estão concentradas em alguns eixos muito claros: fortalecimento do licenciamento ambiental e da Fiscalização Ambiental, proteção dos recursos hídricos, prevenção e resposta a incêndios florestais, conservação do Pantanal e das unidades de conservação, além da ampliação de instrumentos de gestão como pagamento por serviços ambientais e sistemas digitais de controle e monitoramento.
JD1 - Presidente, com a chegada do outono, o IMASUL já inicia ações de prevenção para o período mais crítico de queimadas no Estado? Como está esse planejamento para este ano?
André Borges - Sim. O planejamento começa antes do período crítico. Mato Grosso do Sul já trabalha com uma estrutura consolidada de prevenção, baseada no Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo, no CICOE e na integração entre IMASUL, Semadesc, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e demais instituições. Os resultados de 2025 mostram que essa estratégia vem funcionando: houve redução de 70,5% na área queimada no Cerrado e de 92,4% no Pantanal, além de queda expressiva nos focos de calor e nas ocorrências atendidas. Para 2026, a lógica é manter a preparação antecipada, reforçar monitoramento climático, inteligência territorial, brigadas, capacitação e resposta rápida.
JD1 - Sobre o Pantanal, quais são hoje os maiores desafios para preservar o Bioma? Existem programas específicos voltados para não prejudicar quem vive ou produz na região?
André Borges - Os maiores desafios hoje envolvem incêndios florestais, eventos climáticos extremos, pressão sobre os recursos naturais e a necessidade de conciliar conservação com atividades produtivas compatíveis com o bioma. E essa conciliação é essencial. A preservação do Pantanal não pode ser feita contra quem vive ali, mas com quem vive e produz ali. Um exemplo importante é o PSA Bioma Pantanal, instituído em 2025, que busca incentivar a manutenção dos serviços ambientais, promover conservação e restauração ecológica e apoiar o desenvolvimento sustentável. O programa conta com financiamento do Fundo Clima Pantanal, que, segundo o Estado, dispõe de R$ 40 milhões.
JD1 - Presidente, Mato Grosso do Sul vem se consolidando como o chamado “Vale da Celulose”, com novas fábricas sendo licenciadas. Como o Instituto garante que esse crescimento econômico não gere impactos ambientais irreversíveis no Estado?
André Borges - O IMASUL garante isso exigindo estudos robustos, análise técnica criteriosa, transparência e condicionantes ambientais proporcionais ao porte do empreendimento. Em empreendimentos de grande impacto, como fábricas de celulose, o processo envolve EIA/RIMA, audiências públicas, avaliação dos efeitos sobre água, solo, biodiversidade, comunidades e infraestrutura, além do acompanhamento posterior por meio de condicionantes, monitoramentos e fiscalização. O fato de haver investimentos relevantes no setor não reduz o rigor técnico; ao contrário, aumenta a responsabilidade institucional. O portal do IMASUL reúne os RIMAs desses empreendimentos e mostra que esse licenciamento é público e estruturado.
JD1 - O que pesa mais no licenciamento de uma fábrica de celulose: o impacto ambiental ou o potencial econômico do empreendimento?
André Borges - No licenciamento, o critério decisivo é a viabilidade ambiental dentro da legalidade. O potencial econômico é relevante para o Estado, mas não substitui a obrigação de comprovar que o empreendimento é ambientalmente viável, que seus impactos foram adequadamente identificados e que haverá prevenção, mitigação, compensação e controle. O licenciamento ambiental, nos termos da CONAMA 237, é um procedimento técnico e jurídico voltado justamente a verificar se a atividade atende às condições legais e técnicas. Então, objetivamente: o peso determinante é o impacto ambiental e a capacidade de gerenciá-lo de forma segura.
JD1. O que o cidadão comum pode fazer para ajudar na preservação ambiental no Estado?
André Borges - O cidadão tem um papel enorme. Pode evitar queimadas e denunciar focos irregulares, respeitar a legislação de pesca e de fauna, usar corretamente os canais oficiais de licenciamento e autorização, apoiar práticas de descarte adequado de resíduos e participar mais das discussões ambientais do seu município e da sua comunidade. Preservação ambiental não é responsabilidade só do poder público; ela depende de corresponsabilidade social. E quando a população colabora, a prevenção funciona melhor e os danos diminuem.
JD1. Muitos produtores reclamam da burocracia no licenciamento ambiental. Há medidas para tornar o processo mais rápido?
André Borges - Sim, e essa é uma preocupação legítima. O desafio é simplificar sem perder qualidade técnica. O IMASUL já dispõe de ferramentas como o SIRIEMA, que permite solicitação e acompanhamento de processos pela internet, emissão de taxas e integração de informações; além disso, a municipalização da gestão ambiental e a capacitação de equipes locais ajudam a tornar os fluxos mais ágeis e próximos da realidade de cada região. O caminho que defendemos é menos papel, mais digitalização, mais padronização e mais clareza de exigências — sempre preservando a segurança ambiental e jurídica.
JD1. A realização da COP15 em Campo Grande pode colocar Mato Grosso do Sul como referência ambiental no cenário internacional? Qual é o papel do IMASUL nesse processo e como o Estado pode aproveitar esse evento para fortalecer sua imagem como referência em sustentabilidade e preservação ambiental?
André Borges - Sem dúvida. A COP15 das Espécies Migratórias, marcada para 23 a 29 de março de 2026, em Campo Grande, projeta Mato Grosso do Sul para uma vitrine internacional extremamente relevante. O fato de o Estado sediar um evento dessa dimensão tem relação direta com a importância do Pantanal para espécies migratórias e com a agenda ambiental que vem sendo construída aqui. O papel do IMASUL é contribuir com a base técnica, a governança ambiental, a conservação, o licenciamento responsável e a demonstração concreta de políticas públicas em andamento. O Estado pode aproveitar esse momento para mostrar que é possível unir produção, biodiversidade, ciência, conservação e inovação em uma mesma estratégia de desenvolvimento sustentável.
JD1. Como tem sido, pessoalmente, a responsabilidade de tomar decisões que impactam diretamente o meio ambiente e também a economia de Mato Grosso do Sul?
André Borges - É uma responsabilidade muito grande, porque cada decisão precisa considerar não apenas o presente, mas os efeitos de longo prazo sobre o território, a população e as futuras gerações. Quem está à frente de uma instituição ambiental precisa ter serenidade, base técnica, respeito à lei e senso de equilíbrio. Não se trata de decidir entre economia e meio ambiente, mas de assegurar que o desenvolvimento aconteça dentro de limites sustentáveis. Essa é uma função que exige firmeza, diálogo e compromisso permanente com o interesse público.
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André Borges, diretor-presidente do Imasul. (Reprodução)



