Opinião
PROPRIEDADES CULTURAIS EM RISCO
19 dezembro 2010 - 00h00Bruno Peron Loureiro As modalidades de roubo e contrabando de bens e produtos estão cada vez mais sofisticadas: antes se roubavam objetos; hoje devemos cuidar até do pensamento e a criação.
Comemorou-se, em 14 de novembro de 2010, o 40º aniversário da Convenção de 1970 que prescreve Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência IlÃcitas de Propriedade Cultural.
Aumenta o aparato de segurança em centros culturais, exposições e museus pelo valor alto com que se negociam obras famosas no mercado negro. Este tipo de crime é crescente, transnacional e tende a envolver grupos pequenos, por isso a facilidade de coordená-los entre vários paÃses.
Cento e vinte Estados ratificaram a Convenção de 1970, cujo número reflete que a preocupação com o tema assume proporções globais. As escavações e o comércio ilegais de bens arqueológicos assombram a comunidade que luta pela punição e o fim de crimes contra o patrimônio cultural.
A Convenção de 1970 atribui responsabilidades aos Estados para elaborar campanhas educativas, punir os criminosos, restituir propriedades culturais ilÃcitas a seus paÃses de origem, e cooperar internacionalmente com outros signatários.
O acordo de 1970, entretanto, não é inédito para coibir este gênero de delitos. Adotara-se, em 1954, a Convenção de Haia para a Proteção de Propriedade Cultural em perÃodos de conflito armado, o que desencadeou, dezesseis anos mais tarde, a decisão pela proteção também em tempos de paz.
A comunidade internacional possui uma lista de objetos desaparecidos que orienta as buscas. Como instrumento complementar da Convenção de 1970, o Instituto Internacional pela Unificação do Direito Privado (UNIDROIT), organização intergovernamental com sede em Roma, Itália, criou em 1995 a Convenção sobre Objetos Culturais Roubados ou Exportados Ilegalmente. Nela, os Estados comprometem-se a restituir também objetos culturais não listados oficialmente.
A criminalidade não perdoa nem os objetos e propriedades culturais. Esta atividade criminosa profissionaliza-se internacionalmente. Tapetes, esculturas e pinturas de artistas renomados e outros objetos de alto valor simbólico em paÃses de tradições antigas comercializam-se e passam a compor residências e coleções de encomendadores, assim como se fazem com naturalidade boletins de ocorrência de veÃculos roubados diariamente no Brasil e que cruzam fronteiras com toda facilidade ou estacionam-se em galpões clandestinos para desmanche e contrabando de peças.
Rouba-se até cabelo, fio de cobre e tijolos de construções civis no Brasil. Pelo menos aqui não causaria tanto espanto - aos cidadãos vacinados de tanto desvario - o descortino de redes organizadas em torno do tráfico de propriedades culturais. Ademais, as pichações com fins de vandalismo, destruições de telefones públicos e assentos nos ônibus e metrôs comprovam a negligência com patrimônios culturais e públicos de uma meia-cidadania.
Apesar de a finalidade da Convenção de 1970 ser a criação de normas sobre objetos de alto valor econômico e simbólico, ampliei a perspectiva de "propriedade cultural". Não se constrói nenhuma casa ou monumento em praça pública sem o toque cultural de quem arquitetou, levantou e pintou.
O roubo de propriedades culturais, conforme entende a Convenção de 1970, não é novidade nem hoje nem quatro décadas atrás. Há séculos, cidades inteiras eram pilhadas por conquistadores, que levavam seus bens culturais quando não os destruÃam para impor a sua cultura. O espanhol Hernán Cortez pisou sobre Tenochtitlán, a capital asteca, em 1521 segurando o rosário da impiedade.
A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), por fim, organizará dois eventos que reunirão especialistas sobre tráfico e restituição de propriedade cultural: um em 31 de janeiro de 2011 e outro em março de 2011.
Quem sabe novas ideias apareçam para coibir esta prática.
Antes de que novas práticas perpetuem aquelas ideias.
http://brunoperon.com.brReportar Erro
Deixe seu Comentário
Leia Também
Mais Lidas

Justiça
Justiça condena soldado da PMMS por vÃdeo em rede social com piada gravada em oficina

PolÃcia
Força Tática desmantela esquema de 'disk drogas' em Campo Grande e prende três

Internacional
Mulher é morta por elefante após provocar animal na NamÃbia

PolÃcia
Facção usava propina para arremessar drogas e celulares em presÃdio de Campo Grande