Nessa quarta-feira, o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, poderá decidir o início da redução do programa Quantitative Easing, que injeta mensalmente US$ 85 bilhões no mercado para estimular a recuperação da economia do país. Ao contrário do ocorreu no meio do ano, quando a medida foi sinalizada e o dólar disparou no Brasil, os mercados agora não se estressaram com nova volatilidade.
A análise predominante é de que o fim dos estímulos não vai causar uma grande abalo na economia brasileira pois os mercados se prepararam para esse momento. Segundo analistas de instituições financeiras, o chamado “tapering” já foi precificado, com ajustes nos portfólios para proteção dos investimentos em qualquer um dos três mais prováveis cenários de decisão do Fed: manter o programa até a economia do país ter melhores indicadores econômicos, iniciar a sua redução imediata ou anunciar a redução com data marcada para o ano que vem.
Ilan Goldfajn, economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco, acredita que a normalização da política monetária norte-americana irá ocorrer com impacto menor nos emergentes. Ele observa que no Brasil, especialmente, os juros já subiram muito — em outros países da América Latina, mesmo com câmbio mais depreciado, alguns bancos centrais cortam juros. "A alta dos treasuries explica três quartos do movimento de juros no Brasil em 2013. As taxas subiram mais que o justificado pelo mundo", diz.
Pedro Bastos, presidente da gestora de recursos do HSBC, acha que o início da suspensão do programa do Fed vai reduzir a volatilidade dos mercados. "Os ativos brasileiros já corrigiram muito desde maio. Os leilões de swap de dólar do Banco Central eliminaram o overshooting”, afirma. Ele observa que existe um prêmio de risco hoje na curva de juros longos no Brasil, que vai cair assim que o tapering começar.
No mercado acionário, o recuo do Ibovespa é apontado por analistas como um indício do ajuste feito por investidores em suas carteiras no Brasil. Marcio Guedes, diretor da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), não crê em grande volatilidade no mercado de ações com a retirada dos estímulos. “Não vejo nada dramático. O capital começou a migrar há meses. Até porque, apresentar o tapering em abril e iniciá-lo oito meses foi parte de uma estratégia para evitar grandes volatilidades”, entende Guedes.
Para a XP Investimentos, boa parte dos efeitos de uma taxa de juros maior nos Estados Unidos já foi precificada na bolsa brasileira. “Agora é o ajuste fino. Talvez no futuro olharemos para o tapering sem entender o porquê de tanto estresse. É até um pouco alentador se começar agora. Porque daí haverá mais clareza sobre os próximos passos depois desse experimento monetário”, afirma Daniel Cunha, economista da casa. O desafio do Fed para o futuro, aponta Cunha, é de comunicação. “Eles têm de apresentar as metas para o programa de cortes. Criação de emprego e o crescimento do PIB devem ser usados para determinar a cadência do desmonte”, diz.
Pedro Galdi, analista chefe da SLW Corretora, também trabalha com a expectativa de início da retirada dos incentivos agora. “Indicadores de emprego e de criação de postos de trabalho vieram acima da expectativa de novo em dezembro, dando plena liberdade para o Fed anunciar a mudança na quarta-feira. Acredito que o primeiro corte será de US$ 10 bilhões”. Na visão de Galdi, a movimentação dos estrangeiros no mercado futuro de índices indica que eles já se distanciaram da bolsa brasileira. “Eles tinham saldo em torno de 20 mil contratos e no fim da semana passada estavam com 4 mil apenas”, afirmou.
Se o Fed não decidir agora sobre a suspensão do programa, os analistas de bolsa prevêm que o Ibovespa deverá recuperar parte dos pontos perdidos nos últimos dias do ano. “Caso não anunciem, poderemos ter duas semanas com o espírito natalino patrocinando o rali de fim de ano na bolsa”, prevê Cunha, da XP. Para Felipe Prata, sócio da Nest Investimentos, há chance até de o Ibovespa se recuperar. “Me pergunto por que o Fed, que é muito técnico, iniciaria o tapering na semana mais importante do ano para o comércio. Esperou até aqui e pode aguardar os dados de vendas em dezembro”, conjectura Prata.
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Para Goldfajn (foto), fim do programa terá menor impacto nos emergentes; Galdi espera corte de US$ 10 bi. (Foto: divulgação/BM&FBovespa;) 


