Janet Cooke ganhou o mais cobiçado troféu do jornalismo norte-americano! Só foi desmascarada, dias após, porque a divulgação de seu perfil profissional fez com que a universidade onde obtivera o bacharelado suspeitasse de que tudo mais que ela dissera de si mesma era falso. E a teia das mentiras foi se rompendo. O Post divulgou o que ficara sabendo, extraiu a confissão da moça, e pediu a retirada do prêmio.
Pois bem, existem mentiras de todo tipo, mentiras piedosas, mentiras avulsas. Existem, também, como no relato acima, mentiras que envolvem compromissos. Estas últimas são construÃdas dentro de uma rede de solidariedade. Precisam de apoios. Precisam de quem as repita e de quem as referende.
Agora, passo ao Brasil. São mentiras assim que estão em curso no nosso paÃs, há bom tempo. Graças a elas, a Nação é empacotada como besouro colhido em teia de aranha. Usadas como instrumento da polÃtica, essas mentiras são multiplicadas graças à teia de solidariedade entre interesseiros mentirosos, que acabam envolvendo nela a nossa liberdade e a nossa vitalidade como indivÃduos e cidadãos. Os compromissos firmados em torno das mentiras paralisam a Nação. Não esqueçamos: a aranha tem objetivo final bem conhecido em relação à sua presa.
PoderÃamos usar a fórmula e a cadência de certos preceitos mágicos incluÃdos na Constituição Federal e afirmar que, aqui no Brasil, a mentira é direito de todos. E dever do Estado. De fato, nossa legislação protege o mentiroso. E ninguém mente mais à Nação do que o Estado. Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma mentia para trás, vangloriando-se de inexistentes realizações e conquistas dos governos petistas. Mentia para a frente, anunciando um futuro brilhante para o próximo quadriênio. AtribuÃa, falsamente, intenções perversas a seus opositores. Essas mentiras eram repetidas, paÃs afora, por uma rede de multiplicadores formada por centenas de milhares de ativistas.
Findo o pleito, mantida a cadeira e a caneta, a presidente passou a fazer nada do que havia prometido. E foi adiante. Jogou inteiro sobre a sociedade o saco de maldades que, durante a campanha, ela mesma se encarregara de pendurar nas costas de seu adversário. Mesmo assim, são poucos, muito poucos, os que erguem a voz para denunciar que caÃmos numa rede de mentiras ante as quais nada podemos fazer porque, como disse, no Brasil, a mentira é direito de todos. E dever do Estado.
Percival Puggina - membro da Academia Rio-Grandense de Letras.Reportar Erro
Deixe seu Comentário
Leia Também

Opinião
Criminalizar jornalistas é erro jurÃdico e ameaça à democracia, diz presidente da OAB-RJ

Opinião
OPINIÃO: No xadrez polÃtico, o tabuleiro de 2026 começa a se desenhar

Opinião
Mandato, Representatividade e Disciplina Partidária: A Função Sistêmica da Janela Partidária

Opinião
OAB/MS contesta decisão do TJMG e pede revisão em instâncias superiores

Opinião
Carnaval como gramática histórica da cultura popular: pertencimento, memória e a construção do povo

Opinião
Dino vota por afastar Lei da Anistia para crimes permanentes

Opinião
SÃlvio Santos, Collor e Bolsonaro: decisões eleitorais e a construção da democracia brasileira

Opinião
OPINIÃO: CPF à luz do dia: esconder dados enfraquece a democracia

Opinião






