Em "O Agente Secreto", escolhido para representar o Brasil no Oscar 2026, Kleber Mendonça Filho subverte a noção de desfecho. O filme provoca a incômoda sensação de “já acabou?”, usando-a como ferramenta política e poética.
Ambientado no Recife de 1977, o longa retrata os anos de chumbo com uma narrativa que mistura suspense e melancolia. Diferente de obras que mostram a ditadura como vilão explícito, aqui o regime é uma força difusa, um pano de fundo que envenena o cotidiano.
Wagner Moura vive Marcelo, um ex-professor foragido. O título é a primeira provocação: ele não é um espião, mas um "agente secreto" de si mesmo. A trama se desenrola numa pensão que abriga dissidentes, enquanto Marcelo busca um documento no Instituto de Identificação – ironia cruel para quem tenta apagar suas pegadas.
A tensão culmina em um tiroteio, mas a reviravolta está na elipse. A história salta décadas, para o presente, onde pesquisadoras reconstroem a trajetória de Marcelo a partir de arquivos. Sua morte é uma nota de rodapé: revelada friamente por um recorte de jornal. A violência do Estado é exposta pelo apagamento burocrático.
O último ato é um golpe melancólico. Uma pesquisadora encontra Fernando, o filho de Marcelo, agora um médico adulto. O encontro ocorre em um centro de doação de sangue, no mesmo prédio de um antigo cinema – uma metáfora poderosa para um país que tenta estancar suas feridas. Quando ela entrega a Fernando um pen drive com a história de seu pai, ele hesita. Suas palavras – "ele nunca apareceu para me buscar" – ecoam como a verdadeira tragédia: a ditadura roubou futuros e memórias.
Kleber confessou que tentou um final convencional e falhou. Sua opção por um desfecho que privilegia a documentação sobre a dramatização é a essência do filme. O "já acabou?" do espectador é o eco de uma pergunta que o Brasil ainda precisa responder.
Reportar ErroDeixe seu Comentário
Leia Também

OPINIÃO: No xadrez político, o tabuleiro de 2026 começa a se desenhar

Mandato, Representatividade e Disciplina Partidária: A Função Sistêmica da Janela Partidária

OAB/MS contesta decisão do TJMG e pede revisão em instâncias superiores

Carnaval como gramática histórica da cultura popular: pertencimento, memória e a construção do povo

Dino vota por afastar Lei da Anistia para crimes permanentes

Sílvio Santos, Collor e Bolsonaro: decisões eleitorais e a construção da democracia brasileira

OPINIÃO: CPF à luz do dia: esconder dados enfraquece a democracia

Bosco Martins, jornalista e escritor (Divulgação)



