Ninguém cola nas provas e quando um aluno se levanta, os outros avisam o professor Osvaldo Fernando Moreira, que é cego e cadeirante. Não é exatamente uma denúncia, é mais um auxílio, na Escola Municipal Jovelina Morateli, em Rio Claro, interior de São Paulo.
São 19 ao todo, 38 olhos atentos de meninos e meninas entre 10, 11 anos de idade que aprenderam na escola muito mais do que os conteúdos tradicionais: tornaram-se experts em aceitação às diferenças. “Na minha sala não existe apelido ou chacota. Ninguém aponta ou ri dos defeitos dos outros porque sabem que eu não enxergo e sou cadeirante. Percebem que humilhar o outro não tem graça, não faz sentido”, diz Osvaldo.
Fernando, como é conhecido leciona, ao lado de uma professora auxiliar, as cinco disciplinas do 5º ano do ensino fundamental: português, matemática, história, geografia e ciências.
Tem 31 anos e há 18 quase morreu com a síndrome de Devic, doença neurológica que lhe tirou a visão e a força das pernas, que não o sustentam em pé por muito tempo. "Foram várias crises. Na primeira, eu me recuperei rapidamente. Daí em diante, cada vez que eu tinha um surto, o retorno era lento e nunca mais fiquei 100%”, recorda.
As sequelas ficaram restritas aos olhos e à medula espinhal. Sente-se forte psicologicamente e fisicamente, até porque precisa de músculos para encarar a falta de acessibilidade de seu município, com calçadas destruídas e construções que ignoram pessoas como ele.
Também não ficou revoltado. "Quando percebi, já não tinha mais jeito: estava cego e sem andar." Então tocou a vida. “Só tenho certeza de que não posso fazer algo depois de experimentar. Não desisto de nada fácil”, afirma. Seguindo esse lema, mora sozinho, cozinha e limpa todos os cômodos sem a ajuda da mãe – que, apesar de morar na mesma rua, custou a aceitar que ele tivesse sua prória casa. "Comprei escondido e só a avisei quando já ia me mudar."
A mãe o ajuda em limpezas pesadas. Ela e os três irmãos, além de amigos, fazem ainda pequenos serviços como compras no supermercado e estão sempre por perto quando Fernando precisa. O professor também dá aula de gratidão: fez questão de que essa menção às pessoas próximas fosse incluída na reportagem.
O que consegue ou não fazer é uma dúvida comum na sala de aula. “Já me perguntaram se consigo tomar banho ou se tomo água. As coisas mais engraçadas que você imaginar”, diverte-se.
Os alunos costumam lhe entregar objetos aleatórios e “perguntam, professor, o que você está segurando?” Nem sempre acerta, mas todas as vezes aceita o desafio.
Fernando está estudando para um terceiro concurso. Quer assumir outra turma, no horário da manhã. Hoje trabalha de 13h às 17h30.
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As sequelas ficaram restritas aos olhos e à medula espinhal (Reprodução/Internet)



