Com o cinema brasileiro voltando a ocupar espaços de destaque no cenário internacional, com várias indicações ao Oscar e outras premiações por dois anos seguidos, o reflexo começa a ser sentido também fora do eixo Rio-São Paulo. Em Mato Grosso do Sul, escolas e grupos de teatro relatam aumento na procura por aulas de atuação, impulsionada pelo desejo de crianças, jovens e adultos de se aproximarem das artes cênicas, seja no palco ou nas telas.
Duas escolas de atuação, muito e tradicionais de formação artística em Campo Grande são o Grupo Casa e a Escola e Companhia de Teatro Adote, que, apesar de trajetórias diferentes, compartilham a mesma constatação: o teatro segue sendo a base da formação do ator, mesmo em tempos de cinema em alta.
Sonhos que começam cedo
No Grupo Casa, que completa 12 anos de existência em 2026, histórias como a de Olívia Arruda Canale Leite, de apenas 9 anos, ajudam a ilustrar como o teatro impacta desde cedo. Aluna desde 2024, ela conta que se matriculou assim que surgiram as aulas. “Eu gosto muito de fazer teatro. Gosto de poder atuar, fazer peças, e também porque eu consegui fazer mais amigos. Antes eu tinha muita vergonha de falar com as pessoas e agora isso melhorou bastante”, relata.
O ambiente acolhedor da Casa também é apontado como diferencial. “Aqui é bem aconchegante, todo mundo trata a gente muito bem. Não tem nada que eu não goste aqui”, diz Olívia, que sonha em ser atriz desde pequena e já participou de espetáculos apresentados pelo grupo.
Outra aluna, Eduarda de Souza Rosa, de 13 anos, está no teatro há seis anos. Para ela, a mudança foi clara. “Antes eu era muito tímida. Hoje consigo apresentar trabalho na escola sem ficar nervosa”, afirma. A mãe, Ana Paula Silveira de Souza Rosa, professora, confirma a transformação. “Foi nítido o desenvolvimento dela. O teatro ajudou na expressão, na comunicação, na criatividade e até na escrita”, conta.
Fundado em 2014 pela diretora Lídia Tristão Prieto, o Grupo Casa já formou mais de 5 mil alunos. Segundo o coordenador pedagógico e ator Leonardo de Medeiros, a recente valorização do cinema nacional reforça algo que o grupo sempre defendeu.
“Eu não acredito nessa divisão entre ator de teatro e ator de cinema. São linguagens diferentes, mas o ator é um só. Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Wagner Moura começaram no teatro. Existe estudo, anos de trabalho, não é dom, é aprendizado e técnica”, destaca.
Leonardo explica que, em 2025, o grupo abriu sua primeira turma de cinema e produziu o primeiro longa-metragem. “Essa visibilidade do cinema brasileiro incentiva, sim, a procura. As pessoas passam a entender a importância da formação e do estudo”, afirma.
Tradição e resistência no Adote
Com uma história ainda mais longa, a Escola de Teatro Adote existe desde 2002 e hoje atende mais de 100 alunos em nove turmas. Após a morte da fundadora Beth Terras, em 2024, a direção passou para Daniel Smidt, que ajudou a manter e ampliar o projeto.
“A gente passou pela pandemia com três ou quatro alunos. Hoje, o público cresceu muito”, relata. Para ele, o cinema aquecido também ajuda a fomentar ainda mais a procura pela atuação. Para 2026, já existem nove turmas formadas para as aulas, previstas para começar em breve.
Apesar do crescimento, Daniel destacou a falta de incentivos para o setor. Que poderiam auxiliar ainda mais a manter tudo funcionando. “Sempre deu certo. Sai com dificuldades, mas a gente vai tentando, mesmo com os nossos próprios recursos. Queremos sim ganhar editais, ter mais investimentos, mas são coisas ainda muito complicadas”, lembrou.
Aluna da escola há mais de 10 anos, Giovanna Zottino, leva a atuação como uma forma de aprendizado para vida. Conhecida na área como ‘senhora Adote’, ela foi uma das alunas mais antigas da escola.
“O teatro e o cinema são coisas diferentes, mas quando falamos de atuação, sempre podemos unir as duas coisas. É como se o embrião do ator fosse o teatro e o cinema uma especialização. não tem como falar só de teatro e não falar de cinema. Essas duas artes que envolvem a atuação são muito detalhistas, muito dinâmicas, muito potentes”, lembrou a atriz.
Assim como Daniel, ela lembrou da dificuldade de se inserir nesse meio e tentar fugir do óbvio, isso porque a maioria das leis de incentivos as artes sul-mato-grossenses são voltadas para a cultura do estado, deixando ainda mais complicado conseguir vencer editais caso fuja deste tema. “Falta uma abertura do campo-grandenses e do sul-mato grossense de entender que a gente pode fazer outras coisas além de falar sobre a gente, sobre o Pantanal. Não dizendo que não é importante, porque é, afinal é a nossa cultura. Mas não é só isso, tem romance, aventura, ação e muito mais coisa a ser explorada que ajudaria a fomentar a cultura no estado”, detalhou.
A professora Kiohara, que atualmente trabalha com turmas infantis na Adote, detalhou que apensar de não haver tanta distinção entre os profissionais, existem alguns que conseguem trabalhar apenas com o cinema. “Um ator de teatro consegue trabalhar no cinema. O contrário nem sempre acontece, porque o ator de teatro é versátil, se encaixa em muita coisa e muitas vezes o do cinema fica muito engessado naquilo”, diz.
Ela reforça que a procura tem aumentado, principalmente entre adultos que buscam vencer a timidez e entre crianças com dificuldade de comunicação. “Eles chegam travados, com vergonha, dificuldade de imaginar. Ao longo das aulas, isso muda completamente. Já tive aluno que não falava e conseguiu se apresentar no palco”, conta.
Um reflexo que vai além do Oscar
Mais do que a possibilidade de chegar a grandes premiações, o crescimento do cinema brasileiro tem ampliado o repertório cultural e despertado novos interesses. Para Ana Paula, mãe da aluna Duda, esse movimento é fundamental. “Quando o cinema brasileiro ganha visibilidade, mostra que existe estudo, seriedade e uma base sólida no teatro. Isso inspira e valida sonhos”, afirma.
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