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Internacional

Escândalo de espionagem pela polícia de Israel leva a inquérito e pode atingir políticos

A apuração também apontou para membros de uma unidade cibernética de operações especiais da polícia de Israel

11 fevereiro 2022 - 14h30Méri Oliveira, da FOLHAPRESS

Os escândalos internacionais envolvendo o software de espionagem Pegasus, da empresa NSO Group, eram algo que os israelenses observavam com preocupação, mas de longe -mais ligados a episódios controversos como o do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi do que à vida cotidiana.

Agora, tudo mudou. Em uma série de reportagens no último mês, o jornal Calcalist vem revelando que o Pegasus também foi usado em Israel para a polícia espionar, sem autorização judicial, centenas de pessoas, incluindo ministros, prefeitos, servidores, jornalistas, empresários e membros da sociedade civil, como ativistas.

No ano passado, depois da revelação de que líderes mundiais a exemplo do presidente da França, Emmanuel Macron, foram alvos em potencial da Pegasus, a direção da NSO disse que a empresa não operava em telefones israelenses e americanos. As reportagens de agora, porém, apontam a contradição, fazendo o tema reverberar há semanas.

A polícia nega veementemente qualquer uso indevido do software, mas o ministro da Segurança Pública, Omer Barlev, decidiu criar um grupo com membros do Gabinete de Segurança do país para apurar o caso. O clamor, no entanto, é pela abertura de uma comissão de inquérito independente, que investigue o possível envolvimento do alto escalão da polícia -ou da política- na espionagem ilegal.

"O Pegasus e ferramentas semelhantes são importantes na luta contra o terrorismo e crimes graves, mas não se destinam a campanhas de 'phishing' direcionadas ao público ou a servidores israelenses, e é por isso que precisamos entender exatamente o que aconteceu", disse o primeiro-ministro Naftali Bennett.

"Phishing" é uma tática comum de hackeamento, que consiste no envio de mensagens com links ou anexos maliciosos; se a vítima clicar no conteúdo, aciona o download de um malware (programa criado para infectar dispositivos eletrônicos) que passa a espionar o aparelho. O Pegasus, porém, é capaz de acessar smartphones sem que o usuário precise clicar em links maliciosos ou tenha comportamento descuidado na internet.

A série jornalística do Calcalist aponta que a polícia não apenas tem o Pegasus em mãos desde 2013 como já utilizou o sistema várias vezes desde então, para espionar dezenas de pessoas. Uma das reportagens mostrou que a ordem para realizar a vigilância foi dada por policiais de alto escalão sem mandado judicial ou supervisão de um juiz.

A apuração também apontou para membros de uma unidade cibernética de operações especiais da polícia de Israel. A Sigint (sigla para Signals Intelligence) é uma unidade que existe em forças de segurança de diversos países. O grupo é responsável pela coleta de informações por meio da interceptação de sinais de comunicação entre pessoas ou máquinas. Suas atividades são confidenciais.

O Pegasus teria sido usado, por exemplo, para buscar indícios de pagamento de propina no celular de um prefeito em meio a uma investigação sigilosa. Mas o que mais chocou o público foi a revelação de que a polícia hackeou celulares de líderes de manifestações de grupos minorizados, como pessoas com deficiência e imigrantes, para evitar que eles bloqueassem ruas em marchas e passeatas.

Outros afetados, segundo o Calcalist, seriam testemunhas de um dos três indiciamentos contra Binyamin Netanyahu, o chamado "Caso 4000", que envolve uma suposta troca de favores entre o ex-premiê e um magnata da comunicação. Bibi, como é conhecido o político, enfrenta um julgamento que ainda pode ser arrastar por meses -ou anos.

Netanyahu nega qualquer envolvimento na espionagem policial. Para se afastar de qualquer interpretação de que teria sido mandante do uso do Pegasus, ele aponta que seu filho mais novo, Avner, também está na lista dos hackeados. Os advogados do ex-premiê pediram que os processos contra ele sejam suspensos em razão da publicação das reportagens, e o político engrossou o coro pela criação de uma CPI.

"Netanyahu identificou corretamente que as descobertas de uma investigação podem servir a ele em um nível criminal pessoal ao apresentar sua família como vítima", diz a analista política Tal Schneider.

Mas alguns dos casos mais graves revelados pelo Calcalist estão justamente ligados a ativistas de manifestações contra o ex-premiê quando ele ainda estava no poder -ele deixou o cargo em junho de 2021, depois de 12 anos. Os protestos ganharam força após a realização de quatro eleições em dois anos, o que levou à acusação de que Netanyahu tentava se manter no poder convocando pleito após pleito.

Um dos espionados era um dos líderes desse movimento. Com ajuda do Pegasus, a polícia teria descoberto que o cidadão, que é casado, mantém encontros íntimos com outros homens. A decisão teria sido de guardar essa informação para ser usada contra ele em uma eventual investigação futura.

De acordo com uma das reportagens, alguns alvos de espionagem eram de fato considerados perigosos, mas outros receberam esse rótulo quando deixaram aparente que suas opiniões políticas se opunham às do governo de Netanyahu.

Na última terça (8), a direção da polícia apresentou ao premiê Naftali Bennett um relatório afirmando que, dos 26 nomes listados pelo Calcalist, 3 foram considerados para esse tipo de espionagem, sempre com autorização judicial, e só 1 foi realmente hackeado.

Roni Alscheich, chefe da polícia israelense de 2015 a 2018, disse em sua primeira declaração sobre o assunto que as reportagens estão "desconectadas da realidade". Ele é apontado como responsável pelo uso do Pegasus pela polícia --o malware teria passado a ser utilizado após sua nomeação ao cargo.

Antes de chefiar a polícia, Alsheich foi diretor da Agência de Segurança de Israel (Shin Bet). Ele foi indicado ao posto por Gilad Erdan, então ministro da Segurança Interna e um dos políticos do partido conservador Likud mais próximos a Netanyahu.

A NSO admite que tem 60 clientes governamentais em 40 países, e o uso do Pegasus se reflete em imbróglios políticos e protestos de rua em locais como México e Índia. Após as críticas crescentes, Israel reduziu de 102 para 37 a lista de nações elegíveis para comprar tecnologias de vigilância cibernética da empresa -o Brasil não está nela. Em dezembro, à Folha de S.Paulo, o chanceler Yair Lapid disse apenas que "Israel tem discutido esse assunto com o governo brasileiro".

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