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Opinião

Armas inúteis para a cultura da Paz

21 outubro 2012 - 00h00Carlos Alberto dos Santos Dutra

Recebi ontem um e-mail daqueles "repassando". Antes de deletá-lo dei uma espiada. E lá estava o impropério. Exaltava uma suposta carta publicada no jornal O Globo de um senhor chamado Gil Cordeiro Dias Ferreira, que iniciava dizendo assim: “Que venha o novo referendo pelo desarmamento. Votarei NÃO, como da primeira vez, e quantas forem necessárias”. A carta continuava com outras considerações, mas o aspecto que me interessa é este: o desarmamento.

A propósito, conferi: a carta foi publicada no jornal carioca no dia 18 de abril de 2011. A informação está no blog http://gilferreira.blogspot.com.br/ do autor. Lá também fico sabendo tratar-se o missivista de um ex-marinheiro, hoje na iniciativa privada e que possui dezenas de trabalhos publicados sobre assuntos militares, história, geografia, política e ficção, em periódicos especializados e jornais do Rio de Janeiro e de outros estados. Conquistou também diversos prêmios literários na Escola Naval e Clubes Naval e Militar. Trata-se, portanto, não de um cidadão qualquer, mas de alguém que sabe o que está dizendo.

Ainda que eu faça redobrado esforço para compreender os ideais bélicos desse patriota, entendo que ainda assim eles são equivocados. Tal sentimento explícito que o faz agarrar-se tão ferrenhamente às armas entendo que só pode ser explicado pela vocação que este jovem abraçou em período tão sombrio para as liberdades no Brasil (sentou praça de 62 a 96), e isso, cogito, fê-lo depositar nas armas toda a esperança/segurança que sonhou para o seu País: transformou-as em libelo de sua causa de fé.

Inobstante, ele não está sozinho nesta batalha. Outra piscadela no Google e lá encontramos aberrações maiores: o site http://www.desarmamento.com cujo título da página principal anuncia: “Desarmamento: a falácia” é um deles.  Aqui, o proprietário da home page faz um descabido paralelo entre desarmamento e alguns eventos históricos, como por exemplo, os praticados pelo nazismo. “Quantos judeus armados morreram em Auschwitz?”, pergunta. A resposta vem logo abaixo: “Nenhum. Os nazistas sabiam que indivíduos armados resistiriam ao domínio, mesmo que as chances de sobrevivência fossem pequenas...”.

Confunde aqui o autor o regime de exceção –-de “segurança nacional”--, vivido na Alemanha com o governo democrático e de direito praticado no Brasil após a abertura iniciada em 1974 com o fim do regime militar. O site ainda enumera editoriais de vários jornais do mundo contra leis antiarmas, cartas de celebridades posicionando-se contra o desarmamento, literatura e sítios na internet sobre o tema. Além de uma suposta denúncia que a Rede Globo estaria “se armando” com a compra de munição de uso proibido ao cidadão comum.

Para finalizar o site, irônica e maldosamente coloca ao alcance dos internautas selos e adesivos para serem colocados nas janelas das casas e nos automóveis com os dizeres “Sou da paz: Nessa Casa não temos Armas”, “Meu vizinho não tem armas. Ele defende o desarmamento civil. Em respeito, prometo não defendê-lo com as minhas armas”, entre outras frases de conotação desafiadora.

A perfídia ainda vai mais longe quando receita: “Os cartazes da esquerda e da direita devem ser colocados na frente de casas e locais de trabalho, respectivamente, e se possível em lugar bem visível da rua... O cartaz do centro... seu tamanho reduzido é adequado para o uso em automóveis. Cole-os nos vidros laterais e traseiros. Mostre pros (sic) ladrões, estupradores e sequestradores motorizados que você é da paz e que nós somos todos irmãos. Quem sabe eles não o seguem até em casa para fazer amizade com você?”.

Sinceramente acho que esse site  deveria ser tirado do ar por questão de segurança da comunidade, pois fruto de uma mente que instiga a violência e que mereceria urgente tratamento psicossocial e ser submetido à reeducação para melhorar o convívio com seus semelhantes e familiares por exemplo. Afinal, vivemos em sociedade e o pacto social que assumimos que nos dá o status de “civilizados” e nos diferencia dos animais irracionais implica em direitos e deveres, portanto "quem comigo não ajunta, espalha", disse o Rei dos Judeus (Lucas, 11, 23).

É do conhecimento de todos que o assunto é polêmico, porém entendo que ele deva ser abordado a partir de princípios, e não a partir da realidade atual que vivemos, pois o caos já se encontra instalado e os valores em voga estão profundamente desconexos com o menor do bom senso e ideais de justiça e equidade. Deve, portanto, ser desprezado o olhar policialesco que o sensacionalismo televisivo secularizou e plantou na sala de nossos lares nos últimos anos, e se buscar uma abordagem mais construtiva e humanitária do problema.

No dia 23 de outubro de 2005 o Brasil foi às urnas para votar se era a favor ou contra as armas. 84% dos eleitores votaram por continuar armados. Venceu o “Não” ao desarmamento. Passados 7 anos da realização deste plebiscito, percebemos que nada mudou. O Brasil continua inseguro. O que revela que os brasileiros foram iludidos – e a maioria ainda permanece, a julgar pelo sucesso do tema na internet. Muitos acham que uma arma na mão garante a segurança de uma pessoa. Grande engano. Na maioria das vezes a arma transforma conflitos banais em tragédias onde o jovem é a principal vítima.

As estatísticas mostram quem está mais próximo é quem corre mais perigo: 46% dos homicídios com armas de fogo envolveram pessoas que se conheciam, ou eram vizinhos, parentes ou amigos. Só em 2004 foram 36 mil vítimas de armas de fogo, o que equivale dizer que 100 brasileiros, em média, são mortos por armas de fogo por dia. Esse número só perde para as doenças do coração e cerebrovasculares.

Os defensores das armas, através de sites como o citado acima, prestam tremendo desserviço à Paz. Mais que isso: zombam do governo e das pessoas que se dedicam a promovê-la. Qualquer pessoa de sã consciência sabe que ninguém compra segurança, muito menos através de uma arma. A paz é uma conquista dos cidadãos através da educação. Por isso é necessário posicionar-se também aqueles que são contrários às armas.

Em 2005, por ocasião do Referendo em Defesa da Vida, na condição de vereador em meu município, depois de promover uma audiência pública sobre a campanha de desarmamento, publiquei na edição nº 46 do folder Caderno de Educação Popular, a chamada “Por que dizer SIM no dia 23 de outubro. Vote 2 pelo desarmamento” que se encontra disponível em http://dutracarlito.com/desarmamento.pdf para download. Desnecessário dizer que à época, nenhum colega vereador aderiu a campanha. Neste material elencamos 10 excelentes razões para deixar as armas de lado em nossa vida, entre elas, a 1ª que é a de que existem armas demais neste país (dos 17 milhões de armas existentes, apenas 10% está nas mãos do Estado, o resto, 90% está nas mãos civis)... Sim, armas são inúteis para a cultura da paz.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

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